EUA dizem esperar que Brasil tenha sucesso em diálogo com Irã

Philip Crowley reforçou, no entanto, ceticismo sobre mudança de posição de Teerã.

Alessandra Corrêa, BBC

04 de maio de 2010 | 22h24

Os Estados Unidos esperam que os esforços do Brasil para engajar o Irã nas negociações sobre seu programa nuclear sejam bem-sucedidos, disse nesta terça-feira o porta-voz do Departamento de Estado americano, Philip Crowley.

"Nós esperamos que esses esforços por parte da Turquia, do Brasil e de outros possam ser bem-sucedidos", disse Crowley, em entrevista coletiva, ao comentar o encontro mantido na segunda-feira pela secretária de Estado, Hillary Clinton, e o ministro brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim.

No entanto, Crowley reforçou o ceticismo americano quanto à possibilidade de o Irã mudar de postura e aceitar interromper seu programa nuclear, como exigem os Estados Unidos e outros países.

"Como a secretária disse ontem, eu acho que nós estamos cada vez mais céticos de que os iranianos vão mudar seu curso se não houver um gesto forte e significativo da comunidade internacional", disse.

Hillary e Amorim se reuniram durante 20 minutos na tarde de segunda-feira, durante a conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), realizada em Nova York.

A questão nuclear iraniana dominou a abertura da conferência, com discursos pontuados por críticas e acusações mútuas por parte de Hillary e do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

Reconhecimento

Ao ser questionado sobre se Hillary havia dito a Amorim que os Estados Unidos são gratos pelos esforços do Brasil, Crowley disse que seu país reconhece as tentativas de engajar o Irã nas negociações.

"Certamente, nós estamos. Nós reconhecemos o valor e a importância de diversos países (tentarem) engajar o Irã", afirmou Crowley.

"Eu acho que nós todos estamos enviando a mesma mensagem - de que o Irã tem de responder às questões da comunidade internacional, tem de responder de uma maneira formal e significativa à oferta que foi colocada na mesa no último outono (no Hemisfério Norte)", disse.

Em outubro do ano passado, os Estados Unidos e outros países propuseram ao governo iraniano trocar urânio com baixo nível de enriquecimento pelo material enriquecido no exterior a um nível suficiente para uso pacífico, não militar.

O Irã exige receber o urânio enriquecido no momento em que entregar o seu mateiral e que a troca seja feita em seu território, possibilidades rejeitadas pelos Estados Unidos e outros países.

"Pode ainda haver uma diferença de opinião sobre em que ponto estamos nesse processo", disse Crowley. "Eu acho que há um processo de duas vias aqui, engajamento e pressão."

Viagem de Lula

Segundo Crowley, durante o encontro, Amorim também conversou com Hillary sobre sua recente viagem ao Irã e sobre a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país, programada para o dia 15.

"Nós também estaremos esperando para ouvir os resultados dessa viagem", disse Crowley.

Brasil e Estados Unidos têm posições divergentes sobre a questão nuclear iraniana.

Os Estados Unidos buscam a aprovação pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas de uma nova rodada de sanções contra o Irã, como maneira de pressionar o governo iraniano a interromper seu programa de enriquecimento de urânio.

O temor é o de que o Irã esteja tentando construir armas nucleares secretamente. Essa alegação é negada pelo governo iraniano, que diz que seu programa nuclear é pacífico e tem o objetivo de gerar energia.

O Brasil, que tem uma vaga rotativa no Conselho de Segurança, sem direito a veto, é contra as sanções e defende uma solução negociada para a questão iraniana.

As três rodadas anteriores de sanções não foram suficientea para fazer o Irã mudar de ideia.

Nesta terça-feira, em entrevista coletiva em Nova York, Ahmadinejad disse que ameaças de novas sanções não vão impedir o Irã de manter seu programa nuclear.

O presidente iraniano disse também que seu país não pretende se retirar do TNP, mas quer que o tratado seja reformado e se torne um sistema "justo".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.