EUA dizem esperar que Brasil leve mensagem de pressão ao Irã

Governo americano encara visita de Lula a Teerã como 'última oportunidade de diálogo'.

Alessandra Corrêa, BBC

13 Maio 2010 | 20h54

O governo americano deu vários sinais nesta quinta-feira de que espera que a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã, no fim de semana, represente o último passo na busca de diálogo antes da aplicação de novas sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear.

Em entrevista em Nova York, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU (Organização das Nações Unidas), Susan Rice, disse esperar que Lula envie uma mensagem de pressão ao Irã.

Questionada sobre se a viagem do presidente brasileiro poderia obstruir os progressos nas negociações do P5 + 1 (grupo formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) sobre sanções contra o Irã, Rice rejeitou essa possibilidade e disse que as discussões estão avançando.

"Nós sempre dissemos que esta é uma política de duas mãos, tanto com pressão quanto com oportunidade para diplomacia. Acredito que o progresso que o P5 está obtendo talvez fortaleça as mãos do presidente Lula no momento em que ele entregar uma mensagem a Teerã, que esperamos seja uma mensagem de que a pressão está aumentando", afirmou Rice.

"Caso (o Irã) continue a fazer escolhas erradas, a pressão vai aumentar", disse a embaixadora.

Em Washington, um funcionário do governo americano reforçou essa ideia e disse, em condição de anonimato, que "a visita de Lula talvez seja a última oportunidade de diálogo" sobre a questão nuclear iraniana.

Obama e Medvedev

Também nesta quinta-feira, em uma conversa telefônica, os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e da Rússia, Dmitry Medvedev, discutiram os avanços nas negociações do P5 + 1 em busca de uma nova rodada de sanções contra o Irã.

Segundo a Casa Branca, os dois líderes concordaram em instruir seus negociadores a "intensificar seus esforços para alcançar uma conclusão o mais rápido possível".

Os Estados Unidos têm pressa em aprovar uma quarta rodada de sanções do Conselho de Segurança contra o Irã, como forma de pressionar o governo iraniano a interromper seu programa de enriquecimento de urânio, pois suspeitam que Teerã esteja tentando secretamente desenvolver armas nucleares.

O governo iraniano nega essas alegações e diz que seu programa nuclear é pacífico e tem o objetivo de gerar energia.

A conversa entre Obama e o líder russo ocorreu um dia antes do encontro entre Lula e Medvedev, em Moscou, na primeira escala de uma viagem que levará o presidente brasileiro também ao Catar e a Teerã e que tem como principal tema o programa nuclear iraniano.

Ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil se opõe às sanções e tem defendido uma solução pacífica para a questão.

Como membro permanente do Conselho de Segurança, a Rússia teria o poder de vetar uma resolução contra o Irã, mas já sinalizou que concordaria com uma nova rodada de sanções.

Turquia

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, também se mobilizou nesta quinta-feira. Segundo o Departamento de Estado, Hillary conversou por telefone com o ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, e "deixou clara" a posição americana sobre a questão nuclear iraniana.

Essa posição é a de que o Irã não tem tomado medidas concretas para responder às preocupações da comunidade internacional sobre seu programa nuclear e que a resposta a essa "falta de comprometimento" deve ser um aumento da pressão sobre o governo iraniano.

Assim como o Brasil, a Turquia também ocupa uma vaga rotativa no Conselho de Segurança (ou seja, sem poder de veto) e também é contrária a novas sanções contra o Irã.

Os dois países vêm buscando uma solução negociada para a questão, que possa evitar uma nova rodada de sanções.

Em Moscou, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o Brasil e a Turquia "já têm elementos" para um possível acordo com o governo iraniano.

Segundo Amorim, a base de um acordo seria a proposta já apresentada no ano passado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que prevê o envio de urânio para ser enriquecido em outro país a níveis suficientes para uso pacífico, mas não militar, e sua posterior devolução ao Irã.

Essa proposta foi apresentada em outubro passado, mas não foi adiante pela insistência do Irã em que a troca de urânio ocorresse dentro de seu território e de forma simultânea, exigência negada pelos Estados Unidos e outros países.

Na semana passada, o principal assessor de Obama para a América Latina, Dan Restrepo, disse que o Irã está apenas "tentando ganhar tempo" ao dizer que aceitaria a atuação do Brasil como intermediário em uma negociação sobre seu programa nuclear.

Em outra declaração, o porta-voz do Departamento de Estado disse que os Estados Unidos esperam que os esforços do Brasil e da Turquia possam ser bem-sucedidos, mas que, ao mesmo tempo, estavam "cada vez mais céticos" de que os iranianos mudem de postura em relação a seu programa nuclear. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.