EUA culpam Chávez pelo golpe

O governo dos Estados Unidos responsabilizou hoje o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez de ter provocado a crise que levou à sua saída forçada da presidência e pediu que o país restaure rapidamente a paz e ?os elementos essenciais da democracia, que foram enfraquecidos nos meses recentes?.A administração Bush não lamentou a queda de Chávez, com quem havia praticamente suspendido relações em meses recentes, por causa de declarações e iniciativas hostis do ex-líder venezuelano à campanha de Washington contra o terrorismo.Mas tomou o cuidado de não endossar diretamente o golpe militar que removeu o presidente eleito, nem o governo provisório que tomou posse. Em lugar disso, os EUA manifestaram ?solidariedade com o povo venezuelano? e o desejo de ?trabalhar com as forças democráticas da Venezuela para garantir o pleno exercício dos direitos democráticos?. ?Emboras os detalhes ainda não estejam claros, as ações não democráticas encorajadas pela administração Chávez provocaram a crise na Venezuela?, disse o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleisher. Ele acusou Chávez de ?tentar suprimir demonstrações pacíficas? e dar ordem aos seus adeptos para disparar os tiros que mataram mais de uma dúzia de manifestantes e feriram quase que uma centena.?Os militares venezuelanos agiram de maneira louvável e recusaram-se a atirar nos manifestantes, e a imprensa, valentemente, manteve os público venezuelano informado?, apesar das tentativas de Chávez de censurar os meios de comunicação, disse o porta-voz.Embora os Estados Unidos tenham deixado várias vezes clara a insatisfação com o ex-líder venezuelano, não há indício de participação norte-americana na derrocada de Chávez. O governo de Cuba, que era o mais importante aliado do ex-presidente venezuelano, deixou de incluir os EUA entre os responsáveis ou inspiradores do golpe, que denunciou como um ?complô contra-revolucionário de subversivos ricos?. O colapso da ?revolução bolivariana? de Chávez comprovou a correção da tese do ex-embaixador norte-americano na Venezuela, John Maisto, hoje encarregado pela América Latina no Conselho de Segurança da Casa Branca, em favor de uma atitude de distanciamento passivo com Caracas.Criticado pela linha dura da administração, o moderado Maisto levou a administração a manter uma estratégia de não antagonizar Chávez, sob o argumento que o líder venezuelano era seu próprio pior inimigo.Ainda assim, o golpe militar que levou à remoção de Chávez do poder introduziu várias preocupações. A mais importante é que a Venezuela, um dos maiores fornecedores de petróleo dos EUA, mergulhe novamente numa situação de instabilidade política semelhante à que produziu o fenômeno Chávez, que chegou ao poder três anos atrás com o apoio de mais de 70% da população.O problema mais imediato é diplomático. A derrubada de Chávez é o primeiro teste da Carta Democrática adotada pela Organização dos Estados Americanos, sem setembro do ano passado. A exemplo do que fez o governo brasileiro, a administração Bush informou hoje que iniciou consultas com os parceiros da região, no quadro na Carta Democrática da OEA, para assistir a Venezuela.O presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, disse que, dadas a impopularidade de Chávez entre os venezuelanos, as circunstâncias que levaram à sua derrocada e a rapidez com que as novas autoridades do país anunciaram os planos para uma restauração de um governo eleito, os governos da região não deverão ter dificuldade em validar a intervenção dos militares venezuelanos como uma ação pró-democracia.?Chávez não foi deposto porque era um revolucionário ou autoritário, mas simplesmente porque era incompetente como líder político?, afirmou Hakim. ?Ele foi um desastre para a Venezuela: não apenas mostrou ser incapaz de administrar o país, entregando a política econômica a pessoas claramente despreparadas, como antagonizou todo os grupos e setores da sociedade em torno de questões que não deveriam ser complicadas?, disse.?Ele brigou com a igreja sobre educação, com os sindicatos sobre as regras para eleição de líderes sindicais, em suma, malbaratou rapidamente a grande popularidade com que chegou a poder, tentou alguns esquemas muito custosos e acabou sendo um líder externamente destrutivo?.Para Hakim, embora a saída de cena seja a melhor solução para a Venezuela, ?o episódio mostra mais um fracasso de um governo eleito na América Latina e, nesse sentido, é preocupante?.O presidente do Diálogo Interamericano observou que a Carta Democrática adotada pela OEA não se aplica a nenhuma das quatro interrupções da ordem constitucional registrada na região nos últimos tempos: a queda de Jamil Mahuad, no Equador, de Alberto Fujimori, no Peru, de Fernando de la Rua, na Argentina, e, agora, de Chávez, na Venezuela. Leia tudo sobre a crise na Venezuela

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