'Eu vivia bem quando tinha meu pai', diz Altino Bueno da Silva

Agricultor e comerciante aposentado, ele lembra do pai morto no conflito sempre que é provocado a falar sobre a guerra

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h48

Numa casa de madeira, em frente a uma fábrica de papel, em Fraiburgo, no oeste catarinense, mora a testemunha mais idosa da Guerra do Contestado. O agricultor e comerciante aposentado Altino Bueno da Silva, de 108 anos, perdeu o pai, Manuel, no conflito. Homem de dois metros de altura, Altino vive numa cadeira de roda há oito anos. A mulher, Maria Sirvalina, morreu há 14. Teve oito filhos. A caçula, Catarina, é quem toma conta do pai. "Imagina um coração funcionando 108 anos sem nunca dar pressão alta", diz Catarina.

 

 

É a lembrança do pai, Manuel, que vem na memória de Altino sempre que alguém o provoca a falar do conflito. "Meu pai era de Taquara Verde, era tropeiro. Eu vivia bem quando eu tinha meu pai. Depois ele foi lá no reduto dos jagunços e deixou a gente sofrendo", relata. "Ele deixou a gente numa roça do Vira Peixe."

 

O ódio em relação a Adeodato, chefe dos rebeldes, também é compartilhado por Altino. "O Leodato só carneava pra ele e seus companheiros comerem. Se uma criança ia pedir um pedaço de carne, ele dava. O cachorro tirava a carne da mão da criança e a criança voltava para pedir outra carne. O Leodato se irritava e matava a criança", conta. "Os jagunços pegavam gado de fazendeiro para se alimentar, um, dois."

 

Altino tenta responder a perguntas sobre mitos femininos da guerra. "Maria Rosa? Não lembro". "Chica Pelega? Ah, essa eu ouvi falar (volta a colocar a mão na cabeça)." Catarina, a filha de Altino, diz que, até pouco tempo, o pai contava muitas histórias de Chica Pelega. "Ela era uma mulher muito bonita, que sabia montar muito bem", diz Catarina. Alguns autores sustentam que não há evidencias claras de que Chica Pelega, uma certa Francisca, tenha existido.

 

Ele fala, agora, dos vaqueanos, os homens das fazendas que ajudaram o Exército a massacrar os rebeldes. "Tinha caboclo que entrava no piquetão para ajudar o governo a combater os jagunços", conta. Em seguida, Altino põe a mão esquerda na cabeça, como quem tenta arrancar uma lembrança da memória. Permanece em silêncio por longo tempo. Catarina tenta complementar as descrições do pai. "Ele dizia que os soldados jogavam uma multidão de gente morta no buraco e encobria de terra", relata a filha. "Era no muque que se enterrava."

 

Durante a infância e parte da adolescência, Altino viveu nas fazendas das famílias Libra e Correia, clãs tradicionais da região. "Era um escravo lá", comenta Catarina. Mais tarde, Altino deixou as fazendas e passou a sobreviver da extração de madeiras. As empresas madeireiras chegavam em grande número ao Contestado. A família toda ajudava no corte de araucárias e imbuías.

 

Altino volta a falar da guerra. Fala baixinho, olhando para baixo. De repente, ele ergue a cabeça e descreve os ataques do Exército, imitando o barulho de um bombardeio.

 

Leia o depoimento dele: "Parecia trovoada"

"Meu nome é Altino Bueno da Silva, nasci em 6 de maio de 1903. Eu fui feliz até o dia em que meu pai foi para a guerra. Manoel Bueno da Silva era o nome dele. Minha mãe (Maria Luiza) tinha quatro filhos e enlouqueceu. Antes da guerra, eu era piá (menino). Você não sabe que vida sofrida eu trouxe. Não sei por que a gente fica aí, vivo. Eu não acho um jeito, para não estar sofrendo, de me matar. A gente tinha vaca de leite, animal, porco, mas daí meu pai saiu da casa. Nunca mais voltou. O milho estava empaiolado numa casa que ele construía. Quando a guerra começou, ele colocou os filhos numa volta do rio do Peixe e foi embora, deixou a família abandonada. Naquele tempo, carne de vaca era gorda, não era essa carne seca que a gente come hoje. Com a guerra, muita família morreu de fome e doença. Os jagunços faziam guarnição (comida) de couro. Quando a primeira força do governo bateu lá, os jagunços esperavam sem armas de fogo. Eles se armaram depois. Na primeira vez, brigaram só com facão de guamirim sapecado no fogo. Assim, brigaram com aquela gente armada com winchester e fuzil. Os jagunços tomaram as armas dos soldados só com facões de pau, deram bordoadas nos soldados, sobrou pouquinho soldado. Enquanto os jagunços queriam briga, os soldados saíam correndo. Veio outra força. Eles (soldados) usaram descarga nos jagunços. Aquilo parecia trovoada (faz barulho imitando um bombardeio). Pararam um pouco para embalar as armas (faz gesto de recarregar a arma). Tinha o canhão que dava tiro, um tiro muito forte. Os jagunços tinham uma igreja. A força do governo mirava na igreja e soltava o canhão. Cabou! Estourou! Estoura quando a bala sai, estoura quando bate."

Tudo o que sabemos sobre:
Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.