Arte/Estadão
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'Eu sou Margarida, uma sobrevivente. Tem que ter coragem, mas vale a pena'

Você está acostumado a ler aqui sobre política. Hoje, peço licença para contar a história da Margarida*

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Geralmente você lê sobre política aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Margarida*, de 48 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Meu nome é Margarida *, sou empregada doméstica, tenho 48 anos, cinco filhos e uma história para contar. Eu era pouco mais que uma menina, tinha 16 anos, quando levei o primeiro tapa na cara, ainda no terceiro mês de namoro. Era um aviso, mas eu era muito jovem, muito ingênua, estava apaixonada. Perdoei. Sabe como são essas coisas... 

Casamos dois anos depois e só aí vi o que me esperava.

Quando eu estava grávida de sete meses do meu primeiro filho, eu encontrei o meu marido

com outra. Chorei muito, fui tomar satisfações. Ele gritou, me deu tapas, socos e empurrões. Depois, sempre arranjava um jeito de me bater e chegou a me jogar pedra na rua, na frente dos vizinhos.

Um dia, ele parou de trabalhar, passava o dia inteiro sem fazer nada e começou a comprar bebidas e fazer festas em casa. Eu trabalhava o dia inteiro, numa fábrica de tecidos, e ainda cuidava da casa, da roupa, do meu filho. Chegava tarde e ia fazer a comida, senão, ninguém comia.

A minha família sabia de tudo, mas todo mundo dizia: “Você não quis casar com ele? Agora aguenta!”. Eu me sentia muito só, sem saída, mas só decidi tomar uma atitude quando caiu a ficha de que ele ia acabar me matando.

Foi quando a minha segunda filha estava com um ano, acho até que nem tinha um ano ainda. Eu cheguei e ele estava com uma mulher dentro da minha própria casa. Eu botei ela pra fora, começou uma briga e ele partiu pra cima de mim com socos, empurrões, pontapés. Tudo na frente das crianças.

Aí, não deu mais. Eu pensei: “Meu Deus! O que que eu vou fazer? Quem vai me ajudar?” Foi assim que eu procurei a Delegacia da Mulher, mas foi a maior decepção da minha vida. Nunca mais acreditei na Justiça. Em vez de me ajudar, a delegada mandou chamar o meu marido. Eu morrendo de medo, e ele mentindo pra ela. Disse que eu não cuidava da casa, não queria saber de nada, deixava os filhos jogados. E o pior é que ele disse que a casa em que a gente morava era da família dele.

Sabem o que a delegada fez? Olhou na minha cara e disse: “Se você se separar dele, você é que vai ter de sair de casa”. Eu  me apavorei e respondi: “Mas pra onde eu vou com meus filhos? Eu não tenho pra onde ir!”.

A delegada parecia nem ouvir o que eu falava. Eu comecei a gritar, desesperada, que ele ia me matar, que ninguém queria saber de mim. Aí piorou tudo, porque a delegada disse que era desacato à autoridade e que ia me prender. Eu chorava muito. Eu era a vítima, mas ela me tratava como se eu fosse a culpada.

É claro que eu não podia voltar pra casa com ele. Ele ia me bater, ia me matar, sei lá. Então, eu fugi. Deixei meus filhos com ele e passei três dias debaixo de uma ponte, até que decidi procurar uma casa que ajudava mães solteiras. Foi a minha sorte. Eles me arranjaram um emprego de empregada doméstica. Eu tinha emprego, tinha onde dormir e onde comer. Só tive de largar os meus filhos.

Fiquei anos separada deles, mas nunca deixei de ter contato com eles, cuidar deles. Quando reconstruí minha vida, casei de novo e tive uma casa de novo, os dois já estavam grandes e quiseram ir morar comigo.

Com o novo marido e todos os cinco filhos, eu continuo trabalhando, vivendo a minha vida e acho que preciso contar a minha história, porque tem muita mulher apanhando do marido e achando que não tem saída, que está presa naquela situação e nunca vai conseguir sair dela. Vai, sim. Tem que enfrentar, tem que ter coragem, mas dá certo, sim.

E o primeiro marido? Nunca aconteceu nada com ele. Continuou na casa, bebendo, fazendo festas e todo mundo sabe que ele bate na nova mulher. Acho que vai bater sempre. Deus queira que não mate ela.”

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

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