‘Eu não assumiria para um faz de conta’

Entrevista com Eduardo Braga, senador eleito pelo PMDB e ex-governador do Amazonas

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo,

08 Dezembro 2010 | 23h01

BRASÍLIA - O senador eleito Eduardo Braga (PMDB-AM) chegou a ser confirmado por integrantes da equipe de transição do governo e por ministros com assento no Palácio do Planalto como futuro titular da Previdência Social. Vinte e quatro horas depois, porém, tudo mudou. Braga afirma que não aceitou a tarefa porque não iria assumir a Previdência para "fazer de conta".

 

"Eu fiz muita campanha para a presidente Dilma (Rousseff) e ela não assumiu nenhum compromisso claro de reforma da Previdência", disse ele ao Estado. "Tentaram consolidar minha nomeação publicamente, mas não estou disposto a ceder em certas coisas. Houve muito erro na condução desse processo. Declinei internamente, sem dificuldades. Estou na boa."

 

Dilma queria levar Braga para a Esplanada, mas, na prática, acabou cedendo ao PMDB, que indicou Garibaldi Alves (RN) para acomodar interesses da bancada no Senado, liderada por Renan Calheiros. O ex-governador do Amazonas se recusou a falar em fogo amigo ou "queimação". Disse que Garibaldi é um "grande companheiro" e representa "com tranquilidade" o PMDB.

 

"A presidente Dilma precisa ter completa liberdade para compor a equipe. Não está tendo. O ministério está sendo apenas fruto de composição política", observou Braga.

 

Por que seu nome chegou a ser confirmado pela equipe de transição para ministro da Previdência e o sr. acabou não indo? Foi o sr. que não aceitou?

 

Eu achei que, para mim, não ia dar certo. Para que eu pudesse ser ministro da Previdência, era preciso ter um projeto. Para ir por ir, preferi ficar no Senado. Tentaram consolidar minha nomeação publicamente, mas não estou disposto a ceder em certas coisas. Declinei internamente, sem dificuldades, de forma educada e civilizada.

 

Mas o que aconteceu? O sr. foi vítima de "queimação" da bancada do PMDB em nome de uma acomodação política no Senado?

 

Não sei. Acredito muito em Deus e trabalho de forma aberta e sincera. O senador Garibaldi Alves representa o PMDB com tranquilidade e é um grande companheiro. Não acho que tenha havido qualquer tipo de conspiração e não quero causar constrangimento nem ao PMDB nem ao governo. Estou na boa, viajando com minha família. Agora, houve muito erro na condução desse processo. O resto é resto.

 

Quais foram os erros? Qual é o projeto que o futuro governo tem para a Previdência Social?

 

Eu fiz muita campanha para a presidente Dilma e ela não assumiu nenhum compromisso claro de reforma da Previdência. Eu não iria para lá para fazer de conta. Se fosse, seria para discutir um novo projeto. Como isso não aconteceu, e as discussões são puramente partidárias - sem métodos e objetivos claros -, fiquei pensando o que faria num ministério assim.

 

O sr. conversou pessoalmente com a presidente Dilma?

 

Não. Conversei com Palocci (o futuro ministro da Casa Civil, Antonio Palocci), mas já faz tempo.

 

O senador Garibaldi Alves definiu a Previdência como "um abacaxi que dá para descascar". O sr. concorda?

 

Não é um abacaxi. É um desafio para o próximo ministro, mas não senti nem o PMDB com um projeto nem o futuro governo com um programa para isso. Se é para descascar um abacaxi, quero descascar no meu Estado, o Amazonas. A presidente Dilma precisa ter completa liberdade para compor a equipe. Não está tendo. O Ministério está sendo apenas fruto de composição política.

 

Como assim?

 

É o momento de avançarmos em projetos estratégicos. Talvez, por ser novo no Senado, eu não esteja acostumado com certas coisas. Talvez as indicações sejam a priori e depois se discuta o essencial. Quando eu estava no Executivo, a gente discutia antes qual era o plano para depois escolher as pessoas. Antes dos nomes, eram tratados os compromissos.

 

Mas, se fosse outro ministério, o sr. Aceitaria?

 

Quando o PMDB conversou comigo, a discussão foi em torno de ministérios de agenda regional (Integração Nacional, Cidades e Transportes). Aí seria outra situação.

 

O governo Lula tentou fazer a reforma da Previdência e não conseguiu. O sr. ainda acha possível essa reforma?

 

O Brasil precisa entender que estamos diante de uma oportunidade histórica: para cada aposentado, há de três a quatro brasileiros na ativa. Essa é a oportunidade que o nosso País tem de se preparar para não sofrer crise. Mas repito: não houve qualquer discussão prévia sobre esse assunto.

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