Marcos Correa/Presidência da República
Marcos Correa/Presidência da República

Bolsonaro: ‘Eu abro meu sigilo, não vão me pegar’

Em Dallas, presidente disse que estão ‘fazendo esculacho’ em cima de Flávio Bolsonaro e colocou o seu sigilo bancário à disposição

Beatriz Bulla, enviada especial, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2019 | 12h27
Atualizado 16 de maio de 2019 | 22h09

DALLAS -  O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira, 16, que as investigações do Ministério Público do Rio que envolvem seu filho Flávio Bolsonaro têm por objetivo atingi-lo. Em tom desafiador, o presidente afirmou que Flávio, senador pelo PSL-RJ, é alvo de “esculacho”. “Querem me atingir? Venham pra cima de mim. Querem quebrar meu sigilo, eu sei que tem de ter um fato, mas eu abro o meu sigilo. Não vão me pegar”, disse Bolsonaro durante viagem oficial a Dallas, nos Estados Unidos.

Na cidade americana, onde recebeu uma premiação que, inicialmente, estava prevista para ocorrer em Nova York, Bolsonaro demonstrou irritação ao comentar fatos domésticos. O presidente respondeu a perguntas de jornalistas sempre que era abordado por um grupo de cerca de duas dezenas de apoiadores.

O tema inquérito do MP do Rio foi o que mais o incomodou. A Justiça do Rio, atendendo a pedido da Promotoria, autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Flávio, de seu ex-assessor na Assembleia Legislativa do Estado Fabrício Queiroz e de dezenas de outras pessoas que trabalharam com o então deputado estadual.

Pelo menos oito alvos da quebra de sigilo foram funcionários de Jair Bolsonaro durante seu mandato de deputado federal.

Em dezembro, relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelado pelo Estado, apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta em nome de Queiroz. Uma das transações citadas no relatório é um cheque de R$ 24 mil destinado à atual primeira-dama Michelle Bolsonaro – o presidente disse que o depósito se referia a parcelas de uma dívida de Queiroz com ele.

“Você sabia que naquele grupo junto do Queiroz tinha umas 20 pessoas, uns 20 funcionários. O meu filho estava com R$ 1,2 milhão, segundo o que o Queiroz teria movimentado. Na verdade é metade, porque o Coaf mostra o que entra e o que sai. Tinha uma senhora lá, empregada de um deputado do PT, que teria movimentado, na mesma circunstância, R$ 49 milhões. O que aconteceu com esse deputado? Ele foi eleito neste ano presidente da Alerj. Ninguém tocou no assunto. Façam justiça!”, afirmou ontem Bolsonaro. “Estão fazendo esculacho em cima do meu filho.”

A Justiça do Rio acatou pedido do Ministério Público e determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal do presidente da Alerj, deputado estadual André Ceciliano (PT). Ele é investigado por movimentação financeira suspeita, a partir da Operação Furna da Onça, deflagrada em novembro de 2018. 

Na entrevista em que comentou as investigações, Bolsonaro criticou a imprensa. Segundo ele, “grandes setores da mídia” querem prejudicá-lo. “Desde o começo do meu mandato o pessoal está atrás de mim, o tempo todo usando a minha família. Eu me pergunto, por que isso? Qual a intenção disso? 93 pessoas (na verdade, 95 pessoas e empresas tiveram sigilo bancário quebrado)? Eu não quero acusar outras pessoas, mas está escandaloso esse negócio, está escandaloso”, disse Bolsonaro.

O presidente declarou ainda que o sigilo bancário de Flávio está “quebrado” desde o ano passado, mas só agora, para “dar um verniz de legalidade, quebraram oficialmente”. Em outra manifestação em Dallas, Bolsonaro voltou a falar em “perseguição”. “Estão fazendo uma carga em cima dele desproporcional, descomunal, uma perseguição porque é meu filho, nada mais além disso.”

Ele disse para uma repórter da Folha de S.Paulo “entrar de novo em uma universidade que presta” ao ser questionado pela jornalista sobre o bloqueio de verbas na Educação. Ao ser indagado sobre os protestos realizados anteontem em mais de 250 cidades do País, o presidente manteve postura de confronto.

Bolsonaro: ‘Querem que eu responda a impeachment’‘

Bolsonaro voltou a criticar os manifestantes e disse que viu uma passeata “Lula livre” – sugerindo direcionamento político dos atos. “Quem decide corte não sou eu. Ou querem que eu responda a um processo de impeachment no ano que vem por ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal, por não ter previsto que a receita foi menor do que a despesa?”

O presidente disse que não vai “ceder” ao pleito dos manifestantes em prol da “governabilidade”. “Querem que eu me adeque (sic) pela tal governabilidade? Não vou ceder a pressão nenhuma. É isso que querem? Um presidente vaselina para agradar a todo mundo? Não vai ser eu. O que vai acontecer comigo? O povo que decida, o Parlamento decida, eu vou fazer minha parte. Eu não vou sucumbir.”

Bolsonaro volta a criticar universidade brasileiras

O presidente criticou novamente as universidades brasileiras e disse que há pouca pesquisa de qualidade sendo feita no País. “Entre as 250 melhores universidades do mundo, não tem nenhuma brasileira e vocês vão me falar que estamos prejudicando pesquisa? Pesquisa até temos na Mackenzie, no IME, ITA, em algumas poucas universidades”, disse Bolsonaro. “Quando acabar a nossa commodity, a gente vai viver do quê? Me desculpe agora, baixando o nível, a gente vai viver de capim”, completou o presidente.

Ao falar sobre os problemas na educação, o presidente disse ainda que o IBGE está “errado” nos dados sobre desemprego no País pois há “até mais do que isso” – em referência ao total de desempregados. Segundo ele, parte do desemprego é porque uma parcela da população “não está habilitada a enfrentar um novo mercado de trabalho” porque “o mundo evoluiu”. “Como é que você vai empregar esse pessoal? Tenho pena? Tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém”, disse Bolsonaro.

“Eu digo para todo mundo: não é fácil a vida de ser patrão no Brasil. Empregado? Também não é fácil. O salário é muito para quem paga, é pouco para quem recebe. A garotada está aí se formando, bota um papel na parede, em parte que não serve para nada”, disse Bolsonaro.

Na quarta-feira, 15, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, afirmou que as manifestações eram normais e parte do processo democrático. Nesta manhã, Bolsonaro disse que era o “óbvio” dizer que as manifestações são livres. Segundo ele, a Defesa foi uma das pastas mais afetadas por contingenciamentos no orçamento. “Tem que contingenciar, não tem dinheiro. Não é só um pouquinho na Educação e um montão na Defesa”, disse.

“Não tem recurso. O Parlamento é basicamente quem faz o orçamento, obviamente em grande parceria com o Executivo, prevê arrecadações que estão lá em cima. Daí o pessoal tem no orçamento obras e não se cumpre, não tem como atender. Temos despesa obrigatória. Mais de 90% é despesa obrigatória. Não dá pra cortar 30%, porque 30% atinge o salário de servidor ativo, inativo e pensionista”, disse Bolsonaro.

Ao falar sobre a situação fiscal do Brasil, para justificar o contingenciamento, o presidente disse que o País está “indo para o buraco” e defendeu a reforma da Previdência. Bolsonaro disse ainda que “infelizmente tem que contingenciar tudo quanto é área”. “O Brasil está indo para o buraco e, se for para o buraco de vez, todo mundo vai sofrer junto. Vai faltar topo de bananeira para o pessoal fugir a nado do Brasil. Ou você acha que esse pessoal que está contra a reforma da Previdência quer o quê? Não tem como pagar mais, não tem. Extrapolou. E tem que cortar, de acordo com a lei, de quem ganha mais. Atrasar um pouquinho a aposentadoria”, disse.

Em Dallas, no Texas, Bolsonaro disse ainda que os brasileiros que vivem nos Estados Unidos fugiram da “balbúrdia que está lá”, se referindo ao Brasil.

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