Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Etchegoyen e Villas Bôas negam ação para impeachment de Dilma

Generais se manifestaram após petistas questionaram o papel deles na crise com base em livro de Michel Temer, que relatou seus encontros com militares

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 21h12

Os generais Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, e Sérgio Etchegoyen, ex-chefe do Estado-Maior da Força e ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, reagiram nesta segunda-feira, dia 2, às acusações feitas por quatro deputados federais petistas de que os generais teriam conspirado com o então vice-presidente Michel Temer a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

As afirmações foram feitas pelos deputados federais petistas Paulo Teixeira (SP), Paulo Pimenta (RS), José Guimarães (CE) e Henrique Fontana (RS). Para tanto, os petistas usaram a revelação feita por Temer em seu livro, A Escolha, de que mantivera contatos com a cúpula do Exército e discutiu a situação política do País durante a crise que levaria ao impeachment da petista.

Em nota, escreveu Etchegoyen: “Parece que restou a alguns personagens no seu esforço vão de encontrar uma narrativa para esconder que eles isolaram os militares, desrespeitaram-nos, encenaram uma Comissão da Verdade claramente vingativa, afrontaram a lei para usurpar competências claras dos comandantes e, note bem, o governo nunca nos procurou, ao contrário de muitas outras lideranças políticas da época, não só o vice-presidente, inclusive parlamentares da base de apoio do governo”.

Etchegoyen buscou na Justiça retirar o nome do pai, o general Leo Guedes Etchegoyen, do relatório da CNV, como envolvido em violações dos diretos humanos durante a ditadura militar. A Justiça, porém, negou neste ano o pedido da família. Além de Leo, também é citado no relatório o tio do general, o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, que chefiou a contrainformação do então Centro de Informações do Exército (CIE) e teria frequentado o aparelho clandestino mantido pelo órgão em Petrópolis, no Rio, conhecido como Casa da Morte, local usado como cárcere de presos políticos clandestinos mais tarde executados. 

Em sua nota, o general confirmou o relato feito pelo professor de filosofia Denis Lerrer Rosenfield ao Estadão. O professor, responsável pelas entrevistas de Temer que compõe o livro, contou que os militares tinham queixas contra o PT, que vinham desde a aprovação do Plano nacional de Direitos Humanos-3 e incluíam a realização da Comissão Nacional da Verdade, a pretensão de rever a Lei de Anistia e a tentativa de se alterar as competências dos comandantes das Forças, que podia levar á alteração da forma de promoção dos oficiais generais e do currículo das academias militares.

Etchegoyen segue em seu relato afirmando que os encontros com os políticos mantidos por ele e Villas Bôas constam da agenda do vice-presidente. “É só consultar. Ele (Temer) com sua conhecida educação e fidalguia, foi apenas uma das autoridades com quem conversamos, trocamos impressões e, eventualmente, nos aconselhados.” O general prossegue afirmando nunca ter ouvido de Temer “estímulo a ações ilegítimas ou convite para conspirações”. “A acusação é ridícula. Que poder teriam os militares para impor ao Congresso o resultado de um processo de impeachment no qual o Parlamento e o STF forma os grandes protagonistas, como manda a Constituição?”

Pela sua conta no Twitter, o general Villas Bôas compartilhou a mensagem do colega. A polêmica sobre os contatos entre os militares e Temer ocupa poucas páginas no livro do ex-presidente. Temer deu seu depoimento à quente, quando ainda ocupava a Presidência. Nele, ele disse sobre os militares.“Nós precisamos acabar de uma vez por todas com essa história de que militar é militar e civil é civil; são todos brasileiros , de modo que posso muito naturalmente chamar um militar para compor o ministério.” Na Presidência, Temer nomeara o general Silva e Luna para o Ministério da Defesa, o primeiro militar a ocupar o cargo desde a criação da Pasta, em 1999.

De acordo com o professor Rosenfield, foram vários os encontros de Temer com militares. “Não foi uma vez, foram várias. Tanto como vice quanto como presidente.” Para ele seria estranho que os militares, que ajudaram a fundar a república, não se interessassem pela situação do País. “Qual seria o problema de um vice-presidente conversar com o comandante do Exército? Ninguém estava tramando um golpe. Eu tive a percepção de que Temer poderia ser o próximo presidente e propus o diálogo. E acertei.”

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