Estudo revela as desigualdades das crianças brasileiras

Relatório preliminar organizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela a desigualdade de oportunidades entre as crianças brasileiras. Além da renda, o trabalho demonstra que raça, local de nascimento e até mesmo grau de escolaridade da mãe exercem um papel preponderante sobre as perspectivas de vida. Uma criança negra, por exemplo, tem um risco três vezes maior de não ser alfabetizada do que uma criança branca.Independentemente da cor, se for filho de uma mãe com menos de um ano de escolaridade, a criança tem risco 23 vezes maior de não ser alfabetizada, comparado com uma criança cuja mãe tem mais de 11 anos de escolaridade. Já as que vivem em área rural, têm um risco três vezes maior de trabalhar na infância do que as que vivem em centros urbanos. Desigualdade intolerávelNo documento, o Unicef classifica como intoleráveis as desigualdades existentes no Brasil. Critica que essas diferenças são encaradas com naturalidade por grande parte da sociedade, porque já existem há muito tempo. ?É preciso romper esse ciclo vicioso em que crianças crescem e transmitem a seus filhos as mesmas limitações?, diz a representante do Unicef no Brasil, Reiko Niimi. Ela afirma que as desigualdades estão disseminadas pelo País. ?Em todas as regiões encontramos grupos excluídos, comunidades esquecidas. Seja em grandes centros da Região Sudeste, seja nos pequenos municípios do Nordeste.?Quando dados entre Estados são comparados, as diferenças tornam-se evidentes. Uma criança nascida no Acre, por exemplo, tem 29 vezes mais probabilidade de morar em uma casa sem água do que aquelas nascidas em São Paulo. Uma criança residente no Piauí, um risco 55 vezes maior de morar em uma casa sem esgoto do que uma nascida no Distrito Federal. Isso não significa, porém, que há áreas privilegiadas.A mãe que estudouEntre os dados apontados pelo trabalho, Reiko destaca o impacto da escolaridade da mãe nas perspectivas de vida da criança. O relatório mostra que crianças cujas mães têm menos de um ano de estudo apresentam um risco 4 vezes maior de trabalhar na infância. Esse mesmo grupo tem um risco 11 vezes maior de não freqüentar escola ou 16 vezes maior de morar em uma casa sem água, quando comparadas aos filhos de mulheres com mais de 11 anos de escolaridade.A partir dos resultados desse relatório, o Unicef pretende discutir, com integrantes do governo e ONGs, fórmulas de tentar combater essa exclusão. As discussões começam nesta quinta-feira, durante o 1º Seminário Criança Esperança, realizado em Brasília. Participantes do encontro pretendem formular um documento que deverá ser entregue ao governo no próximo semestre. ?O Unicef sempre deu prioridade para ações no Norte e Nordeste, onde as carências são muito grandes?, diz Reiko. ?Mas os resultados desse trabalho mostram ser preciso criar mecanismos específicos para criar igualdade de condições para vários grupos, qualquer que seja a reunião.?Rampas nas calçadasPara Reiko, a ênfase em criar iniciativas para determinados grupos pode trazer benefícios para a comunidade como um todo. Ela cita como exemplo a construção de rampas em calçadas: ?Elas não privilegiam apenas pessoas portadoras de deficiência. Ela ajuda, também ciclistas ou pessoas que andam com carrinhos de bebê. Medidas que tentam romper com desigualdades beneficiam a sociedade como um todo, não apenas um grupo específico.?O documento defende que, com ?visão multidimensional? há maiores perspectivas para se encontrar uma solução efetiva e sustentável para a pobreza. ?Será preciso um aumento substancial das capacidades de todas as pessoas, principalmente das pessoas atingidas por grande iniqüidade, como os pobres, as mulheres, os afro-descendentes e indígenas, para que vivam uma vida mais saudável, longa e produtiva?, defende o documento do Unicef.

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