Estudo mostra que eleitor desiludido com Bolsonaro pode votar nele de novo por falta de opção

Resultados surpreenderam dirigentes do PT que tiveram acesso à pesquisa e indicam a necessidade de uma correção de rumos na oposição ao presidente

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 15h34

Correções: 09/07/2020 | 17h53

Caro leitor,

A reprovação ao comportamento de Jair Bolsonaro na crise do novo coronavírus não impediu eleitores, mesmo decepcionados, de admitir a possibilidade de votar novamente no presidente, caso ele entre na disputa por novo mandato, em 2022. Bem antes do anúncio feito pelo próprio Bolsonaro de que contraiu a covid-19, um estudo produzido pela Fundação Friedrich Ebert (FES) – e apresentado em reunião do PT – indicou a existência de um contingente de desiludidos disposto a cravar mais uma vez o  nome do capitão reformado nas urnas por motivo bem pragmático: na visão desse grupo, não há outra alternativa política.

A análise, feita com base em pesquisas realizadas em maio, foi debatida pelo partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na prática, trata-se de um estudo qualitativo, intitulado "Bolsonarismo em crise?", para medir os humores do eleitorado. Os resultados impressionaram dirigentes petistas e indicaram a necessidade de uma correção de rumos na oposição ao presidente. Não há acordo, porém, sobre o caminho a seguir.

Na lista dos entrevistados estavam antigos eleitores do PT que mudaram de lado e votaram em Bolsonaro. Embora o chefe do Executivo apresente forte desgaste, ele ainda aparece como competitivo para as próximas eleições não apenas entre bolsonaristas fiéis, mas também entre apoiadores críticos, especialmente num embate contra o PT.

O  sentimento generalizado de desencanto e frustração diante das opções políticas hoje existentes para a corrida de 2022 chamou a atenção da cúpula petista. Houve ali interpretações de que, nesse cenário, o medo da aventura muitas vezes exerce o poder de frear mudanças.

O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro foi definido como “carreirista”, que estaria buscando apenas o próprio benefício, e até “infiltrado no governo”. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), por sua vez, acabou visto por apoiadores críticos de Bolsonaro como “dissimulado” e “um cara oportunista”, entre outros adjetivos. Os dois são possíveis candidatos à sucessão do presidente.

Atualmente, há na Câmara dos Deputados 48 pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Um deles foi protocolado em 21 de maio pelo PT, juntamente com PCdoB, PSTU, PSOL, PCO, PCB e UP. O documento afirma que o presidente cometeu crimes de responsabilidade e atentou contra a saúde pública, colocando a vida da população em risco por causa de seu comportamento na pandemia da covid-19.

O descaso e a falta de responsabilidade de Bolsonaro diante da condução da crise do coronavírus, saindo às ruas sem máscara e provocando aglomerações, aparecem entre os principais argumentos de eleitores que se dizem decepcionados com ele. Mesmo assim, a narrativa do presidente sobre a economia ganhou força: muitos afirmaram que gostariam de manter o isolamento na pandemia, mas consideraram a atitude “inviável” para os pobres, sob risco de desemprego.

O mesmo grupo avaliou que Bolsonaro passou do ponto em seu estilo “agressivo e provocativo” de governar e criou instabilidade. Não foi só: no pacote da frustração de eleitores do presidente foi incluída a conduta dele no trato com os filhos parlamentares  – o  senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na análise qualitativa, os três foram classificados por entrevistados como “inexperientes”, “insensatos”, "despreparados" e "moleques", além de haver a percepção de que possam estar envolvidos em irregularidades.

Até agora, no entanto, nenhum desses problemas – todos graves, diga-se de passagem – foi suficiente para que eleitores críticos de Bolsonaro enxergassem outra alternativa no horizonte. E o PT não consegue dialogar com o conservador de baixa renda, nem mesmo com evangélicos.

“Se você falar das regiões metropolitanas, é um problema que temos de averiguar”, admitiu o ex-prefeito Fernando Haddad, quando questionado sobre o assunto no programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira, 6. “E aí tem um elemento que nós precisamos compreender que é a penetração de um pensamento conservador nas periferias. (...) Mas vamos nos lembrar que esses ciclos não são novos”, afirmou Haddad, derrotado por Bolsonaro na eleição presidencial de 2018.

Ex-ministro da Educação, Haddad observou que governos do PT erraram, no passado, ao não apresentar um projeto de segurança pública para alterar pontos da Constituição. “As pessoas estavam realmente exaustas de tanta violência e a solução de mais violência para combater a violência soou como um ato de desespero”, argumentou ele.

Enquanto Bolsonaro continua fazendo propaganda da cloroquina para combater a covid-19 – desta vez usando a própria doença como marketing –, o PT, isolado, bate cabeça para encontrar um nome viável para 2022. O discurso é o da necessidade de investir, em primeiro lugar, na recuperação dos direitos políticos de Lula. Dificilmente, porém, o ex-presidente será candidato.

Mesmo sem candidatos competitivos, o comando do PT, hoje em dia, só admite Haddad – que saiu da disputa de 2018 com um capital político de 47 milhões de votos – como vice numa chapa presidencial. Quem sabe em dobradinha liderada pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Como se vê, a disputa interna no petismo promete capítulos muito emocionantes.

Correções
09/07/2020 | 17h53

Este texto foi atualizado para incluir que o estudo apresentado em reunião do PT foi produzido pela Fundação Friedrich Ebert (FES). A autoria do estudo é das pesquisadoras Camila Rocha e Esther Solano.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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