Estudante que tenta refundar a Arena tem bolsa no ProUni

Cibele Baginski também defende 'abolição sistemas de cotas raciais, de gênero, ou condições especiais'

Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2012 | 18h08

SÃO PAULO - A estudante Cibele Baginski, de 23 anos, que tenta refundar a Arena, é contra a comunização da sociedade e defende a "abolição de quaisquer sistemas de cotas raciais, de gênero, ou 'condições especiais'", mas não vê como uma contradição receber uma bolsa do ProUni, programa do governo federal que tem como objetivo dar acesso à universidade à população de baixa renda.

A presidente da sigla cursa Direito na Universidade de Caxias do Sul (RS), a cerca de 130 km da capital Porto Alegre, e defende ser legítimo receber o benefício porque o ProUni seria pago com os impostos da população, inclusive os dela.

Desde que publicou o estatuto do partido no Diário Oficial da União na última terça-feira, 13, Cibele afirma já ter recebido mais de 300 e-mails e mensagens no Facebook com questionamentos sobre a nova legenda. Ela também disse sofrer ameaças por querer recriar o partido que deu sustentação ao regime militar.

Ao Estado, a estudante afirmou ser contra a Comissão da Verdade, instituída pelo governo federal em maio deste ano para investigar os crimes cometidos durante a ditadura. "Essa comissão tem um problema, porque ela está sendo uma comissão da meia verdade. Ela vai investigar apenas uma parte do que aconteceu", afirmou em referência ao fato de o grupo não investigar supostos crimes cometidos pelas organizações de esquerda.

O estatuto da nova Arena defende a "abolição de quaisquer sistemas de cotas raciais, de gênero, ou 'condições especiais'", mas você é bolsista do ProUni, um programa do governo federal que tem como objetivo dar acesso à universidade à população de baixa renda. Você considera isso uma contradição?

Não vejo contradição, porque o ProUni é pago com os impostos meus e de todo mundo. E eu entrei (na universidade) porque a minha nota no Enem foi boa. E o Enem, graças a Deus, ainda não tem cota separando por opção sexual, por cor, ou por qualquer outra coisa.

Mas por que o partido é contra as cotas?

Porque isso é tapar o sol com a peneira, ao invés de melhorar a educação básica para fazer com que as pessoas tenham capacidade de passar em um exame nacional, num vestibular, e ganhar a vaga porque merece, esse sistema acaba dando oportunidades para pessoas que não estão bem preparadas.

Em outra entrevista, você disse que o Brasil ainda estaria na idade da pedra se não tivesse existido o regime militar. A Arena apoia o período da ditadura no Brasil?

Toda a história do Brasil reflete o que o País é hoje. Se não tivesse, lá em 1808, o Dom João VI criado a Imprensa Nacional, a gente não ia ter jornal neste País. Se Mario Andreazza, que era caxiense, não tivesse sido ministro (dos Transportes nos governos Costa e Silva e Médici) e feito estrada até onde na época nem se planejava fazer, hoje não ia ter como a gente usar um carro, a gente ia ter que andar de carroça.

Então você acredita que o Brasil estaria menos desenvolvido se não tivesse havido esse período?

Eu nem sei se nós teríamos eletricidade, nós estaríamos vivendo com um monte de apagão. Metade das estradas não existiriam. O período do regime militar foi uma época de estruturação do País.

E como vocês avaliam as centenas de pessoas que morreram por causa do regime militar?

Toda a morte, todo o desaparecimento, qualquer acidente, tanto antigamente quanto hoje em dia, é uma coisa triste. Agora, é aquela coisa, naquela época morreram 100, 200, 300 pessoas, eu não sei, estou sem uma estatística aqui para poder dar um número exato, mas hoje em dia morrem 1.000 pessoas por dia e nós não estamos nem preocupados com elas.

O que acha da criação da Comissão da Verdade?

Essa comissão tem um problema, porque ela está sendo uma comissão da meia verdade. Ela vai investigar apenas uma parte do que aconteceu. Ninguém vai investigar o sequestro do embaixador (americano Charles Burke Elbrick, em 1969) ninguém vai investigar outras coisas ali, como os ataques armados a bancos, porque realmente ninguém quer criar um constrangimento para a presidente da República, por exemplo. Pra mim, ou a Comissão da Verdade investiga tudo ou fecha as portas.

Você acredita que não estão investigando os supostos crimes praticados por grupos de esquerda porque a presidente Dilma participou da luta contra a ditadura?

É tendencioso, e considerando a posição que a senhora Dilma está agora, não é adequado fazer isso, porque ela foi anistiada como outras pessoas foram anistiadas. Então, se for cutucar os dos dois lados, vai ter uma guerra de novo. O pessoal não se toca disso. Se tu estás cutucando a Lei da Anistia, daqui a pouco estás cutucando a Constituinte e daqui a pouco tu vais pegar a Constituição de 1988 e tacar fogo.

Você acha que falta um partido de direita no Brasil?

A direita não está representada de forma alguma. Por isso que as pessoas olharam para a Arena com esperança. A maior parte dos partidos que está aí hoje em dia são de centro, centro-esquerda, alguns são de "esquerda volver". Os partidos de hoje se vendem por governabilidade, esse é o sistema que se criou. E tu tens nesses partidos o sério problema de sufocarem a juventude, sufocarem boas lideranças, pessoas que são sérias, porque são pessoas que querem fazer as coisas direito

Vocês defendem a privatização do sistema penitenciário, mas a estatização de outros serviços considerados fundamentais. Por quê?

Hoje em dia o sistema penitenciário não está funcionando na mão do Estado. Um cara que roubou um pote de margarina vai entrar lá dentro e sair de lá formando quadrilha. Infelizmente se criou um sistema vicioso. Então, o que nós defendemos é uma coisa chamada Estado necessário, o que funciona na mão estatal, ótimo, o que não funciona, ou privativa ou transforma numa autarquia de economia mista.

E por que vocês consideram o reaparelhamento das Forças Armadas importante?

Eu não sei até onde é verdade esses boatos que circulam pelo Facebook, mas eu me assustei quando li que o Exército brasileiro tem munição para um ou dois dias de guerra. Imagina que desastre que isso ia ser. E se acontece alguma coisa? A gente não pode prever. E se alguém vier enfiar uma bomba na bunda dos brasileiros, a gente vai fazer o quê, dançar um samba?

A sua família apoia você na criação do partido?

A minha mãe não dá bola. O meu pai, no começo, ficou muito preocupado. Ficou com medo de acontecer algum atentado, alguma coisa comigo. Ele já começou a teorizar sobre a União Soviética. E aí eu disse: "Meu Deus pai, calma". Aí ele disse: "Calma nada, porque a queda do muro de Berlim foi só um golpe de marketing". Ele ainda é daqueles que acham que a União Soviética é perigosa, porque ele é dessa época da Guerra Fria.

Mas você já sofreu alguma ameaça por estar tentando refundar a Arena?

Já e provavelmente vai acontecer alguma coisa. Eu estou com medo, porque existem pessoas neste País que não sabem cair no debate ideológico, como em outros lugares do mundo em que as pessoas dialogam mesmo tendo ideias diferentes. Há algumas pessoas que o nível de fanatismo é tão grande ou a falta de argumentos é tão grande que elas vão partir para a agressão verbal ou até mesmo física. Não é o que eu desejo. O que eu desejo é fazer o debate político, só isso.

Que tipo de ameaças você já sofreu?

Só algumas foram sérias, aí eu fiz boletim de ocorrência. Mas eu já recebi desde ofensas, injúrias e calúnias até ameaça de morte. Tem gente que não está querendo se filiar ao partido porque sabe que a esquerda tem lá os seus subterfúgios.

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