DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Planalto trata rompimento como ‘decisão pessoal’

Ordem é tentar isolar Cunha e evitar acirramento da relação entre Poderes, para não prejudicar ajuste nem incentivar novas CPIs

Vera Rosa e Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2015 | 16h07

Atualizado às 17h55

Brasília - A estratégia do Palácio do Planalto para enfrentar o novo capítulo da crise política, na véspera do recesso parlamentar, consiste em isolar o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atribuindo sua decisão de romper com o governo a uma posição de cunho “estritamente pessoal”. 

A pedido da presidente Dilma Rousseff, a Secretaria de Comunicação Social divulgou ontem uma nota com três tópicos, na qual diz esperar que a postura do peemedebista “não se reflita nas decisões e nas ações da Presidência da Câmara, que devem ser pautadas pela imparcialidade e pela impessoalidade”. O texto passou pelas mãos do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e não cita o nome de Cunha. 

A maior preocupação do governo, hoje, é com a votação que revê a desoneração da folha de pagamento das empresas, prevista para agosto. A medida é considerada fundamental para o ajuste fiscal comandado pela equipe econômica. 

O vice-presidente Michel Temer, articulador político do governo, conversou ontem quatro vezes com Cunha. Embora não tenha sido surpreendido com o gesto do correligionário, não escondeu a contrariedade com a iniciativa. “Eu não sou um incendiário”, disse o presidente da Câmara. “Tenho responsabilidade com o País e não vou botar fogo no circo.” Se dependesse de Cunha, Temer entregaria agora a articulação política. O vice, porém, seguirá na tarefa. 

À tarde, o PMDB divulgou nota na qual diz que Cunha expressou “posição pessoal, que se respeita pela tradição democrática do PMDB”, e que o partido só toma decisões após consulta a instâncias como a executiva e o diretório nacional da sigla.

Fila. Depois de ter anunciado a criação de três CPIs, como a que vai investigar irregularidades no BNDES, Cunha prometeu em conversas ao longo do dia tirar outras comissões da fila, todas com potencial de criar constrangimentos ao governo. Não foi só: avisou Temer que não adianta ninguém do Executivo procurá-lo com pedidos para segurar projetos que não interessam ao Planalto ou para ajudar a acelerar votações. 

Apesar das ameaças, a ordem no governo é circunscrever a crise a uma “decisão pessoal” de Cunha e tentar reconstruir a base aliada. “A vida segue. Não podemos apostar no acirramento da relação institucional entre os Poderes”, disse o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini. “Não há protocolo prévio do que fazer, mas precisamos manter a serenidade.”

Cunha responsabiliza o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, por ordenar à Receita Federal uma devassa em suas contas. Na nota divulgada ontem, o governo diz que atua “com total isenção” em relação às investigações e lembra que a Receita integra a força-tarefa da Operação Lava Jato, em conjunto com a Polícia Federal e o Ministério Público. 

Para o presidente da Câmara, o ministro da Justiça agiu em dobradinha com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para convencer o delator Julio Camargo a incriminá-lo. Em depoimento na quinta-feira, o delator disse ter pago US$ 5 milhões em propina a Cunha. “Há um bando de aloprados no Planalto”, acusou o peemedebista.


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