Estratégia de Obama vira modelo

Marqueteiros e políticos buscam ajuda de assessores do americano

Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

As estratégias de campanha usadas pelo presidente americano Barack Obama na eleição presidencial de 2008 deflagraram um processo de "obamização" nos preparativos para a corrida presidencial brasileira do ano que vem. Marqueteiros e políticos querem importar o know how desenvolvido por estrategistas que trabalharam com o americano e que ajudaram a criar um novo paradigma eleitoral com a mobilização por meio de redes sociais e a arrecadação recorde via internet.O resultado é a procura por nomes que trabalharam na campanha de Barack Obama para prestar "consultoria" aos brasileiros. No mercado, estima-se que esses contatos, geralmente conversas e sugestões feitas por intermédio de marqueteiros, custem cerca de US$ 30 mil por consultoria prestada. O americano Ben Self, sócio da Blue State Digital, que implementou a plataforma online de arrecadação e mobilização da campanha de Obama, é uma das figuras cortejadas atualmente. Ele deve desembarcar no Brasil em outubro para mais um encontro com João Santana, marqueteiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e provável responsável pela campanha da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). A empresa de Self ajudou a arrecadar US$ 500 milhões via internet - 6,5 milhões de doações online.Outro que vem ao Brasil é o cientista político Peter Giangreco, que criou o marketing direto de Obama. Trata-se de estratégia de contato via mala direta, ida à casa do eleitor, etc. Giangreco trabalhou com o ex-presidente Bill Clinton e é sócio da empresa The Strategy Group. Self, Giangreco e outros dois americanos, especialistas em comunicação e no contato com eleitor via celular - e que, obviamente, também trabalharam com Obama -, participarão de encontro em outubro, em São Paulo, chamado O Efeito Obama, 1 º seminário organizado pela George Washington University no Brasil, do qual participarão marqueteiros do PSDB e o sociólogo Antonio Lavareda. "Vem muita gente perguntar como é que foi a campanha de Obama" disse Bernardo Guimarães, idealizador do seminário e mestrando da George Washington University, que presta consultoria política e de imagem em países da América Latina. "As pessoas querem fazer como a campanha de Obama. No Brasil, os marqueteiros ainda estão focados muito no rádio e na televisão", completou. A peregrinação de estrategistas estrangeiros no Brasil não é nova. Aliás, o Brasil mesmo exporta marqueteiros. Santana, por exemplo, atuou na última campanha presidencial em El Salvador, que elegeu Mauricio Funes neste ano. A diferença agora é que a eleição de Obama explorou novas ferramentas inspiradas na internet. E é isso que chama a atenção no Brasil.Durante as campanhas de 1994 e 1998, que elegeram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o consultor James Carville, que trabalhou com Clinton, era figura presente entre os tucanos. É dele a célebre frase "It´s the economy, stupid" (é a economia, estúpido). A expressão é usada como um mantra por políticos brasileiros."Todo mundo acha que foram redes sociais, uso da internet, etc. Obama ganhou porque era o Obama. Teria vencido mesmo se tivesse feito uma campanha arroz com feijão", disse o marqueteiro Nelson Biondi. O cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília, questiona a eficácia de estratégias usadas nos Estados Unidos na campanha brasileira. A principal razão disso é a diferença entre os dois pleitos. Nos EUA, é colégio eleitoral (sistema em que a vitória em cada Estado dá uma quantidade de votos ao candidato proporcional à população); no Brasil, eleição direta. "Tem muito merchandising nisso. Mas vivemos num País capitalista. A propaganda é a alma do negócio", ironizou Fleisher.INTERNET NO BRASILAs críticas apontam para o limitado alcance da internet no País, apesar de os números mostrarem crescimento. Segundo o IAB (Interactive Advertising Bureau) no Brasil, a internet chegou a cerca de 60 milhões de pessoas em 2008. Na eleição presidencial de 2002, apenas 19 milhões acessaram a rede. A favor dos que defendem maior atenção à rede está o crescimento do acesso à web na classe C. Estima-se que, entre 2007 e 2009, cresça 12 pontos porcentuais nessa classe, contra nove pontos na AB. Nas campanhas de 2006 e 2008, o PSDB tentou sem êxito autorização do Tribunal Superior Eleitoral para fazer a arrecadação de doações via internet. A Câmara aprovou projeto que regula o uso da internet em campanha. O texto, criticado por especialista, ainda será analisado pelo Senado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.