JF DIORIO/ESTADÃO - 14/10/19
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Estratégia de Ciro de atacar o PT ‘está errada’, diz Camilo Santana

Para governador do Ceará, não é possível construir candidaturas de centro-esquerda sem o apoio da sigla petista

Entrevista com

Camilo Santana (PT), governador do Ceará

Ricardo Galhardo e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 05h00

O ex-governador Ciro Gomes (PDT) erra ao adotar uma estratégia de ataques frequentes ao PT. A opinião é do governador do Ceará, Camilo Santana (PT), aliado dos Ferreira Gomes no Estado. Segundo Santana, Ciro erra porque ninguém consegue construir uma candidatura viável de centro-esquerda sem apoio do PT.

Uma das primeiras lideranças do partido a defender uma autocrítica em relação a erros cometidos na economia e na política, o governador reiterou a posição em entrevista ao Estado e disse que o PT também adota uma tática errada na forma como faz oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo ele, o partido deveria ter defendido uma proposta de reforma da Previdência que defendesse os mais pobres em vez de apenas se colocar contra o projeto do governo. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida na segunda-feira passada, antes do desabamento de um prédio de sete andares em Fortaleza.

Os sucessivos ataques de Ciro ao PT podem causar algum abalo na relação entre o senhor e os Ferreira Gomes?

Abalo na relação deles com o PT existe, né? Na nossa relação, não. Temos uma relação muito sólida com base em um projeto no qual a gente acredita para nosso Estado. Posso ter divergências quanto ao comportamento do Ciro, acho que a estratégia dele está errada, mas respeito a posição.

Por que a estratégia de Ciro está errada?

Porque acho que nenhuma candidatura se constituirá à esquerda, centro-esquerda, se não tiver o PT como aliado. O PT demonstrou uma força extraordinária na última eleição. Fernando Haddad teve 47 milhões de votos, o partido elegeu a maior bancada federal, a maioria dos governadores. Tem uma base social muito forte. O Ciro sempre foi muito aliado, Lula não pode mais ser candidato. Defendi lá atrás que Ciro fosse candidato, defendi a chapa Ciro-Haddad, fui um dos primeiros. Era o momento de se unir em torno de um projeto.

Pesquisas mostram que o PT é importante, mas dificulta as candidaturas no segundo turno. O que o PT tem de fazer para tirar esse peso?

Defendi isso ainda no segundo turno (da eleição presidencial de 2018). Achava que Haddad deveria se apresentar para o Brasil de forma diferente. E isso é minha opinião pessoal. Deveria ter ido para a televisão e ter reconhecido que o PT cometeu erros na economia, na política. E como professor, que acredita na educação, se propor a unir o Brasil. Existia uma polarização muito grande.

O senhor já defendeu que o PT faça uma autocrítica.

Acho que um dos erros que o PT tem cometido é não fazer uma autocrítica, não se reinventar, não se renovar. Sou até criticado internamente por essa visão. Mas como quero conquistar o Brasil? Precisa ter uma mudança, principalmente na região Sul-Sudeste, onde se criou um antipetismo muito forte. O PT deve se renovar, se reinventar em alguns aspectos para conquistar essa parcela da população que se decepcionou, que não acredita mais.

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O partido deve mostrar que é possível, que tem coisas muito boas e importantes que já fez e pode fazer.
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O que impede o PT de fazer isso? O senhor não é o único que tem essa opinião.

Talvez um centralismo muito forte. É difícil diagnosticar esse comportamento ou essa tendência. O partido não deve ter o papel de fazer oposição por oposição. Eu, no meu Estado, gosto quando fazem oposição construtiva. Faz com que a gente possa abrir os olhos, ter outra visão. Uma oposição rasteira, politiqueira, isso está fora.

O PT deve ter outra postura em relação ao governo Bolsonaro?

O PT não pode fazer oposição só por oposição ao Bolsonaro, precisa mostrar os caminhos importantes para o crescimento, para a desigualdade social no Brasil. Por isso que tive aquele comportamento na reforma da Previdência. Não só meu, mas do Rui (Costa, governador da Bahia), do Wellington (Dias, governador do Piauí). É inegável a necessidade de uma reforma. Eu fiz em 2016 no meu Estado, só não mudei a idade porque Constituição não permite. Mas esse é um problema que os Estados e o País precisam enfrentar.

Nosso papel é defender uma previdência que não prejudique os mais pobres, o rural, que não tenha capitalização, defender a importância de fazer uma reforma e tirar privilégios sem prejudicar a camada mais pobre e mais sofrida da população. Era isso que eu acreditava que o PT devia defender.

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O PT não pode fazer oposição só por oposição ao Bolsonaro, precisa mostrar os caminhos importantes para o crescimento, para a desigualdade social no Brasil.
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O senhor acha que a esquerda perdeu a oportunidade de defender essa bandeira do fim dos privilégios?

Eu acho. Dizer: nós somos a favor da reforma, mas uma que não prejudique (os mais pobres). Essa era a bandeira. Eu, apesar de ter sido vencido, defendi esse caminho.

Qual o papel que o ex-presidente Lula deve desempenhar?

Sem dúvida alguma considero o Lula a maior liderança política do Brasil. Tem um poder de influencia muito grande, eleitoralmente. Considero injusta a prisão dele. A decisão sobre a liberdade dele ou não, influenciará muito no rumo político do Brasil, não tenho dúvida disso.

Bolsonaro teve o pior desempenho eleitoral no Nordeste, mas ele está fazendo muitas ações para tentar ganhar a simpatia da população. Está dando resultado?

Cientificamente, pelo menos no meu Estado, não.

Como está a relação do senhor com o governo? 

Parto do principio de que ele é o presidente de todos os brasileiros e eu o governador de todos os cearenses. Independente de quem seja o presidente, nossa relação tem que ser respeitosa, institucional, e tenho buscado. Vou nos ministérios, procuro minha bancada de deputados, senadores. O que eu puder fazer em termos de interlocução, de buscar recursos, de ações para o Estado, irei fazer, estou fazendo e continuarei fazendo. 

O senhor sente alguma reciprocidade?

O governo tem colocado claramente a falta de recursos, as dificuldades, o contingenciamento. Das vezes que eu procurei, no episódio de janeiro (quando houve rebeliões em presídios no Ceará), sempre tenho tido conversas com o ministro (Sérgio) Moro, com o ministro Paulo Guedes, eles têm nos recebido. 

Na última crise de segurança houve ajuda material?

Eu apenas pedi vagas no sistema prisional federal para transferir algumas pessoas, mas a relação foi cordial, por telefone, se colocando à disposição. Liberaram as vagas.

Quais medidas o senhor está tomando na área da Segurança Pública?

Implantamos um sistema de reconhecimento das placas dos carros usados em crimes. É uma tecnologia totalmente desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará. Agora estamos já estamos entrando no reconhecimento facial.

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