Daniel Teixeira/AE
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Estou confiante na recuperação de Lula, diz Haddad

Candidado à Prefeitura de São Paulo, petista se diz preparado para seu primeiro cargo eletivo

Sonia Racy e Paula Bonelli, de O Estado de S.Paulo

02 Abril 2012 | 07h03

Ainda pouco conhecido do eleitor em São Paulo, Fernando Haddad, ex-ministro de Lula e Dilma, admitiu, publicamente, desejo de disputar São Paulo em julho de 2011. Nascido na data do aniversário da cidade, o candidato diz que nunca pensou em qualquer cargo eletivo até Lula sugerir e apoia-lo. Mas, em política, afirma que pensou sempre. Sob exemplo do avô, Cury Habib Haddad: um misto de político e religioso que, viúvo, tornou-se padre da Igreja Cristã Ortodoxa do Líbano e determinado combatente do domínio francês.

 

Ao receber a coluna no diretório do PT paulistano, Haddad se mostrou confortável no seu novo papel. Só não gostou mesmo ao ser perguntado sobre o julgamento do mensalão em tempos de eleição. E evitou criticar Marta Suplicy: acredita que ela vai aderir à campanha. A seguir, os melhores momentos da conversa.

 

Como o senhor vê sua cruzada, caso Lula não possa entrar com mais vigor?

 

Estou muito confiante na recuperação do presidente. O tumor desapareceu. As notícias são as melhores. Ele vai se recuperar muito rapidamente agora.

 

Ele é muito importante para a sua campanha, não é?

 

Isso é muito pouco. O Lula é importante para o Brasil, para o PT e para os demais partidos da base aliada. Estamos falando de mais de 30 anos de história política – e, talvez, do político que mais tenha sofrido preconceito. Ele foi pessoalmente agredido em várias circunstâncias, como sendo uma pessoa incapaz. E mesmo sem acesso à educação formal, demonstrou ser mais capaz do que a maioria de seus antecessores.

 

Como o senhor resolveu ser intelectual?

 

Por influência da minha mãe, sempre gostei de escola, sempre fui bom aluno. Meu sonho, inclusive, era comprar a escola em que estudei.

 

E o caminho da política?

 

Entrei na Faculdade de Direito da USP e me envolvi com um grupo político muito divertido, de vanguarda para a época. Chamava-se The Pravda (o The era do The New York Times). Queríamos mostrar que não tínhamos visão de mundo bipolar, de Guerra Fria. Queríamos uma coisa diferente. O nome sugeria uma dimensão corporal, erótica, uma política mais voltada para a cultura. Aquilo pegou fogo na Faculdade de Direito e eu me vi arrastado pelo movimento. Depois, me tornei presidente do centro acadêmico.

 

Aí entrou para a política ou abriu escritório de advocacia?

 

Tive escritório por pouco tempo, porque logo iniciei o mestrado em Economia, depois o doutorado em Filosofia. Enquanto estudava, trabalhava em negócios familiares, foram doze anos com meu pai na 25 de Março. E passei um tempo com meu cunhado, que é engenheiro, numa incorporadora e construtora. Também trabalhei no sistema financeiro, no Unibanco. Depois que integrei o corpo docente da USP, dei consultoria na Fipe.

 

Como o senhor vê o papel do intelectual na política?

 

Sempre considerei a política uma atividade nobre, por influência do meu avô. Ele era líder religioso no Líbano. Lá, o líder religioso é também líder político, as coisas se confundem. Meu avô é lembrado na cidade dele (Ainata, perto de Zahle, capital do Vale do Bekaa) até hoje. E olha que saiu de lá aos 60 anos e morreu há mais de meio século!

 

Então essa ideia de a política ser nobre vem daí? O político brasileiro não tem essa imagem.

 

A ideia que faço da atividade política é a da figura que dedica a vida ao bem comum. Para levar a sério a política, é preciso se preparar muito. Passei vinte anos dentro de uma biblioteca antes de assumir minha primeira função pública, na secretaria de finanças de Marta.

 

São Paulo é o terceiro orçamento do Brasil – o primeiro é o da União, o segundo é o do Estado. Para gerir um orçamento desse tamanho, o senhor acha que basta a parte teórica?

 

O orçamento do Ministério da Educação é o dobro do de São Paulo: R$ 80 bilhões. A gestão é um pressuposto. Fui secretário municipal, fui subsecretário municipal dois anos e meio, depois trabalhei na equipe do Guido Mantega por quase um ano, no Planejamento. E mais um ano e meio como secretário executivo do Ministério da Educação. São onze anos ininterruptos de gestão pública, assumindo responsabilidades cada vez maiores.

 

Pensava em ser prefeito de SP?

 

Trabalhei na Prefeitura numa época dura. Assumi as funções que o João Sayad me designou na secretaria no período pós-Celso Pitta. Nem queira saber o que foi. Passamos um ano e meio saneando as finanças de São Paulo.

 

E quando decidiu ser prefeito?

 

No final do governo Lula, eu me preparava para voltar a São Paulo, entendia que estava se fechando um ciclo e o correto era dar oportunidade a um novo quadro para seguir o caminho do Ministério da Educação. Aliás, muito bem conduzido pelo Aloizio Mercadante. Conversando com o presidente sobre esse retorno definitivo a São Paulo, ele aventou a possibilidade de que viesse para cá esse vento de renovação que o Brasil está experimentando em algumas regiões. O Lula cita sempre Marcelo Déda, Eduardo Campos, Cid Gomes, Sérgio Cabral. Ele gosta de falar dessa geração de governadores, e disse: "Acho que o PT devia seguir esse caminho e lançar um nome novo. E penso que o seu é o mais adequado".

 

O que o senhor respondeu?

 

"Mas há espaço no partido para discutir essa tese?". Porque os partidos são refratários à renovação. Veja o que aconteceu com o PSDB: foi tentar renovar, voltou atrás. Imaginei que isso pudesse acontecer. Porque é uma iniciativa ousada lançar para prefeito uma pessoa que nunca concorreu a cargo eletivo. Ele disse que ia conversar com nossos pares. Pouco depois, me disse que sentia boa receptividade.

 

É duro o dia a dia de candidato?

 

De candidato, ainda não sei. De pré-candidato não é. Sobretudo depois do Ministério.

 

A sua família vai aparecer na propaganda na TV? Já está pensando nisso?

 

Minha mulher me acompanha em tudo desde sempre. Estela é professora da USP, fizemos carreira acadêmica juntos, fomos para Brasília juntos, convidados por dois ministros – ela pelo Cristovam Buarque, eu pelo Guido. Depois que me tornei ministro da Educação, ela foi convidada a trabalhar no Ministério da Saúde, onde esteve até recentemente. Sempre caminhamos juntos: moramos no exterior juntos e temos uma história profissional juntos. Eu a vejo atuando, ela entende muito de saúde, vai compor a equipe de elaboração do programa de governo.

 

História parecida com a de FHC e dona Ruth.

 

É a história de muitos casais que eu conheço. São professores, é muito comum casais de professores.

Tem gente que acha que Lula o escolheu para disputar São Paulo porque o sr. parece tucano.

Não vejo assim.

 

Considera a gestão Serra/Kassab uma só?

 

Considero, mas não por ele ter sido vice do Serra e estar apoiando o Serra agora. É que a visão de cidade é a mesma. O Serra ficou um ano. E cinco secretários nomeados por ele continuam na Prefeitura. Os cargos centrais da administração do Kassab são homens de confiança do Serra.

 

O que gosta de fazer quando não está trabalhando?

As duas coisas de que mais gosto são música e cinema. Sou muito eclético. Cresci ouvindo Beatles, Led Zeppelin, The Who, Deep Purple. Hoje ouço mais violão clássico, gosto de Tárrega, Albéniz, Villa-Lobos. E já tive minha fase de jazz.

 

Toca alguma coisa?

 

Violão.

 

Canta?

 

Aí piora bem (risos).

 

E do que gosta em cinema?

 

Tenho aquele panteão clássico: Kubrick, Coppola, Bertolucci, Fellini. Também curto muito Scorsese, adorei o último dele (A Invenção de Hugo Cabret).

 

Viu 'Tudo Pelo Poder'?

 

Não vi o filme, mas me recomendaram.

 

Quais líderes políticos o senhor admira?

 

O Roosevelt me vem à mente muito rapidamente. É uma pessoa que entendeu seu tempo e agiu. Isso não é comum. Sou fã do Lula também. E acho o Nelson Mandela espetacular.

 

E a crise internacional?

 

Desde o final dos anos 90 essa crise está anunciada, em virtude da desregulamentação do sistema financeiro internacional, ou seja, já se sabia que esse projeto ia gerar o problema que estamos vivendo hoje. Agora, encontra o Brasil numa condição excelente, com US$ 350 bilhões de reservas, com solidez fiscal.

 

O Brasil se salvou por ter chegado tarde à festa?

 

A gente passou pela festa, teve o Proer.

Refiro-me à festa de excesso de liquidez.

Fomos três vezes ao FMI. Foram três acordos.

Acredita que a crise vai mudar algum parâmetro?

Depende muito da Alemanha, porque a situação fiscal na Europa como um todo não é ruim, mas a dos estados-membros sim. Depende do projeto de hegemonia alemão. Se a Alemanha entender que a União Europeia lhe traz vantagens competitivas em relação a Ásia e EUA, pode bancar uma parte, com apoio de organismos internacionais. Agora, se quiser colocar toda a conta nos ombros dos americanos, a UE pode se fragmentar. É isso que a Alemanha tem de sopesar, o quanto ela está disposta. É essa a resposta que o mundo está esperando.

 

E sua agenda para o meio ambiente?

 

É uma agenda definitiva, não tem mais retorno. Houve avanços importantes na legislação. Entendo que poderiam ser maiores mas, enfim, dependendo do que a Câmara fizer quanto ao Código Florestal. Os submarinos é que são difíceis de aguentar, aquelas emendas que entram de última hora para salvaguardar interesses particulares. E considero correta a decisão do governo de investir em hidrelétricas no Norte. Acho que foi um equívoco de alguns ambientalistas não enxergarem que nossa matriz só se manterá limpa se houver esse investimento.

 

Há quem diga que o senhor reflete muito antes de agir e isso, em alguns momentos, pode atrasar suas decisões.

 

Em geral, tomo decisões rapidamente. Não me lembro de nenhum assunto ter parado na minha mesa muito tempo. Tanto é verdade que, no meu período à frente do MEC, aconteceu a mais profunda e extensa reforma educacional da história.

 

Pensa que o mensalão será um fator na campanha?

 

Acredito que não, porque vamos discutir a cidade e a biografia dos candidatos. É a biografia dos candidatos que está em jogo, suponho.

 

Mas acha que atrapalha se o PT for condenado pelo STF?

 

Não existe pena para coletivos, só para individuais.

 

Qual sua convicção sobre o mensalão?

 

Acredito que não houve enriquecimento pessoal ou do partido. Não se tem notícia de nenhum indício nessa direção. Acho, inclusive, que o partido ignorava aquela movimentação. Agora, você vai perguntar ao Serra se o livro Privataria Tucana vai prejudicar a campanha dele? Nunca vi essa pergunta ser feita a ele...

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