''Estou chocado'', diz fiscal que teria sido alvo de Valério

Segundo a PF, operador do mensalão articulou vingança contra o agente

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

13 de outubro de 2008 | 00h00

"Eu nem sabia quem estava por trás desse negócio, eu não tinha nem idéia do que estava acontecendo, estou chocado, Deus me livre", desabafou Eduardo Fridman, agente fiscal de rendas da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, alvo, segundo a Polícia Federal, de uma farsa montada pelo empresário Marcos Valério, operador do mensalão. Valério foi preso durante a Operação Avalanche, da PF, na sexta-feira, acusado de envolvimento em fraudes tributárias, corrupção ativa e formação de quadrilha para extorsão de empresários em débito com o Tesouro. Indiciado no sábado, o empresário nega envolvimento no esquema.Fridman, de 48 anos, é formado em Engenharia Mecânica, casado. Tem 3 filhos. Em 1997 ele passou no concurso para fiscal, carreira que assumiu no ano seguinte. Desde 2002 atua como supervisor de Fiscalização da Diretoria Executiva de Administração Tributária (Deat) da Fazenda. Seu trabalho consiste basicamente no planejamento de fiscalização. São três as áreas sob seu crivo: bebidas, alimentos e produtos farmacêuticos.O embuste contra Fridman e um colega dele, o fiscal Antonio Carlos de Moura Campos, foi descoberto por acaso pela Inteligência da PF e pela Procuradoria da República. A investigação sobre o sumiço de R$ 600 mil que haviam sido apreendidos no Bingo Matarazzo, em São Paulo, levou à identificação de agentes federais envolvidos com Valério, que caiu no grampo da PF supostamente articulando uma trama para desmoralizar Fridman e Moura, que é diretor-adjunto da Deat. "Ele (Moura) é meu superior hierárquico, ingressou na Fazenda em 1983. É um ícone da fiscalização."Segundo a PF, Fridman e Moura autuaram a Cervejaria Petrópolis em R$ 104,54 milhões por sonegação de tributos estaduais. A vingança teria sido articulada por Valério, amigo e conselheiro de Walter Faria, presidente da cervejaria que, em 2007, faturou R$ 1,023 bilhão. A Petrópolis nega ter relação de trabalho com Valério.O operador do mensalão, afirma a PF, contratou dois advogados para fazer o elo com delegados federais para montar um inquérito frio contra os fiscais, para intimidá-los. Antonio Vieira da Silva Hadano e Silvio Salazar, os delegados da PF, foram presos preventivamente, por requerimento do procurador da República Roberto Diana, que foi acatado pela juíza federal Paula Mantovani. Os federais trabalhavam na Delegacia de Santos. A PF suspeita que eles iriam receber R$ 3 milhões pelo inquérito forjado."Quando fui intimado, sofri um baque psicológico", conta Fridman. "Fiquei muito abatido. Imagina! A gente faz a nossa função. As pessoas que trabalham comigo me deram apoio. Uma denúncia dessas é um horror. Já fiquei arrasado uma vez. Agora com essas surpresas todas, meu nome ligado a um escândalo envolvendo Marcos Valério. A repercussão é horrível. Agora fico sabendo quem está por trás da denúncia. Na ocasião não tinha noção."Quem o intimou foi o delegado Hadano. A notificação foi enviada à cúpula da Fazenda. Fridman atendeu à convocação e depôs durante hora e meia, em julho. Moura foi ouvido no mesmo dia, mas em sala separada. O delegado informou que contra eles havia uma "denúncia apócrifa" - exibiu-lhes texto datilografado sem identificação do autor - que os envolvia em contrabando e desembaraço de madeira no porto."O delegado (Hadano) disse que a denúncia colocava o Moura como dono de uma empresa na Argentina e que eu era o laranja dele", lembra Fridman. "Dizia ainda que a gente utilizava da nossa influência junto ao pessoal do porto. Um negócio absurdo. O que mais me surpreendeu é que abriram inquérito com base em uma denúncia anônima, papel sem timbre. Não tinha denunciante.""(Hadano) foi cordial", conta Fridman. "Me pareceu profissional. Esclareci tudo o que ele perguntou. Queria saber exatamente o que eu fazia, a minha relação com Moura. Depois disse que era para eu ficar tranqüilo. Deu a entender que ia terminar tudo bem."Fridman destacou que não faz trabalho na rua. "Trabalho com informações, planejamento das empresas que vão ser fiscalizadas. Quem vai in loco é o pessoal das delegacias, no caso da cervejaria deve ter sido o pessoal de Sorocaba. Eu não lavro auto de infração. O planejamento é calcado em um trabalho de inteligência bem sofisticado, minucioso, que obedece critérios rígidos."A Avalanche prendeu 17 envolvidos na trama. "Dezessete presos? Que horror!", disse Fridman, que ficou sabendo da ação da PF por um amigo que lhe telefonou para avisá-lo do noticiário da TV, sexta-feira.De Marcos Valério só tinha ouvido falar pela imprensa no escândalo do mensalão. "Fiquei muito surpreso. Não faço a menor idéia de como foi parar nisso. Se arquivarem o inquérito (contra ele e Moura) é melhor. Não creio que seja alguma coisa pessoal, a desmoralização era contra a instituição."

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