Gualter Naves/Agência Estado
Gualter Naves/Agência Estado

'Estou atento às questões nacionais', diz Patrus

Ex-ministro foi citado por Lula como exemplo de quadro experiente do PT que deveria disputar as eleições municipais em 2020

Entrevista com

Patrus Ananias, deputado federal

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 04h00

Ex-ministro do Desenvolvimento Social responsável pela implantação do Bolsa Família, o deputado Patrus Ananias (PT-MG) foi citado nominalmente pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como exemplo de quadro experiente do PT que deveria disputar as eleições municipais do ano que vem – no caso, a prefeitura de Belo Horizonte, cargo que já ocupou entre 1993 e 1996.

Patrus, no entanto, está mais preocupado com as questões nacionais como a soberania. Segundo ele, o PT deve aproveitar as eleições do ano que vem para criar vínculos programáticos com outras forças de centro-esquerda e fazer um debate "pedagógico" com a população sobre os efeitos do governo Jair Bolsonaro com vistas a 2022.

Leia os principais trechos da entrevista de Patrus ao Estado.

O senhor vai se candidatar à prefeitura de Belo Horizonte?

Fico muito honrado e sensibilizado por meu nome ter sido lembrado por aquele que considero ser o maior estadista do Brasil e ter sido ministro de Lula por mais de sete anos mas neste momento estou muito atento às questões nacionais. Lançamos a Frente Parlamentar em defesa da Soberania Nacional. Nosso compromisso é que essa frente se faça presente para vincular a soberania com uma discussão do Brasil no sentido amplo. 

O PT deve lançar o maior número de candidatos possível ou abrir mão em alguns lugares em nome de alianças com outros partidos de centro/esquerda? 

Eu tendo a trabalhar com bastante carinho a questão das alianças. Que a gente faça programa de governo e assuma compromissos claros com a população considerando a realidade de cada município. Vejo dois níveis de alianças. O primeiro mais amplo, não só eleitoral, com todas as forças comprometidas com o estado democrático de direito e liberdades que estão ameaçadas, ainda que tenhamos divergências em políticas econômicas e sociais. E depois buscarmos alianças mais eleitorais com forças políticas mais comprometidas com a pauta da justiça social. 

A disputa de 2022 passa pelas eleições do ano que vem?

É claro. O processo eleitoral é muito importante, por isso acho que temos que valorizar muito a questão programática com forças comprometidas com a justiça social. O momento é pedagógico. Temos que discutir com as famílias e as comunidades as questões políticas. A questão da soberania, por exemplo, é extremamente preocupante. Temos um governo que embora fale muito do Brasil, use as cores da pátria, não tem nenhum compromisso com o País, não tem um projeto nem compromisso com o povo. É um governo a serviço de interesses do grande capital e de nações poderosas como os EUA. Considero que dada a gravidade deste momento devemos levar em conta o caráter pedagógico e aproveitar a eleição para debatermos as questões nacionais.

Quais meios o PT  e a oposição podem usar para fazer este debate com a sociedade?

Acho que o PT teve um começo muito bom, mas depois as responsabilidades de governo nos afastaram um pouco disso. Precisamos recuperar a área de formação política. Penso que agora temos que conciliar mais isso, o trabalho e base, recuperando nossa pedagogia, mas sem impor às pessoas uma doutrinação. É refletir com as pessoas em um processo e ensinar e aprender juntos. Sei que isso não é fácil hoje em dia, sei da dificuldade de entrarmos nas favelas.

O PT deve dialogar mais com as igrejas evangélicas?

Sim. O PT deve dialogar mais com todas as forças sociais que tenham compromisso com o bem comum. Sou cristão, católico. Minha formação política se deu através dos valores evangélicos. Estou convencido de que os valores evangélicos são profundamente comprometidos com a dignidade da pessoa humana, com a justiça social, com os pobres e excluídos.

O ex-presidente Lula defendeu o aprofundamento da polarização.  O senhor concorda?

Ele está certíssimo. Este é um governo que está entregando o País, desmontando todas as políticas sociais que nós fizemos como o Bolsa Família, as políticas de inclusão social. É um governo que faz ameaças permanentes ao estado democrático de direito. Em relação a este governo temos que fazer uma oposição muito clara, democrática, mas vigorosa.

Lula também falou que "um pouco de radicalismo faz bem à nossa alma". Paulo Guedes interpretou como uma incitação a "quebrar as ruas" para falar da volta do AI-5. Como o senhor vê as reações à fala de Lula?

Concordo com Lula. Ser radical é ir à raiz dos problemas, discutir as causas da desigualdade social.

Como o PT deve lidar com as denúncias de corrupção que ainda têm repercussão principalmente no Judiciário?  O ex-governador Fernando Pimentel, por exemplo, e o próprio Lula acabam de ser condenados.

Primeiro considero que Lula foi um preso político. Vivemos uma onda conservadora de direita no Brasil que esta muito presente no Poder Judiciário e no Ministério Público. De forma mais geral o PT assumiu sim uma prática que é histórica no Brasil, o financiamento privado de campanhas. Sobre isso é importante fazermos uma revisão.

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