Estilista, apresentador e político, sem travas na língua

PERFIL

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2009 | 00h00

Clodovil morreu com a fama de um político bem votado. Teve 493.951 votos nas eleições para a Câmara, em 2006, a terceira maior votação de São Paulo. Mas essa foi a fase mais curta de sua vida pública, iniciada há 50 anos. Antes disso foi estilista, apresentador de TV, figurinista de teatro, ator, cantor.Por onde passou caracterizou-se como um provocador, dos mais ferinos. Certa vez chamou a prefeita Marta Suplicy de "perua que teve sorte". Seu primeiro alvo foi o estilista Dener Pamplona de Abreu, o rei da alta costura brasileira entre os 50 e 60. Ao adentrar esse mundo, com um prêmio de estilista revelação, Clodovil proclamou que era a novidade e Dener, o passado.Clodovil nunca teve o mesmo prestígio de Dener. Mas conquistou espaço no mundo da alta costura e lá permaneceu até que ela começou a perder espaço. Para ele, as modelos de hoje, que desfilam no São Paulo Fashion Week, não têm nada a ver com as do passado: "Moda era fascínio, glamour, não um bando de esquálidas com andar de vaca tropeçando."Nos anos 70, ficou famoso ao participar de um programa de perguntas e respostas, chamado 8 ou 800, na TV Globo. Respondeu sobre a vida de Dona Beja, cortesã mineira do século 19. A fama cresceu nos anos 80, ao apresentar um quadro do programa matinal TV Mulher, na Rede Globo - o mesmo programa que tornou conhecida a sexóloga Marta Suplicy. Depois dessa experiência bem-sucedida, não deixou mais a TV. Passou pela extinta Rede Manchete, pela Bandeirantes, Rede TV e, finalmente, pela TV JB.Em todos os canais causou polêmicas. Na Rede TV, se desentendeu com a direção da emissora e deixou o programa no ar. Em 2004, foi acusado de racismo, por ter se referido à vereadora paulistana Claudete Alves (PT), que é negra, como "uma macaca de tailleur, metida a besta".Natural de Elisiário, interior de São Paulo, Clodovil faria 72 anos em junho. Chegou à Câmara eleito pelo nanico PTC, que logo trocou pelo PR. Em 2007 enfrentou críticas ao afirmar as que mulheres hoje "trabalham deitadas e descansam em pé". Questionado pela deputada Cida Diogo (PT-RJ) sobre essa declaração, respondeu que ela não deveria se ofender, porque nunca poderia se prostituir: "A senhora é uma mulher feia."Entre os projetos que apresentou, existe uma proposta de emenda constitucional que reduz o número de deputados dos atuais 513 para 250. REPERCUSSÃOLilian PaceJornalista e crítica de moda"Ele foi um dos primeiros a trazer um espírito nacionalista para a moda. Era um rebelde nato, tinha a fantasia da mulher bonita, feminina, uma combinação muito boa, além, é claro, da língua afiada"Marcelo SommerEstilista"Clodovil faz parte do meu repertório de moda. Lembro muito do casamento da filha da amiga da minha mãe em 1982, quando a mãe e a irmã do noivo foram fazer o vestido delas com o Clodovil. Elas foram com ele para Paris comprar o tecido. O vestido era inacreditável"Nilton TravessoDiretor de TV"Trabalhamos juntos por 42 anos. Era uma pessoa difícil, mas de uma cabeça, de uma inteligência rara! Eu o levei para o TV Mulher, depois para a Manchete e para a Band, de onde ele saiu por falar mal do patrocinador no ar"Fausto SilvaApresentador de TV"O inteligente e articulado Clodovil foi vítima do seu próprio temperamento, mas sua generosidade e gratidão são incontestáveis. Quem conheceu um pouco da origem dele, até entende algumas de suas reações na vida e na profissão"Arlindo ChinagliaEx-presidente da Câmara "Lamento a morte dele. Ele via a ação parlamentar de forma muito própria, já que nunca tinha sido candidato. Estava aprendendo essa dosagem entre a intenção e a realidade. Era audaz e não tinha medo da polêmica"

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