'Estamos longe da modernidade'

Eleição revelou País que sai da cordialidade para o confronto sem discutir problemas com seriedade, diz historiador

Entrevista com

Carlos Guilherme Mota

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2014 | 02h01

O Brasil que sai das urnas "é o Brasil real, em que os dois lados retornaram à polarização, sepultaram terceiras vias e nada debateram sobre como consertar um país desigual, atrasado e incivilizado", diz o historiador Carlos Guilherme Mota. No rescaldo dos ataques entre os candidatos e da radicalização nas redes sociais, ele conclui que "o 3.º turno já começou", reforçado pelo pedido do PSDB de auditar as urnas do Tribunal Superior Eleitoral.

Mota vê "um quadro econômico preocupante somado a um conflito político latente" - e a providência mais lógica é a presidente Dilma Rousseff, reeleita, "comportar-se como estadista, construir pontes, convocar lideranças, inclusive da oposição, para uma agenda nacional comum". "Não há solução esparadrapo para o atual cenário."

Que Brasil é esse que saiu das urnas no dia 26 de outubro?

O que saiu das urnas foi o Brasil real. Um país no qual interessou aos dois lados em combate retornar à polarização, sepultar terceiras vias e gastar toda a campanha em uma discussão inútil sobre os defeitos do outro e na qual mal se falou sobre os entraves que nos definem como um país desigual, atrasado e incivilizado. Essa campanha mostrou o quanto estamos longe, ainda, de ser uma sociedade moderna. Uma sociedade com um liberalismo moderno, uma esquerda moderna, que discuta assuntos com seriedade. Onde a solução para saúde, educação ou infraestrutura não seja reduzida a frasezinhas de efeito inventadas por marqueteiros.

A campanha foi marcada por ataques e radicalização na internet. O clima piora quando o PSDB tenta auditar a votação?

O 3.º turno já começou. Somos um país politicamente rachado, que parece sair da cordialidade para o confronto. O que temos equivale a uma crise do regime: não conseguimos nos livrar de um modelo autocrático burguês e entrar em outro moderno, democrático e republicano. Mencionar o que corre nas redes sociais, como faz o PSDB, para contestar o resultado é um recurso frágil, descabido. As redes são um oceano de informações viciadas e tendenciosas por todos os lados.

No que isso vai dar?

Temos uma crise, das boas, a caminho e é preciso começar a juntar os cacos. Essa crise reúne um quadro econômico preocupante e um conflito político latente. E não há como transferir a tarefa: a iniciativa tem de ser da presidente. Não resolve tomar uma ou outra medida pontual, mandar projetos ao Congresso. Quanto ao que eu acho, diria que sou um "cético moderado". A grande virada dela seria comportar-se como estadista, como fizeram em tempos recentes Michelle Bachelet no Chile, Angela Merkel na Alemanha. Teria de afastar-se do padrinho, da marquetagem. Convocar lideranças - o que inclui os adversários - e criar uma agenda nacional comum. Seria algo mobilizador. Mas não é fácil.

De que desafios o sr. fala?

Primeiro, definir uma saída para a economia que atraia o mercado para seu projeto. Isso significa adotar medidas ortodoxas para baixar a inflação - coisa que ao longo da campanha ela desconsiderou e ironizou. Tem de trazer de volta o crescimento, reanimar a indústria, reinvestir na infraestrutura. Não há solução esparadrapo para o atual cenário.

E a negociação política? Como se entender com o Congresso?

Nas relações com o Congresso é certo que a presidente vai ter menos autonomia do que tinha - e que já era pouca. Ela é dependente do PMDB, que saiu mais forte das eleições de outubro, um sinal de que essa dependência vai aumentar. Não é por acaso que os caciques desse partido já lhe impuseram duas derrotas em uma semana, o "não" ao projeto sobre os conselhos populares e um "nem pensar" ao plebiscito para a reforma política. E ela terá o ex-presidente Lula mais perto, o que também lhe reduz os espaços. E ainda um PT mais impaciente, voltando a namorar as massas na rua.

Há quem diga que os protestos de 2013 foram ignorados nestas eleições. Outros dizem que as manifestações mudaram a agenda nacional. Quem está certo?

Há um pouco de cada. Sabemos como é o Estado brasileiro, que tem esse caciquismo, uma máquina estatal separada da sociedade. Mas acho que os clamores estão vivos. Tampouco, do outro lado, vemos uma esquerda interessada em arriscar-se a superar esse precário estado social. Ela incorporou-se nesse modelo autocrático burguês que é desmobilizador. Um modelo de poder que não vai buscar os grupos sociais para tê-los representados no Congresso. Igualmente, não tivemos ainda uma Presidência capaz de fazer uma grande costura nacional mobilizadora. O resultado é esse racha fantástico.

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