Estagnação engrossa movimento dos sem-terra, diz Ricupero

O secretário geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), embaixador Rubens Ricupero, disse que a falta de crescimento econômico no Brasil está provocando um êxodo às avessas. "Em vez de migrarem do campo para as cidades, as pessoas estão indo dos centros urbanos para o campo, onde, pelo menos, poderão ter a chance de conseguir um pedaço de terra", avaliou Ricupero, ao se referir à crescente migração de desempregados que estão se somando ao Movimento Sem Terra (MST).Em entrevista concedida à Agência Estado ontem à noite, por telefone de Genebra, o embaixador afirmou que ninguém deve e nem pode isolar a reforma agrária do crescimento econômico. Para Ricupero, o grande dilema do governo hoje é que o que tem alimentado esses movimentos sociais no País não é apenas a questão agrícola, mas a falta de expansão econômica do País. "Esses coitados não têm a menor perspectiva de trabalho nos centros urbanos e, no MST, pelo menos podem ter a chance de ganhar um lote."DesindustrializaçãoO embaixador acredita também que o País enfrenta hoje um processo de desindustrialização precoce, fenômeno que já ocorreu na Europa. Mas, ao contrário de alguns países europeus, como a Espanha, o Brasil não consegue que o setor de serviços absorva a grande massa de desocupados nos centros urbanos, porque simplesmente não atingiu um nível de renda suficiente que permita gerar essa demanda.Investimento diretoO secretário da Unctad discorda dos que afirmam que a retração dos investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil esteja relacionada, principalmente, à conjuntura mundial. Entre janeiro e junho de 2002 e o mesmo período deste ano, por exemplo, o IED despencou de US$ 9,6 bilhões para US$ 3,5 bilhões. Para ele, a explicação mais factível para esse fato preocupante é o crescimento econômico, praticamente nulo do País, além do encolhimento do mercado interno. "O Brasil só vai atrair recursos quando começar a crescer e nem é bom pensar que algumas privatizações (setor elétrico) que faltam resolverão o problema."Para o secretário geral da Unctad, o investimento que o Brasil mais precisa é para a indústria manufatureira e para o setor exportador. O problema, disse Ricupero, é como conseguir isso. De acordo com ele, o dilema está na ausência de uma política industrial para o País e na facilidade que existe no País para atrair capital volátil. "Essa combinação entre taxa de crescimento baixo ou nulo com taxa de câmbio valorizado não é nada bom para quem quer investir. Não vejo uma multinacional querer investir para poder exportar nessas condições."

Agencia Estado,

30 de julho de 2003 | 11h51

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