Arte/Estadão.com.br
Arte/Estadão.com.br

'Estado' promove debate sobre a reportagem 'Meninos do Contestado'

Jornalistas e sociólogo comentam caderno especial sobre a maior rebelião civil do País no séc. 20

Bruno Lupion, do estadão.com.br,

29 de março de 2012 | 16h33

SÃO PAULO - Um conflito assimétrico, em que lutavam, de um lado, um Exército republicano, moderno e bem armado, e de outro uma população de caboclos, seguidores de um monge, que defendiam suas terras e moradias. A Guerra do Contestado (1912-1916), ocorrida na divisa entre Santa Catarina e Paraná no início do século 20, foi considerada a maior rebelião civil do País do século. Depois de um caderno especial, publicado em fevereiro para marcar o centenário do início da guerra, o Estado promoveu nesta quinta-feira, 29, das 12h às 14h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na capital paulista um debate sobre o tema.

Participaram o professor de Sociologia José de Souza Martins, titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e estudioso de movimentos sociais, e os repórteres Leonencio Nossa e Celso Junior, que contaram os bastidores do caderno especial Meninos do Contestado, publicado pelo Estado em fevereiro para marcar os 100 anos do início da guerra.

O professor José de Souza Martins abriu o debate destacando a assimetria do conflito que, segundo ele, foi deflagrada pela combinação de várias tensões subjacentes à época: a disputa entre o Exército e a Guarda Nacional - força armada privada das oligarquias - pelo monopólio da violência no País; o conflito entre a Igreja Católica e o catolicismo popular brasileiro; e o desamparo de centenas de operários que haviam sido conduzidos à região para construírem a ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul, com a promessa de que seriam levados de volta às suas cidades de origem, mas acabaram abandonados à própria sorte. Para justificar a barbárie, o Exército dizia defender a República e acusava os 'fanáticos' de Santa Catarina de defenderem a Monarquia.

Para ele, questões materiais estavam por trás do confronto, mas a compreensão da Guerra do Contestado depende da análise de fatores religiosos, místicos e milenaristas, que "organizam o entendimento que essas populações de regiões mais remotas têm do Brasil".

O conflito começou no fim de uma festa de São Sebastião. Ao final da celebração, o monge José Maria de Jesus se retirou da região e foi para a outra margem do rio Irani, acompanhado por seus seguidores e alguns desempregados - cerca de 200 pessoas - em busca de uma "terra prometida". O Exército, alegando a defesa da República, enviou tropas e o monge acabou assassinado pelo capitão João Gualberto Gomes de Sá Filho.

'Desafio foi reconstituir a história pelo lado dos caboclos', disse Leonencio Nossa (dir.)

 

O repórter fotográfico Celso Junior contou que o nome do caderno, "Meninos do Contestado", surgiu durante a pesquisa preliminar, quando ele e o repórter Leonencio Nossa encontraram uma fotografia de prisioneiros do Contestado cercados por homens armados do Exército. "Entre os prisioneiros havia meninos, e decidimos que tínhamos de ir atrás desses meninos, para colher depoimento de personagens que tinham vivido esse conflito", disse.

O que mais o impactou, ao chegar à região do Contestado, foi a pobreza daquela população. "Sabíamos que era uma região pobre, mas não imaginávamos que seria tão miserável", disse. O Índice de Desenvolvimento Humano das cidades da região do Contestado é comparável ao de cidades do sertão nordestino, apesar de estarem próximas de Florianópolis, Blumenau e Joinville.

Durante o debate, Junior narrou como encontraram Altino Bueno da Silva, de 108 anos, um dos sobreviventes do conflito. "No último dia de uma de nossas viagens, achamos uma mulher que dizia ter notícias de um sobrevivente do Contestado. Ele estaria a cerca de 200 km de onde estávamos. Ligamos para o jornal, que nos autorizou a ficar mais tempo, e fomos atrás dele. Ficamos muito felizes de encontrá-lo, pois seu Altino deu um grande depoimento", disse.

Para o repórter Leonencio Nossa, que ao lado de Junior já havia produzido o caderno especial As guerras desconhecidas do Brasil, publicado no Estado em dezembro de 2010, o maior desafio de "Os meninos do Contestado" foi reconstituir a guerra "pelo outro lado, o lado dos caboclos". Do lado do Exército, há documentos e registros arquivados, mas do lado da população, pouco restou. "É difícil reconstituir histórias dessa camada da população. Essa versão não está nos arquivos oficiais, e é uma guerra que ocorreu há cem anos", disse.

A primeira linha de investigação, segundo Nossa, foi encontrar sobreviventes do Contestado, que eram apenas crianças na época do conflito. A segunda foi entender a região e ver que marcas do passado permaneceram na área. "Cem anos depois, a guerra ainda está muito presente: na falta de representatividade no poder, na falta de condições materiais. Parece um lugar amaldiçoado pelo poder público, um 'câncer' de Santa Catarina", afirmou.

Nossa destacou que o caderno especial confirma que mesmo o passado mais remoto pode ser reconstituído nas páginas de um jornal. "Não inventamos nenhuma roda, apenas seguimos uma cartilha usada há muito tempo pela imprensa e acreditamos no valor da reportagem", disse.

Tudo o que sabemos sobre:
Guerra do Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.