'Estado' ganha prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos

Caderno Guerras desconhecidas do Brasil, publicado em dezembro, denunciou a repressão de tropas legais contra civis e os princípios de defesa dos direitos do homem

O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2011 | 19h56

O caderno Guerras desconhecidas do Brasil, publicado em dezembro pelo Estado, conquistou a versão 2011 do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, o mais tradicional concedido no País a jornalistas e veículos de comunicação que denunciam a violação de direitos civis e políticos. A investigação premiada revelou que 556 civis foram mortos em 32 revoltas populares no século 20.

 

O prêmio homenageia o jornalista Vladimir Herzog, que passou pelas redações do Estado, da BBC e da TV Cultura, morto pela ditadura militar, por sua ligação com o movimento de resistência ao regime. Na passagem pelo Estado, em 1960, Herzog atuou na instalação da sucursal do jornal em Brasília. É a primeira vez que o prêmio que leva seu nome é concedido a profissionais que trabalham no escritório que ele ajudou a criar - o caderno "Guerras desconhecidas do Brasil" foi elaborado pelos jornalistas Leonencio Nossa (texto) e Celso Junior (fotografia), da sucursal de Brasília, e José Eduardo Barella (edição), Fábio Sales (criação gráfica) e Farrel (ilustração). O jornal já tinha recebido o Vladimir Herzog por melhor reportagem em 1981, com o caso Riocentro e, no ano seguinte, com reportagem sobre fraude em laudos médicos.

 

Torturado e morto a 25 de outubro de 1975, aos 38 anos, no porão do DOI-CODI, em São Paulo, Vladimir Herzog tinha se apresentado espontaneamente às autoridades policiais, depois de um pedido de esclarecimentos por suas relações com o PCB. A morte de Herzog repercutiu no exterior e impulsionou o movimento contra a ditadura. O II Exército tentou emplacar a versão de que Herzog cometeu suicídio na prisão. A Justiça, em 1982, derrubou essa versão e responsabilizou a União pelo assassinato. A morte de Herzog causou indignação de intelectuais, artistas e lideranças sindicais. Um culto ecumênico na Catedral da Sé reuniu oito mil pessoas, na maior manifestação contra o regime desde as passeatas estudantis de 1968. À época, o Estado e o jornal Unidade publicaram manifesto de 1004 jornalistas. A própria criação do prêmio, em 1979, pela família Herzog, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo foi um instrumento pela volta da democracia. Depois do Esso, o Vladimir Herzog é o prêmio de jornalismo mais antigo no País.

 

INVESTIGAÇÃO - A denúncia contra a repressão de tropas legais contra civis e os princípios de defesa dos direitos do homem, marcas do caderno "Guerras desconhecidas do Brasil", levaram o júri a escolher por unanimidade o trabalho como a melhor investigação da área de direitos humanos e cidadania. A investigação jornalística de 17 meses emocionou o júri, segundo fontes do concurso.

 

É o quarto prêmio obtido pelo caderno. O trabalho recebeu o Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o Prêmio de Jornalismo Investigativo do Instituto Prensa y Sociedad (IPYS) na votação popular e o Prêmio José Hamilton Ribeiro de Jornalismo, também oferecido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. O júri da SIP considerou que o caderno era a "melhor investigação da década" e "ultrapassou os critérios de excelência jornalística".

 

Assim que foi publicado em dezembro, o caderno recebeu elogios de especialistas da área do jornalismo. "É um mergulho no Brasil profundo e melancólico, com um olhar e sonoridades de Euclides da Cunha que a direção do jornal teve a ousadia de reviver e bancar", escreveu Alberto Dines, no site Observatório da Imprensa. "Esta é uma investigação que aciona sensações que a imprensa há tempos trocou pelos estrondos sem resultados e pela banalidade inconsequente."

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