‘Estado' acompanhou a vida da República

Jornal testemunhou de perto cada um dos fatos políticos que marcaram o Brasil desde o Império, de eleições a revoluções

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h01

Um "Viva a República" ocupou a primeira página de A Província de São Paulo em 16 de novembro de 1889, saudando a queda do Império e o início da era republicana no Brasil. Ainda em meio a informações desencontradas, o diário surgido nos últimos anos da monarquia descrevia a queda do antigo regime como um acontecimento que "não causou enthusiasmo; produziu delírio indescriptivel" e relatava acontecimentos iniciados na madrugada da véspera, quando uma rebelião no Exército depusera a família imperial. "Todas as guarnições adherem ao movimento", informava. Os soldados "arrancaram as coroas dos bonets, conservando apenas o número dos regimentos a que pertencem". O próprio jornal, no espírito republicano, mudaria depois seu nome para O Estado de S. Paulo.

 

Naquela edição, lembrando o "glorioso centenário da Grande Revolução" - alusão ao 1789 revolucionário francês -, a ainda Província detalhou alguns dos últimos momentos da monarquia - e sua queda - no País.

 

"A versão mais corrente sobre o movimento é a seguinte: O general Deodoro, enfermo hontem, tendo synapismos nos pés, soube a meia-noite que a segunda brigada tencionava fazer pronunciamento de revolta. Pela madrugada dirigiu-se a S. Christovam e voltando ao Campo de Sant’Anna viu aproximar-se o barão de Ladario. Ordenou ao official que fosse entender-se com o ministro, usando de toda a cortesia. O official limitou-se a dar voz de prisão ao barão de Ladario. Este, sem responder, disparou o revolver contra o official. O general Deodoro gritou que não o matassem, porém não pôde evitar os tiros que feriram o barão. Abertas as portas do quartel, todas as forças reunidas confraternisaram-se levantando vivas ao general Deodoro. Foram dadas diversas salvas de 21 tiros, annunciando a victoria do movimento."

 

Cinco anos depois, já como Estado de S. Paulo, o jornal saudaria a primeira eleição de um presidente no Brasil oficialmente pelo voto popular - seus antecessores, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, eram do primeiro governo provisório republicano. Na sexta-feira, 2 de março de 1894, com uma tiragem anunciada de 8 mil exemplares, o diário diria, em tom de alívio: "Finalmente, fallaram as urnas." A mesma edição anunciava: "Com o número de hoje distribuimos aos nossos assignantes um supplemento illustrado com o retrato do dr. Prudente de Moraes, justa homenagem que o ‘Estado’ presta ao primeiro Presidente da República eleito pelo povo."

 

História

 

Dos maiores jornais brasileiros em circulação atualmente, o Estado é o único que já existia no fim do Império e, desde então, acompanhou sem interrupção os principais acontecimentos políticos brasileiros - incluindo revoluções, golpes, eleições. No estilo e linguagem típicos de cada época da vida brasileira, descreveu fatos como os combates entre a polícia da Bahia e o Exército, com o bombardeio do palácio do governo pelas baterias do Forte São Marcelo, em 1912; a morte do presidente eleito Rorigues Alves, em sua edição de 16 de janeiro de 1919; o levante de 5 de julho de 1922, no episódio dos Dezoito do Forte; a revolta de 5 de julho de 1924, resumida na primeira página da edição do dia seguinte:

 

"Movimento Militar - Forças do exercito e da policia revoltadas - Ataque ao palacio dos Campos Elyseos - As forças revoltadas tomaram as estações das estradas de ferro e o Telegrapho Nacional - O commando das forças revoltadas no Quartel da Luz - As providencias do governo - O estado de sitio no Districto Federal e Estados do Rio e São Paulo."

 

Seis anos depois, em 25 de outubro de 1930, em sua primeira página, o jornal saudou a deposição de Washington Luís por uma junta militar que encerrou os combates da revolução. "O Brasil respira. Desde hontem, está liberto do pesadelo que o suffocava. Cessou, hontem, no território nacional, a matança de irmãos", assinalou em sua primeira página. Quinze anos depois, em 30 de outubro de 1945, o jornal descrevia a queda do presidente que subira ao poder em 30, Getúlio Vargas, sob o título "Decisivos acontecimentos políticos ocorridos ontem na capital da República": "Declara o General Gois Monteiro, em nome das classes armadas, que o Presidente Getulio Vargas renunciará, transmitindo o governo ao Presidente do Supremo Tribunal Federal". Mais nove anos e, em 25 de agosto de 1954, o Estado descrevia as consequências do suicídio de Vargas e o traslado do corpo para São Borja (RS).

 

O jornal também acompanhou a renúncia de Jânio Quadros em 1961, a queda de João Goulart em 1964, toda a luta pela redemocratização e a volta da democracia e suas consequências, da eleição de Tancredo Neves para a Presidência, em 1985, até a primeira vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, repetida em 2006. "Acho que começa um novo tempo", declarou o presidente, em reportagem na página H2 do Caderno Eleições 2002, em 28 de outubro daquele ano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.