Tiago Queiroz / Estadão
No domingo de eleição, parte da equipe voltou excepcionalmente à redação Tiago Queiroz / Estadão

‘Estadão’ acelera transformação digital a caminho dos 150 anos

Fundado em 4 de janeiro de 1875, jornal entra em 2021 com foco em um ambiente multiplataforma para seu jornalismo de qualidade

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

O Estadão comemora nesta segunda-feira, 4, 146 anos de fundação. Lançado em 4 de janeiro de 1875, uma segunda-feira, como esta, com nome de A Província de São Paulo, contava com uma tiragem de 2.025 exemplares, em quatro páginas, uma delas dedicada aos anunciantes. O título O Estado de S. Paulo foi anunciado na edição de 18 de novembro de 1889, conforme comunicado de capa daquele dia: “Em consequencia da mudança radical havida no Governo da Nação Brazileira”, assim grafado logo após a Proclamação da República.

Ao completar 120 anos, em 1995, o jornal passou a ter também uma edição online e, atualmente, vive intensa transformação digital iniciando a contagem regressiva rumo a seu sesquicentenário, 150 anos, sempre com foco na modernização de processos de produção e divulgação de jornalismo de qualidade, marca histórica do jornal.

“Nossas audiências poderão conferir ao longo deste ano uma série de inovações, certamente um dos processos de transformação mais profundos dos 146 anos de história do Estadão”, disse João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado. “A contagem regressiva para os 150 anos será marcada por essas mudanças que, aliadas aos valores do jornal, reforçam a nossa parceria com a sociedade brasileira em busca de um Brasil melhor para todos.”

A transformação digital começou em 2017. No ano passado, com apoio da consultoria McKinsey, o processo do Estadão 3.0 foi acelerado em razão da pandemia da covid-19, situação que já levou a uma ampla revisão interna do jornal, com jornalistas e outros funcionários passando a trabalhar em home office na produção e publicação de notícias.

Agora, o jornal entra em 2021 reforçado por um ambiente de divulgação multiplataforma de informação, com foco no site estadao.com.br e no aplicativo, ampliando e diversificando na internet a já consagrada carteira de publicações do jornal em papel.

De acordo com Leonardo Contrucci, diretor-executivo de Estratégias Digitais do Grupo Estado, “nesta fase do Estadão 3.0 teremos um novo processo de produção de conteúdo centrado no leitor, levando uma experiência diferenciada no consumo de notícias nas mais variadas plataformas do grupo. E sempre com nosso propósito de gerar impacto positivo na vida das pessoas e do País”.

A inovação é uma das marcas importantes dessa longa história. Um ano depois de sua fundação, o jornal lançava uma das muitas novidades que marcariam a sua trajetória. Em 23 de janeiro de 1876, com o distribuidor francês Bernard Gregoire vendendo a publicação montado em um cavalo, o jornal iniciava a pioneira venda avulsa de exemplares pela cidade. A inovação entraria também para a história da cidade de São Paulo, então com cerca de 30 mil habitantes. No Estadão, o cavaleiro se tornaria o símbolo.

História

Desde a fundação, o Estadão noticiou e teve atuação decisiva nos principais fatos da cidade, do País e do mundo. Passadas a abolição da escravidão e o início do regime republicano, causas que defendeu em suas páginas, o jornal, além de informar, protagonizaria momentos importantes da História.

A abolição da escravidão, 13 anos após a fundação do jornal, foi um dos grandes acontecimentos históricos noticiados naquele fim de século 19. “Já não há mais escravos no Brazil. A lei n.3353 de 13 de maio de 1888 assim o declara no meio de festas que se estendem por todo o paiz, para a honra e glória desta nação da América”, dizia o texto “A Pátria Livre”, publicado em 15 de maio de 1888.

Nesse mesmo ano, o nome de Julio Mesquita, que começara a trabalhar na Província três anos antes, aparece pela primeira vez como diretor do jornal do qual se tornaria o único proprietário. Ele passa a comandar e a transformar a publicação, modernizando processos, formatos e linguagem, alçando o jornal a uma das maiores referências do jornalismo nacional e internacional.

No ano seguinte, a proclamação da República renderia outra edição histórica. A capa grafada apenas com os dizeres “Viva a República” sobre fundo branco é considerada até hoje uma ousadia do design gráfico.

Canudos

A República ainda dava seus primeiros passos no final do século 19 quando o jornal foi o responsável por enviar Euclides da Cunha como repórter especial para cobrir a Guerra de Canudos, no sertão baiano, em 1897. Essa experiência como repórter atuando no conflito serviu como base para o escritor conceber o clássico da literatura Os Sertões.

Já no século 20, um outro conflito, a 1.ª Guerra Mundial, colocou o jornal na vanguarda do jornalismo – uma edição noturna, apelidada de Estadinho por causa do tamanho em formato menor, atualizava as informações e trazia uma análise contextualizada e apurada. A cobertura analítica de Julio Mesquita em textos publicados durante a Primeira Guerra Mundial é considerada por estudiosos como referência para a compreensão do conflito. A inovação da edição extra – desta vez vespertina – se repetiria anos depois com o relançamento do Estadinho na 2.ª Guerra Mundial.

Nas suas páginas, a cada dia, os mais variados intelectuais e jornalistas escreveram textos que mudariam o curso da história. Monteiro Lobato, outro ícone da literatura nacional, teve os primeiros textos publicados no jornal. O poeta Guilherme de Almeida escreveu por vários anos a coluna Cinematographo, noticiando e analisando a exibição dos primeiros filmes mudos até a chegada das vozes, cores e sons que transformaram o cinema. Exemplos como esse se estendem por outras áreas como esporte, cultura, comércio, economia, política e educação.

Da Revolução Constitucionalista de 1932 à criação da Universidade de São Paulo, o jornal continuou com uma história marcada pela defesa de temas relevantes para a sociedade e o País.

Em períodos diferentes, o Estadão resistiu aos arbítrios de regimes ditatoriais, sendo tomado por cinco anos pela ditadura Vargas e sofrendo uma feroz censura nos anos de chumbo da ditadura militar, quando denunciou a violência contra a liberdade de expressão publicando poemas de Camões no lugar das notícias proibidas.

Retomada a liberdade democrática a partir dos anos 1980, o Estadão continuaria a publicar reportagens que mudariam o rumo do País, ao mesmo tempo que aprimorava a sua capacidade de explorar as novidades tecnológicas – foi pioneiro no noticiário em tempo real com o Broadcast, um dos primeiros veículos jornalísticos na internet e nas redes sociais – para ampliar o alcance de seus conteúdos de interesse público nos mais diferentes formatos, do papel ao digital.

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Gripe espanhola fez Monteiro Lobato assumir a redação do 'Estadão' em 1918

Na época freelancer do jornal, escritor ajudou a fechar edição após toda a chefia ser contaminada pelo vírus

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

Tão logo ocorreram as primeiras mortes em São Paulo em decorrência da pandemia do novo coronavírus, em março do ano passado, a direção do jornal tomou uma decisão rápida, antes mesmo de o governo do Estado decretar quarentena: a equipe toda passaria a trabalhar em regime de home office – situação que permanece até hoje.

Em 146 anos de história, a covid não foi a primeira pandemia vivenciada pelo Estadão. No fim da década de 1910, a gripe espanhola deixou toda a chefia do jornal doente. Numa certa noite de 1918, em que não havia ninguém para fechar a edição, coube a Monteiro Lobato, então freelancer do jornal, assumir a tarefa com mais alguns colegas, que conduziram a redação até que a equipe se restabelecesse.

“Irrompera a gripe, que breve se tornou calamidade pública. A preocupação de todos era uma só – a gripe. O trabalho de todas as conversas era um só – a gripe. O trabalho de todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia caindo de cama. O número dos conhecidos mortos começava a assustar”, descreveu Lobato em um artigo publicado no Estadão quase três décadas depois, em 1945.

“As notícias na sala de redação passaram a ser de um só tipo. ‘Chegou telefonada de Louveira. Julio Mesquita caiu.’ E logo depois: ‘Sabem quem caiu? Julinho. E Chiquinho também’. Já ninguém dizia ‘cair com gripe’, ou ‘adoecer’, e sim, e só, ‘cair’”, descreve ele se referindo à família proprietária do jornal.

Na sequência ficaria doente Nestor Rangel Pestana, secretário de redação. Assim como seu substituto e o substituto dele. “Aconteceu que, em certo momento, todo o estado-maior do jornal ficou fora de combate”, conta Lobato.

“Lembro-me da noite em que só encontrei Filinto Lopes. O jornal estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia seguinte. Falta de quem o dirigisse. Lá na ‘Vala Comum’, isto é, na sala geral dos redatores, cozinheiros e repórteres, a brecha aberta pela gripe fora de 50% ou mais, e ali na sala do secretário o desfalque era integral.” Lobato e Lopes assumiram o jornal e o conduziram por duas semanas. “Todos na cama e o jornal a sair”, brincou Pestana ao saber como se deu o “milagre”.

O episódio refletiu bem a rapidez com que a doença se espalhou no Brasil e o tamanho do dano que ela causou. Reportagens publicadas no Estadão, principalmente quando a gripe chegou a São Paulo, em outubro de 1918, mostram similaridades com o que ocorreu com a covid-19, em especial a defesa pelo isolamento social. Num primeiro momento, porém, chegou a se imaginar que nada mais era “senão a gripe, a influenza comum” e a espanhola foi até mesmo chamada de “benigna” – classificação que não tardou a mudar de tom.

Em 15 de outubro daquele ano, o Serviço Sanitário Estadual de São Paulo decretou estado epidêmico, que teve como resultado prático a suspensão das aulas nas escolas e o fechamento de estabelecimentos comerciais e de entretenimento. Em pouco tempo, a rotina da população mudou, havia cortejos e coletas de corpos continuamente, assim como a necessidade de construção de novos cemitérios.

Números

A diferença é que o surto foi realmente rápido, durando pouco mais de dois meses, nos quais 5.331 pessoas morreram da gripe, de acordo com as contas oficiais da cidade. De covid-19 já morreram na capital paulista mais de 15 mil pessoas. A história daquela pandemia – e de outras coberturas históricas dos últimos 146 anos – pode ser vista nas páginas do Acervo Estadão.

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