Daniel Teixeira|Estadão
Jornal de 4 de janeiro de 2020, quando o 'Estadão' completa 145 anos, é impresso na gráfica  Daniel Teixeira|Estadão

Jornal de 4 de janeiro de 2020, quando o 'Estadão' completa 145 anos, é impresso na gráfica  Daniel Teixeira|Estadão

'Estadão 145 anos': A importância da informação

Em seu aniversário, o ‘Estado’ questiona leitores e especialistas sobre a relevância do jornalismo e a relação de cada um com o jornal

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Jornal de 4 de janeiro de 2020, quando o 'Estadão' completa 145 anos, é impresso na gráfica  Daniel Teixeira|Estadão

A história dos 145 anos do Estado se confunde com a da liberdade de imprensa no Brasil. A publicação fundada por jovens idealistas republicanos em 1875 escolheu o caminho do jornalismo apartidário e profissional pelas mãos de Julio Mesquita, sem jamais abrir mão de seus princípios: a defesa da liberdade e de suas manifestações na sociedade, na economia, na política e na cultura do País.

Em seu aniversário, o jornal propõe um debate sobre a importância do jornalismo hoje, no Brasil e no mundo, nas mais diversas áreas do saber e da sociedade. É o que os artigos deste especial pretendem mostrar. Não só pela vivência de cada um de seus autores, mas também por meio da relação que eles estabeleceram com a publicação e sua história de credibilidade e informação de qualidade. Uma marca reforçada pela análise de seus colunistas e a opinião de seus editorialistas, em que inovação e olhar para os desafios do futuro não significam esquecer o passado.

Qual a importância do jornalismo para a sua vida? Assinantes de 18, 29, 40 e 60 anos falam sobre o valor do jornal em suas rotinas

O Estado, como mostram por meio de perspectivas diferentes o cientista político Luiz Felipe D’Ávila e o economista Marcos Lisboa, sempre cavou trincheira na luta pela democracia. E assim foi sempre percebido pelos leitores, que hoje vivenciam sua relação com o jornal em plataformas digitais e na versão impressa. Eles têm um espaço central nessa história e quatro deles contam aqui a importância do Estado e do jornalismo em suas vidas. São 145 anos de existência e 140 anos de vida independente - entre 1940 e 1945, o jornal sofreu intervenção do governo de Getúlio Vargas.

Por fim, reafirmar a centralidade dos jornais nas sociedades livres e a importância deles para o exercício da democracia e para a defesa da República não é pouco. É de Gilles Lapouge a frase que sintetiza a percepção e o sentimento destas páginas:

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Sem os jornais, as sombras venceriam
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Gilles Lapouge, correspondente em Paris

 

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'Estadão 145 anos': A importância da informação

Em seu aniversário, o ‘Estado’ questiona leitores e especialistas sobre a relevância do jornalismo e a relação de cada um com o jornal

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Jornal de 4 de janeiro de 2020, quando o 'Estadão' completa 145 anos, é impresso na gráfica  Daniel Teixeira|Estadão

A história dos 145 anos do Estado se confunde com a da liberdade de imprensa no Brasil. A publicação fundada por jovens idealistas republicanos em 1875 escolheu o caminho do jornalismo apartidário e profissional pelas mãos de Julio Mesquita, sem jamais abrir mão de seus princípios: a defesa da liberdade e de suas manifestações na sociedade, na economia, na política e na cultura do País.

Em seu aniversário, o jornal propõe um debate sobre a importância do jornalismo hoje, no Brasil e no mundo, nas mais diversas áreas do saber e da sociedade. É o que os artigos deste especial pretendem mostrar. Não só pela vivência de cada um de seus autores, mas também por meio da relação que eles estabeleceram com a publicação e sua história de credibilidade e informação de qualidade. Uma marca reforçada pela análise de seus colunistas e a opinião de seus editorialistas, em que inovação e olhar para os desafios do futuro não significam esquecer o passado.

Qual a importância do jornalismo para a sua vida? Assinantes de 18, 29, 40 e 60 anos falam sobre o valor do jornal em suas rotinas

O Estado, como mostram por meio de perspectivas diferentes o cientista político Luiz Felipe D’Ávila e o economista Marcos Lisboa, sempre cavou trincheira na luta pela democracia. E assim foi sempre percebido pelos leitores, que hoje vivenciam sua relação com o jornal em plataformas digitais e na versão impressa. Eles têm um espaço central nessa história e quatro deles contam aqui a importância do Estado e do jornalismo em suas vidas. São 145 anos de existência e 140 anos de vida independente - entre 1940 e 1945, o jornal sofreu intervenção do governo de Getúlio Vargas.

Por fim, reafirmar a centralidade dos jornais nas sociedades livres e a importância deles para o exercício da democracia e para a defesa da República não é pouco. É de Gilles Lapouge a frase que sintetiza a percepção e o sentimento destas páginas:

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Sem os jornais, as sombras venceriam
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Gilles Lapouge, correspondente em Paris

 

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Priscila Cruz: Contra informação hackeada, jornalismo de qualidade

Nesse tabuleiro complicado de desinformação em que vivemos, um jornalismo livre e de qualidade – como pilar democrático – é fundamental

Priscila Cruz* , O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

A quase onipresença das informações via redes sociais vem modificando a forma como decidimos agir e coloca em jogo o que entendemos como realidade. Cada vez mais, as narrativas alternativas das redes nos conduzem por caminhos perigosos, como provou o caso da consultoria inglesa Cambridge Analytica, que, ao acionar dados dos usuários de redes sociais e direcionar conteúdos, influenciou as eleições norte-americanas e mundo afora. Deixou de ser, portanto, assunto para profissional de comunicação entender os bichos exóticos que circulam nas redes – fake news que já evoluiu para deepfake, “bolhas” e timeline.

Esses conteúdos virais, muitos com aparência de verdade, alimentam disputas políticas e culturais que giram em falso. São distorções em debates essenciais para o bem-estar e o progresso da vida humana, como as notícias falsas anti-vacinas que ligam a imunização a quadros de autismo. 

Nesse tabuleiro complicado de desinformação, um jornalismo livre e de qualidade – como pilar democrático – é fundamental. Felizmente, ferramentas que aprimoram a cobertura da imprensa e respondem aos desafios atuais têm surgido. É o caso dos mecanismos de “checagem de fatos” e o jornalismo de dados, que contrapõem dados oficiais e especialistas ao senso comum e às falsas declarações. 

Na Educação, por exemplo, tema que o Todos Pela Educação acompanha há 13 anos, a qualidade da cobertura amadureceu e foi aprofundada nos últimos anos. Esse fortalecimento do trabalho de qualidade da imprensa tem sido especialmente relevante frente ao sensacionalismo que domina o compartilhamento de notícias falsas sobre o tema. Na corrida presidencial, por exemplo, circularam nas redes histórias absurdas em que iniciativas para a Educação Infantil incluíam abordagens sexuais inapropriadas; ações que nunca foram propostas e foram desmascaradas por uma série de trabalhos de checagem.

São as boas reportagens que colocam a Educação na pauta do dia pelos motivos certos, monitorando o poder público e disparando debates ligados aos desafios reais das escolas públicas – a aprendizagem que avança muito lentamente e a necessidade de mudanças na formação dos nossos professores. 

Assim, mais do que nunca, pesa sobre os jornais o exercício da vigilância do poder, agora investido de mentiras difusas. A apuração criteriosa deve estar contra o hackeamento da informação e ser instrumento para a cidadania crítica dos brasileiros – isso só será possível reforçando os pilares da ética, responsabilidade e inovação.

*É COFUNDADORA E PRESIDENTE EXECUTIVA DO TODOS PELA EDUCAÇÃO

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Ricardo Abramovay: Rede jornalística para a crise climática

A dúvida e a crítica devem se apoiar no que de melhor a ciência produz e não nos preconceitos que derivam da brutalidade e da ignorância

Ricardo Abramovay*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

O fato mais importante do jornalismo ambiental de 2019 foi a formação de uma rede que inclui 390 órgãos de imprensa, com uma audiência superior a um bilhão de pessoas, para compartilhar e difundir informações sobre a crise climática, a Covering Climate Now. É notável a pluralidade de posições políticas de seus componentes. Fazem parte da rede a Bloomberg, a France Press e a Reuters, mas também The Guardian e Al Jazeera, além da Nature, da Scientific American e de dezenas de podcasts, publicações locais, rádios e TVs. Não só as opiniões editoriais destes órgãos são muito diferentes, mas também seus estilos. The Guardian, por exemplo, informa seus leitores sobre o nível global de concentração de gases de efeito estufa na atmosfera junto com seus boletins meteorológicos.

Mas será que uma rede tão poderosa não corre o risco de se converter em expressão de pensamento único, abafando as diferenças de abordagem nos temas ambientais? A resposta a essa pergunta passa por uma constatação elementar: não há, na comunidade científica global, duas posições quanto à existência da crise climática e de sua origem antrópica. O negacionismo climático não encontra qualquer respaldo científico, ou seja, seus adeptos não publicam nem são citados em nenhuma revista internacional relevante sobre o tema. Dizer que há duas vertentes sobre o tema (os que acreditam e os que não acreditam nas mudanças climáticas) é o mesmo que afirmar existirem duas posições sobre a forma da Terra, plana ou esférica.

É claro que isso não compromete a necessária diversidade dos debates em torno dos temas abordados pelo jornalismo ambiental: existem chances de que a elevação da temperatura global média se mantenha no limite de dois graus, como preconizam as Nações Unidas, ou já são incontornáveis os cenários que anteveem catástrofes cada vez mais frequentes? O sistema financeiro global pode dar uma contribuição construtiva para a emergência de uma infraestrutura verde? Qual a natureza dos movimentos sociais contra a crise climática? Como diferentes setores da sociedade (governos, empresas, academia, ONGs) encaram a crise climática e suas perspectivas de solução? Quais os impactos da crise climática sobre ecossistemas decisivos para a vida na Terra como os Oceanos e os solos? De que maneira nossos modelos de produção e consumo interferem sobre mudanças climáticas?

Cada uma destas perguntas é abordada a partir de pressupostos, de teorias, de hipóteses e de dados que variam enormemente. Isso é um traço salutar não só da ciência, mas também do jornalismo. A dúvida e a crítica são o oxigênio das sociedades democráticas. Mas, para que não sejam a antecâmara do cinismo e da distopia, a dúvida e a crítica devem se apoiar no que de melhor a ciência produz e não nos preconceitos que derivam da brutalidade e da ignorância.

*PROFESSOR SÊNIOR DO INSTITUTO DE ENERGIA E AMBIENTE DA USP

 

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Gilles Lapouge: Sem os jornais, as sombras venceriam

Jornais são objetos passionais, despertam o desejo, a repulsa, a cólera, a vergonha, a admiração ou o amor

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

O capitão Dreyfus, na década de 1890, foi acusado de espionagem em favor da Alemanha. Começa um período vergonhoso. A Igreja, a burguesia, os jornalistas uivam, jogam Dreyfus aos cães. Anos depois, um título salva a honra da profissão. O Aurore publica, sob o título Eu acuso, um artigo de Émile Zola: Dreyfus é inocente. Seu único pecado é ser judeu. Após anos de ódio, Dreyfus é salvo, por um jornal, do desprezo e, talvez, mesmo da morte.

Vinte e cinco anos depois, um dos primeiros grandes repórteres, Albert Londres, foi para a Guiana, uma colônia francesa, onde havia uma colônia penal. Albert Londres descerra uma cortina atrás da qual se estende o inferno criado não por Satanás, mas por uma República virtuosa cujo lema é “liberdade, igualdade, fraternidade”. Este artigo gera um eletrochoque. Um ano depois, o governo fechou a prisão. Do fundo de sua morte, Albert Londres, sem dúvida, disse que as palavras dos jornalistas podem ser armas letais e defender a honra da condição humana.

Em 1939, irrompe a guerra com a Alemanha. Os jornais controlados pela censura mentem descaradamente. Eles ficam coléricos: os soldados alemães são sub-humanos, monstros desagradáveis e medrosos. Soldados franceses são maravilhosos. Um grupo de franceses, enojados com essas maldades, criam Le Canard Enchaîné que dirá a verdade: a morte, vômitos, os ratos, o fedor, o desespero, o medo, a ignomínia de certos generais que, para se distinguir, montam um ataque desnecessário, que resultará em centenas de mortes e levará à arrogância de um tolo.

A censura monitora essas pessoas insolentes. Talvez eles sejam anarquistas ou mesmo comunistas, quem sabe! Le Canard inventa truques, trocadilhos, linguagens codificadas, eufemismos para enganar os censores. O sucesso entre os soldados franceses é deslumbrante.

Em 1940, as tropas de Hitler esmagaram os franceses. Hitler divide a França em duas: uma “zona ocupada” no Norte e há uma “zona livre” no Sul (digamos: semilivre). Alguns jornais permanecem em Paris e se adaptam aos alemães. Muitos jornalistas, muitas vezes brilhantes, comemoram as vilezas dos nazistas. Um escritor notável, Robert Brasillach, escreve esta ignomínia: “Será necessário separar-se dos judeus em um quarteirão e sem proteger os pequenos judeus”. A honra da imprensa se refugia nas montanhas, entre os maquis, onde proliferam jornais pobres, mas notáveis. Entre os que escolheram o caminho da coragem, o jovem Albert Camus, que se tornará um dos grandes escritores de seu século.

Jornais são objetos passionais. Eles despertam o desejo, a repulsa, a cólera, a vergonha, a admiração ou o amor. É um sinal de seu poder. Eles se estabelecem solidamente para o bem ou para o mal no coração das nossas cidades, dos nossos sonhos. Temos o direito de criticá-los, às vezes desprezá-los, mas não podemos negligenciá-los, negar a influência que exercem sobre nossas mentes, em nossos hábitos, na história dos homens, animais e coisas. Sem eles, o mundo não seria o mesmo. Seria menos brilhante, menos legível e menos tolerante, menos respeitoso pela pessoa humana, menos brilhante e as sombras lentamente venceriam. (TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO)

*CORRESPONDENTE EM PARIS

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Marcos Lisboa: Agora é samba

A ironia e a sutileza eram os instrumentos da imprensa para resistir à repressão no momento mais difícil da ditadura

Marcos Lisboa*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

“Agora é Samba”; dizia uma chamada no Estado que substituía a matéria censurada sobre a demissão do ministro da Agricultura, em 1973. A ironia e a sutileza eram os instrumentos da imprensa para resistir à repressão no momento mais difícil da ditadura. “Temperatura sufocante”. “O ar está irrespirável”. “Ontem foi dia dos cegos”. Essas foram algumas das notas encaixadas na primeira página do Jornal do Brasil no dia seguinte à promulgação do AI-5.

Meio século depois, a ditadura pode ser tratada amenamente nas conversas de botequim que oscilam entre o futebol e os disparates recentes de alguns condestáveis. Nada como desconhecer a ferocidade de alguns guardas da esquina na ausência do Estado de Direito.

A nova geração não vivenciou o pânico com a opressão que invadia casas e sequestrava pessoas escoradas pelo poder oficial sem o contrapeso da democracia. Discordar era crime, e era melhor jogar um exemplar de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, no lago do Ibirapuera, um romance que se passa na França do século 19, do que ser acusado de comunista por ter um livro com a palavra proibida: vermelho.

Garoto nos anos 1970, ouvia os comentários, à boca pequena, sobre um irmão de amigos dos meus pais, por muito tempo isolado em uma cela, nu. A história, soube depois, foi pior e ele jamais se recuperou. Muitos jovens combatiam a ditadura. Alguns aderiram ao terrorismo, cometendo atos bárbaros. Mais inaceitável foi o descontrole do governo, detentor do monopólio da violência, que destroçou impunemente a vida de inocentes. Outros países enfrentaram o terrorismo preservando a democracia. Cabe ao Estado manter a sanidade mesmo frente ao descalabro. Conheci pessoas que ficaram surdas de um ouvido pelas torturas feitas por um delegado acusado de homicídios e investigado por tráfico de drogas. De alguns outros, sei nomes e lápides. De muitos, conheço só nomes; suas covas jamais foram achadas. O AI-5 abriu a represa da opressão. Pessoas, culpadas e inocentes, foram presas e torturadas, jornais foram censurados. A discordância se tornou crime.

O Estado reagiu com bravura à violência que invadiu as redações. As matérias censuradas eram substituídas por mensagens cifradas que tentavam contar para o leitor o que estava acontecendo. Receitas de culinária e trechos do velho poema de Camões, Os Lusíadas, passaram a ocupar o espaço órfão das notícias excluídas pelos guardas de plantão. Julio de Mesquita Filho, editor do Estado nos anos 1930, foi preso 17 vezes e exilado pela ditadura Vargas. Seu irmão, Francisco, assumiu o jornal e foi igualmente preso em 1940. Felizmente, a família Mesquita não aprendera a lição. Frente à nova rodada do arbítrio duas décadas depois, optou pela resistência usando como armas as palavras e a integridade. Este colunista da Folha de S.Paulo agradece aos herdeiros de Julio de Mesquita e aos jornalistas do Estado. Aproveito para homenagear Alberto Dines, que tanto fez pelo jornalismo e que coordenou a edição histórica do Jornal do Brasil sobre aquele trágico dia 13 de dezembro de 1968. As ditaduras vieram e se foram. O Estado celebra mais um aniversário.

*PRESIDENTE DO INSPER

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Luiz Felipe D’Ávila: Trincheiras da luta pela democracia

Papel do 'Estado' é fundamental no País, que por vezes sucumbe ao canto da sereia do populismo

Luiz Felipe D’Ávila*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

Poucos jornais do mundo têm o privilégio de celebrar 145 anos de existência. O Estado é o símbolo vivo de mais de um século de luta pelos valores que prezamos: a democracia, o Estado de Direito e a liberdade de expressão. Esses três pilares constituem os alicerces de uma sociedade livre, democrática e constitucional.

O Estado nasceu em 1875 para defender a República constitucionalista, mas logo o jornal já estava criticando os primeiros governantes da República por terem abandonado a democracia constitucional e instituído um governo autoritário. A República constitucionalista, liberal e cívica nasceu apenas 5 anos após a Proclamação da República, quando Prudente de Moraes foi eleito presidente em 1894.Em 1932, o Brasil estava novamente nas mãos de um caudilho autoritário, Getúlio Vargas. Mais uma vez, o Estado estava na trincheira da luta pela revolução constitucionalista que exigia a proclamação de uma nova Constituição democrática. Getúlio deu ao País a Constituição, mas em 1937 rasgou-a e tornou-se ditador.

Em 1964, o jornal apoiou o golpe militar porque acreditava que o general Castello Branco era o único líder capaz de restituir a democracia e livrar o País do caudilhismo socialista. Quando a revolução enveredou para a perpetuação do autoritarismo, o Estado voltou-se para a trincheira da defesa da liberdade e da democracia. O jornal foi vítima de censura e do seu fechamento temporário durante os Anos de Chumbo.

Após a redemocratização do País em 1988, o Estado permaneceu fiel à sua tradição de luta em defesa da democracia constitucional e da liberdade individual. Trata-se de um papel fundamental numa Nação cujo destino continua a ser forjado pela força pendular que ora leva os brasileiros a eleger estadistas e a defender com afinco a democracia e a liberdade, e ora sucumbem ao canto da sereia do populismo que sempre representa uma séria ameaça ao Estado de Direito, à democracia e à liberdade.

Na era do populismo e das “fake news”, a liberdade de expressão é vital para o mundo livre e democrático. A crítica construtiva da imprensa deveria servir de norte para governantes acostumados com a adulação dos áulicos palacianos e a pressão política do corporativismo. Sem o jornalismo sério, a mentira se torna verdade, insufla o radicalismo e alimenta o cinismo e a descrença nas instituições democráticas. Nesse sentido, o Estado continuará a ser uma referência ímpar para os brasileiros que acreditam na virtude da liberdade e da democracia.

*CIENTISTA POLÍTICO E FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA

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Eugênio Bucci: Como o jornalismo tece a liberdade

A imprensa livre surge como conquista das revoluções liberais, mas o que tece a liberdade é o exercício radical da liberdade de expressão

Eugênio Bucci*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

Bem sabemos que a imprensa é uma invenção do Iluminismo: para que o poder emane do povo, é preciso que os comuns do povo possam controlar o poder, e para isto foi preciso inventar o ideal da imprensa. A livre circulação das ideias, esse “direito precioso”, aparece na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (artigo 11), de 1789. A liberdade de imprensa, esse “baluarte”, consta da Declaração de Virgínia (art. 14), de 1776. Mas o jornalismo, esse ofício, esse método, esse idioma peculiar pelo qual a imprensa se manifesta diariamente, não se reduz à conquista do liberalismo: é o exercício cotidiano de construção da liberdade.

Em outras palavras, a imprensa livre surge como conquista (sangrenta) das revoluções liberais, mas o que tece a liberdade é o exercício radical da liberdade de expressão, do qual a liberdade de imprensa (que inclui o direito de investigar, fiscalizar e criticar o poder em público) é o centro gravitacional.

Logo, se queremos compreender a democracia como construção social (o que ela é), com direitos que vão além dos horizontes das revoluções liberais (como vão), precisamos pensar o jornalismo não como beneficiário, mas como construtor de liberdades. As boas práticas jornalísticas deixam um saldo de liberdade a mais. 

Quanto a isso, devemos distinguir as chamadas liberdades negativas das positivas. As negativas existem à medida que inexistam restrições externas que oprimam o indivíduo (daí o qualificativo negativas): minha liberdade começa onde termina a do outro e, principalmente, onde termina a interferência do Estado sobre mim. Temos aí o espírito do liberalismo por excelência: minha liberdade coincide com minha propriedade e ambas coincidem com minha felicidade (privada).

Mas a esfera privada é pequena para essa matéria. A liberdade de expressão, como a liberdade de reunião, são liberdades não privadas, mas públicas – fluem na direção da ação política. No dizer de Hannah Arendt, são liberdades positivas, liberdades que se afirmam apenas em público. Nesse caso, como já perceberam alguns, como Cornelius Castoriadis, a minha liberdade começa onde começa a do outro.

As liberdades públicas, positivas, vêm completar e dar sentido democrático às liberdades privadas, negativas. Sou livre porque sei que meus iguais exercem suas liberdades públicas e, assim, asseguram a minha. Sou livre porque há jornalistas que investigam, fiscalizam e criticam o poder, mesmo quando discordo do que dizem. Se existem jornalistas exercendo e ampliando suas liberdades públicas, sei que o poder terá menos espaço para abusar de mim. 

*JORNALISTA E PROFESSOR DA ECA-USP

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Manoel Lemos: É hora de darmos atenção ao jornalismo

Precisamos que ele continue existindo e trazendo para nós os fatos relevantes para que possamos nos informar e tomar nossas decisões

Manoel Lemos*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

Quem diria que no auge da era da informação, com mais de 4 bilhões de pessoas conectadas à internet, estaríamos vivendo uma crise informacional tão grande. Por um lado a internet e suas aplicações permitem que pessoas no mundo todo tenham acesso a uma vastidão de conteúdo nunca imaginada. Por outro, a rede também permite que todos nós possamos criar e distribuir conteúdos por meio da rede.

Para deixar tudo mais interessante os smartphones e a conectividade presente em todos os lugares trouxeram o imediatismo para a maneira como nos comunicamos e recebemos informações.

Era para dar tudo certo, conhecimento sem restrição disponível para todos, todas as vozes com espaço para dizer o que pensam e tudo na ponta dos dedos em tempo real. Porém, o que temos visto é uma realidade um pouco diferente. Somos bombardeados por memes, mensagens e notícias o tempo todo e vivemos no pouco espaço de tempo que resta entre uma notificação e outra.

Neste frenesi imediatista, o que era pra ser uma era de conhecimento como nunca acabou dando espaço para a superficialidade, para as bolhas e para as fake news.

É neste contexto onde passamos a acreditar que informações viraram commodities sem diferenciação ou valor que precisamos tanto de jornalismo de verdade. Precisamos que ele continue existindo e trazendo para nós os fatos relevantes para que possamos nos informar e tomar nossas decisões.

Independentemente de concordarmos com eles ou não, são os fatos que permitem que a democracia aconteça. Precisamos que o que acontece e não é visível para todos seja analisado e reportado.

Mas não é só do jornalismo a responsabilidade. Precisamos, mais do que nunca, enxergar além dos memes engraçados, das manchetes que reforçam nossas crenças e das fake news que chegam a todo momento.

Temos de entender que se perdermos nossa capacidade de questionar as informações que chegam até nós e pararmos de buscar pelos detalhes, pelos fatos e pela verdade, ficaremos à mercê dos algoritmos, dos criadores de notícias falsas e de nossa própria ignorância.

E mais: de olhos abertos e com a mente atenta, precisamos inverter o atual ciclo de propagação de informações irrelevantes ou falsas. É fundamental que deixemos de ser parte do problema e passemos a ser parte da solução valorizando o trabalho jornalístico bem feito e as informações de qualidade.

É hora de entendermos que matérias bem escritas, frutos de horas de pesquisa e edição, não são simples commodities e merecem a nossa atenção.

*É COLUNISTA DO I E MEMBRO DO COMITÊ DIGITAL DO GRUPO ESTADO

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