Está, enfim, decidido: FHC não vai a Monterrey

O presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu definitivamente cancelar sua viagem a Monterrey, no México, onde participaria da Conferência das Nações Unidas sobre Financiamento ao Desenvolvimento. Tomada na última terça-feira, essa mesma decisão foi alterada três dias depois, por influência do ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer. No final de semana, entretanto, acabou prevalecendo a avaliação do Palácio do Planalto, mais crítica em relação ao evento e também a um possível encontro de Fernando Henrique com o presidente americano, George W. Bush. De acordo com avaliações do Palácio do Planalto e do Itamaraty, o convite para Fernando Henrique participar do evento foi feito diretamente pelo presidente do México, Vicente Fox, em setembro do ano passado, e reforçado pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Anan, dois meses depois.Na ocasião, o presidente mostrava-se entusiasmado com a conferência e chegou a antecipar algumas das idéias que pretendia defender, em seu discurso. O entusiasmo, entretanto, foi anulado por quatro razões: primeiro, a assessoria do presidente ponderou que não seria prudente participar de um evento, ao lado de Bush, em um momento em que o Brasil se prepara para questionar, na`Organização Mundial do Comércio, a política de subsídios à soja praticada pelos Estados Unidos e estuda a possibilidade de também reclamar das medidas de salvaguardas adotadas por Washington às importações de aço. Bush foi um dos chefes de Estado que confirmou presença em Monterrey. O segundo motivo da desistência foi que a participação do presidente Fernando Henrique não teria o protagonismo esperado inicialmente. Em princípio, estaria reservado a cada chefe de Estado participante, um curto discurso, de cerca de cinco minutos apenas. A assessoria de Fernando Henrique ponderou ainda que o presidente vem defendendo suas idéias em relação à uma nova arquitetura financeira internacional, à reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, de combate ao protecionismo comercial há alguns anos e as repetiu em cartas endereçadas aos líderes dos países desenvolvidos e também na última reunião de cúpula da Governança Progressista, ocorrida em fevereiro, em Estocolmo, onde estavam presentes cinco dos sete líderes do G-7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo. Da mesma forma, os principais ítens do discurso de Fernando Henrique, que diriam respeito ao FMI, foram antecipados no ano passado, no Chile, e reiterados na reunião ao anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), na semana passada, em Fortaleza. Na ocasião, além de afirmar que o Fundo trata as autoridades dos países americanos como se fossem analfabetas, o presidente defendeu a mudança nos parâmetros para os cálculos do déficit fiscal imposto aos países que fecharam acordo com a instituição. Mais especificamente, propôs que não sejam considerados os pagamentos de empréstimos tomados de organismos internacionais como gastos. O terceiro motivo que levou à desistência da viagem a Monterrey foi que a diplomacia constatou que o evento perdeu a importância inicialmente imaginada. Dos 52 líderes que pretendiam participar do encontro, cerca de 30 confirmaram presença. Os diplomatas consideraram ainda que a ONU não seria o foro adequado para uma discussão na área econômica dessa envergadura e que o consenso obtido seria frágil, por envolver posições distintas de cerca de 180 países. "A iniciativa é positiva, e o Brasil a vem apoiando fortemente. Mas tratar de temas econômicos na ONU é difícil. A discussão tende a ser politizada", informou uma fonte do governo. Por fim, o Palácio do Planalto considerou que não seria prudente o presidente se ausentar do país por um período mais longo, com o cenário político tumultuado e com os seus impactos em votações importantes para o governo no Congresso, como a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), nesta semana na Câmara e na próxima semana pelo Senado. Hoje, o presidente desembarcou em Santiago, para uma visita de Estado de três dias ao Chile. Se fosse para Monterrey, retornaria ao Brasil apenas no final de semana e não estaria em Brasília para tentar mobilizar as bancadas para aprovar a CPMF.

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