''Esse tipo de ação está se multiplicando''

Entrevista - Marco Antonio Villa: professor e analista político; Villa adverte que ?qualquer candidato? poderá acionar Justiça e barrar informações que julgue prejudiciais

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

O analista político Marco Antonio Villa, professor de ciências sociais da Universidade Federal de São Carlos, vê na censura imposta judicialmente ao Estado um perigoso precedente. Mais perigoso ainda, pela sua avaliação, se for considerado que haverá eleições no ano que vem. "Qualquer candidato poderá entrar na Justiça para barrar informações que considere prejudiciais à sua imagem e ganhar", diz ele.O especialista também acredita que está em curso no País um esforço para restringir a liberdade de imprensa - já bastante limitada em regiões controladas por oligarquias políticas, como o Estado do Maranhão. Como cientista político e historiador, como o senhor vê a decisão judicial que impede o Estado de publicar notícias sobre as investigações policiais que envolvem Fernando Sarney?Na minha opinião, trata-se de um caso claro de censura. Espantosamente, esse tipo de ação, destinada a restringir a ação da imprensa, está se multiplicando pelo País. Entre outros casos, podemos citar o da Juliana Paes, atriz da TV Globo, que obteve uma decisão judicial impedindo o José Simão de citar o nome dela na sua coluna na Folha de S. Paulo, sob risco de pagar multa cada vez que o fizer. Antes tivemos a proibição da publicação do livro com a biografia de Roberto Carlos. Isso é censura. Não é uma censura truculenta, como a que se viu na ditadura do Estado Novo, quando o Estadão foi invadido e tomado, nem no regime militar, quando enviaram censores para a Redação, mas é censura. Apenas mais refinada.O senhor acha que isso compromete o sistema democrático?Sim, se você considerar que informações estão sendo sonegadas ao leitor. Outra coisa a considerar é que a liberdade de imprensa no Brasil é muito frágil fora dos grandes centros, como São Paulo e Rio. No Maranhão, a família Sarney controla boa parte dos meios de comunicação. Aliás, o presidente do Senado parece padecer do vício da censura. Em 2006,durante as eleições para o Senado, no Amapá, ele censurou até a internet quando percebeu que a sua concorrente, uma vereadora (Maria Cristina Almeida, do PSB), ameaçava derrotá-lo. Ele não podia fazer o que fez. Acho inacreditável presenciarmos essas coisas. Acho terrível o Poder Judiciário ainda não ter se manifestado para suspender a decisão de censurar o jornal, principalmente se considerarmos o fato de que foi dada por um desembargador próximo da família Sarney. Aliás, isso também não constitui novidade para o presidente do Senado. Veja-se o caso da cassação do governador Jackson Lago (PDT), ocorrida nesse ano. A presidente do Tribunal Regional Eleitoral (desembargadora Nelma Celeste Sarney Costa), responsável pela cassação, é cunhada do senador, casada com o irmão dele. Tudo indica que, da imprensa ao Judiciário, ele tem poder para pressionar os opositores, impor a censura, barbarizar.O senhor acha a decisão de impor a censura ao jornal neste caso pode ser um precedente, autorizar novos ataques à librdade de imprensa?Sem dúvida. Ela abre um precedente perigoso, às vésperas de um ano eleitoral. Nesse ritmo, qualquer candidato interessado em barrar informações que considere prejudiciais à sua imagem poderá entrar na Justiça e ganhar.

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