Rafael Freire/UP
Rafael Freire/UP

‘Esquerda deixou de fazer trabalho de base’, diz presidente da UP, novo partido socialista

Com origem em movimentos sociais e nas periferias, nova sigla se diz socialista e pretende lançar candidatos às principais prefeituras em 2020

Entrevista com

Leonardo Péricles Roque, presidente nacional da Unidade Popular

Vinícius Passarelli, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 11h10

Último partido a receber registro eleitoral, a Unidade Popular (UP) nasceu nos protestos de junho de 2013. A 33ª legenda brasileira se define como de esquerda e faz críticas a governos do PT. Segundo Leonardo Péricles Roque, presidente nacional da sigla, quando chegou ao poder, o PT seguiu a cartilha do neoliberalismo, aumentou juros, provocou desemprego e se desligou das bases.

Em entrevista ao Estado, Roque afirma que conseguiu coletar as assinaturas ao fazer panfletagem e participar de discussões em porta de fábricas, favelas e praças públicas. O novo partido é apoiado, principalmente, por sem tetos e jovens e pretende lançar candidatos nas próximas eleições. Sobre Bolsonaro, Roque faz uma série de críticas: “É o governo do caos”.

Por que criar um novo partido e não se juntar aos partidos de esquerda já existentes?

Nos últimos anos, vários setores de esquerda tomaram um caminho defensivo na política, de que não é possível avançar mais no Brasil em reformas estruturais, de embates históricos que na nossa opinião são extremamente necessários. E a principal crítica é o que a gente chama de conciliação de classes, que é propor conciliar interesses dos trabalhadores, da classe trabalhadora, do povo pobre com os interesses dos bilionários, da classe dominante que são menos de 1% da população. Esta política deu errado no Brasil, é importante ressaltar isso.

Quais seriam essas reformas estruturantes?

A gente considera que é necessário romper o legado de um país dependente de exportação, de commodities, que é caso do Brasil, que tem nos últimos anos destruindo sua indústria. E isso vai aumentando a dependência do Brasil em relação ao capital financeiro internacional. Mesmo os governos à esquerda que entraram, do ponto de vista da política econômica, implementaram políticas neoliberais, não houve rompimento com os setores dominantes. E essa cartilha neoliberal é que leva à situação que estamos vivendo hoje.

Como enxerga a esquerda brasileira atual e o papel do PT e do ex-presidente Lula nesse campo?

Em relação ao ex-presidente Lula, inegavelmente é um nome da esquerda que tem muito carisma ainda, que tem força no País. O governo dele fez uma política desenvolvimentista, as commodities estavam em um boom internacional, então não tinha crise. Nesse período é importante lembrar que o governo dele atendeu a interesses populares, dos trabalhadores, teve algumas medidas compensatórias, mas também atacou direitos. Principalmente a partir do governo Dilma, se iniciou uma política repressiva, aumento de juros, corte de investimentos, o desemprego começou a crescer. Mas a gente condena a perseguição absurda que aconteceu para tirar o ex-presidente Lula da disputa em 2018. Montamos a UP justamente por considerar que os outros partidos não defendem mais o programa que defendemos ou têm timidez em fazê-lo, que é de enfrentamento ao neoliberalismo e a setores do capital financeiro. Por outro lado, também estamos abertos ao debate com todos os partidos de esquerda. Defendemos a unidade da esquerda a partir de um grande programa popular.

Nos últimos anos, a esquerda perdeu campo em setores populares, como os evangélicos. Há algum trabalho para atingir essas bases populares hoje mais ligadas à direita?

É mentira esse discurso que todos os evangélicos são de direita. Pelo contrário, tem um setor importante também que atua na esquerda. Esse é um trabalho que a gente já faz. Esses setores são importantes porque temos no Brasil uma parcela significativa que é religiosa, mas que ao mesmo tempo sofre com o desemprego e a falta de políticas públicas.

Qual avaliação você faz do governo Bolsonaro?

É um governo de caos. Foi uma eleição não legitima, não só porque retiraram o ex-presidente Lula da jogada, mas também pelos disparos de mensagens contratados que ainda não foram investigados da forma devida, pela corrupção que está envolvida, pela ligação com as milícias, enfim, são várias irregularidades, inclusive defesa de tortura, de torturadores, isso é contra a nossa Constituição. Outro erro que aconteceu nos governos ainda do PT: um deles foi não ter seguido profundamente as recomendações da Comissão da Verdade, o Brasil é o único país da América do Sul que não puniu seus torturadores, não fez uma justiça de transição.

Como foi o processo de formação do partido?

Nós somos um dos frutos à esquerda das jornadas de junho de 2013. Ao contrário do que outros vêm falando, nós não consideramos que a jornadas de junho foram um golpe da direita. Foi uma manifestação popular espontânea, que veio a partir dos grandes problemas que o Brasil já vinha vivendo junto com efeitos mais profundos da crise econômica. Naquele processo, uma das questões de fundo foi a representação política. Junto com alguns movimentos que já existiam, chegamos a um balanço de que era necessária a criação de um novo partido de esquerda no Brasil. Depois de uma tentativa frustrada, em outubro de 2016 iniciamos o trabalho de coleta de assinaturas. Fomos às praças, vilas, favelas, ocupações, inclusive contrariando muita gente do campo político que vem falando há alguns anos algo que esse negócio de ir para porta de fábrica, de fazer panfletagem e ir de casa em casa são coisas do século passado. Nós achamos exatamente que esse é um dos grandes erros que a esquerda cometeu nos últimos anos, que é não fazer o chamado trabalho de base. E fizemos isso inclusive falando de coisas como socialismo, luta de classe, de movimento popular, da necessidade de fazer greve, de lutar, era esse o nosso discurso. Claro que tinha gente que discordava e isso faz parte da limitada democracia que a gente vive.

Ao todo, demorou quanto tempo para o partido sair do papel?

Três anos. Porque dois anos foram a nossa parte, que é entregar as fichas nos cartórios. Entregamos a última ficha no dia 14 de setembro de 2018 e o registro veio sair no dia 10 de dezembro de 2019.

Qual é a principal base do partido?

Os sem tetos são uma base importante que nós temos no partido que não tem representação política. Também a juventude. Essas são as duas representações mais fortes que nós temos, além do movimento de mulheres e do movimento sindical. Então são partes consideráveis e importantes. E dentro disso, o trabalho do ponto de vista racial também está bastante presente na nossa construção.

Quais são os planos do partido para as eleições municipais? A UP pretende lançar candidatos a prefeito nas principais cidades, trabalha com um número de vereadores a serem eleitos?

Em 2020 lançaremos candidaturas no Brasil inteiro. Nosso diretório nacional se reunirá na segunda quinzena de janeiro e com calma faremos essa avaliação. Já temos pré-candidatos, em várias cidades do País, sobretudo as capitais. Entendemos que as eleições municipais, embora locais, terão um caráter nacional. Serão o primeiro grande teste do governo Bolsonaro. Estará em discussão nos municípios os grandes problemas que o Brasil está vivendo. E a gente entende que temos que participar ativamente desse processo de discussão política.

Vocês são a favor do financiamento público de campanha, do fundo partidário e do fundo eleitoral?

Defendemos centralmente que o financiamento do partido deve ser feito com a contribuição dos seus filiados. E é assim que nós montamos a UP, com o conjunto dos seus filiados contribuindo.

De onde vem o nome Unidade Popular?

É uma inspiração no grande movimento da década de 70 no Chile que culminou na vitória do ex-presidente Salvador Allende, que foi derrubado por um golpe fascista (em 1973).

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