Esquema era para pagar dívida de campanha, diz delator do caso Sanasa

Julgamento do escândalo de corrupção da prefeitura de Campinas teve sua quinta sessão nesta sexta-feira

Ricardo Brandt, de O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2012 | 19h34

CAMPINAS - O delator do caso Sanasa - escândalo de corrupção da prefeitura de Campinas (SP) -, Luiz Castrillon de Aquino declarou em juízo, nesta sexta-feira, 23, que o suposto esquema de direcionamento de licitações, fraudes em contratos públicos e pagamentos de propina foi montado para pagamento de dívidas de campanha e era liderado pela ex-primeira-dama Rosely Santos.

Primeiro dos 22 réus dos processo a ser ouvido pela Justiça, Aquino afirmou que em todos os contratos da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento havia cobrança de contribuições que variavam de 5% a 10% do faturamento das empresas. "Os desvios foram praticamente desde o começo. Ficou claro que deveria se ter uma forma de resgate financeiro para que se pagasse uma dívida de campanha. Nesse caso, fomos cooptados pela Dra. Rosely. O que se queria é que em todos os contratos da Sanasa tivessem um retorno, e isso é impossível", afirmou Aquino em seu depoimento.

Aquino, que foi presidente da Sanasa durante o governo do prefeito cassado Hélio de Oliveira Santos (PDT) de 2005 a 2008, é um dos 22 denunciados no caso e depôs sob o benefício da delação premiada. Além dele, são réus a ex-primeira-dama, o vice-prefeito cassado Demétrio Villagra (PT), os ex-secretários da prefeitura Carlos Henrique Pinto e Francisco de Lagos e o ex-diretor de Planejamento Ricardo Cândia, além de outros dirigentes da Sanasa e empresários. Todos negam o esquema.

Segundo o delator, grandes empresas como a Camargo Corrêa e a Constran pagaram propina para o esquema, valores que eram lançados na contabilidade da Sanasa como "pequenos". Os representantes dessas empresas réus no processo negam irregularidades. "(O dinheiro) ficava comigo dois ou três dias e eu, pessoalmente, levava para a Dra. Rosely, onde se contavam as cabeças dos maços de R$ 5 mil. Entreguei para ela no escritório, na prefeitura, em seu gabinete e na casa dela", afirmou Aquino. Segundo ele, o então prefeito Dr. Hélio nunca presenciou os pagamentos. Ele citou ainda pagamentos de valores em dinheiro em cafés, restaurantes da cidade e no banheiro de um shopping.

Questionado pelo Ministério Público, Aquino afirmou que os pagamentos eram feitos conforme as datas de faturamento das empresas contratadas, mas que mensalmente era feita a divisão de um "mensalinho" entre os envolvidos. "Nós tínhamos o mensalinho. Era uma participação mensal na Sanasa."

Segundo o delator, as "contribuições" feitas pelas empresas eram obtidas após o direcionamento das licitações com "concorrências trabalhadas". "Trabalhar a concorrência é colocar certos artifícios que propiciam que uma empresa ganhe ou que ela arregimente outras empresas para participar junto, sabendo que ela vai ganhar", explicou.

A audiência desta sexta foi a primeira em que os réus foram ouvidos e a quinta no julgamento do processo. O juiz Nélson Augusto Bernardes, da 3ª Vara Criminal, atendeu pedido dos advogados de defesa para que as demais testemunhas falassem em outra data. Os réus são acusados de formação de quadrilha, desvios de recursos e fraudes em licitações.

O julgamento acontece um ano após ser deflagrada a operação do caso Sanasa, que levou 11 pessoas para a cadeia e que culminou com a cassação do prefeito Hélio e de seu vice Villagra, em 2011. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que investigou e denunciou o esquema, os acusados podem ter desviado até R$ 30 milhões com as fraudes de contratos da Sanasa.

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