Esquema de hábeas de deputado beneficiava vários traficantes

As gravações feitas pela Polícia Federal, em quase três anos de investigação, mostram que o esquema de intermediação de habeas-corpus, supostamente liderado pelo deputado federal Pinheiro Landim (PMDB-CE), não beneficiava apenas Leonardo Dias Mendonça, mas também outros traficantes.Nas conversas com vários interlocutores, há indícios de que o parlamentar teria recebido US$ 100 mil para libertar Ecival de Pádua Santomé e Amarildo de Oliveira Beirigo. Em um diálogo mantido entre Landim e Sílvio Rodrigues da Silva, há a clara demonstração de que os dois falam sobre dinheiro.Silva pergunta para o parlamentar se ele havia recebido o recado dado ao motorista, José Antônio de Souza. O deputado responde afirmativamente. "Aquela pessoa eu não tô encontrando ela, porque aconteceu um ?poblema? na semana retrasada e, pelo que estou achando, ele tá envolvido, certo?", diz Silva, referindo-se à apreensão de um avião em Mato Grosso do Sul, com 450 quilos de cocaína.A pessoa a quem Silva se referia é Vicente de Paulo Lima, o Peru, dono da droga apreendida, que fugiu após a ação da Polícia Federal. No entanto, o interlocutor explica ao deputado que está mantendo contato com Peru, por intermédio de Dias Mendonça. "Mas ele vai nos procurar, ele vai nos procurar. E o outro rapazinho (Léo) está em Goiânia hoje. Inté pedi pra ele, pra ele ajudar a localizar esse rapaz (Peru) pra conversar com ele. E com relação ao dinheiro, ele vai pagar na segunda-feira", disse Silva a Landim.O deputado confirma, segundo as gravações, que se tratava de negócio relacionado a Ecival Santomé e Amarildo Oliveira, tratados no diálogo como "meninos". "Eu assumi compromisso e tenho de cumprir segunda-feira (...) Porque vai sair o acordo... o assunto, entendeu? E aí eu, eu tô preocupado demais, demais, demais. Porque não posso falhar, não posso falhar. Se isso falhar é um desastre", diz Landim.O temor do parlamentar seria o de que Peru não repassasse o dinheiro. Mas em uma conversa com um advogado, uma semana depois, Silva confirma que o negócio já estava para se realizar. "Passou tudo. Agora o outro é, os cara que caiu lá com aqueles negócios e o menino vai chegar na terça-feira, o dono da ação, que é o que vai dar lá US$ 100 mil para ajudar o Amarildo. Ontem, eu peguei o Baixinho (Léo), botei o Pinheiro dentro do meu carro e nós foi conversar..."Silva é considerada uma pessoa de confiança dentro do esquema. Tanto que foi o intermediário de pagamentos feitos por Dias Mendonça para o também traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, relacionados a acertos de contas.Além de Ecival e Amarildo, ele também teria acertado a libertação de outros três traficantes, denominados nas gravações como "Três Alqueires".A negociação, que se iniciou nos primeiros dias de março deste ano, prosseguiu até o dia 14, como demonstra uma conversa entre Silva e Jânio Resende Castro - preso em Goiânia, assim como Silva -, onde o primeiro confirma que o dinheiro seria entregue a um advogado."É o doutor que vai buscar o dinheiro, que é dos homens, que vai soltar os meninos depois de amanhã. Tá esperando levar o dinheiro, tá esperando para levar o dinheiro, tá juntando para dar R$ 350 mil para eles. Já deu... o Pinheiro vai dar R$ 200 mil hoje do cheque do Real e tá esperando levar o resto aqui para poder dar. Pra soltar o Amarildo, os Três Alqueires e ir atrás dos 2 milhões. Tudo é o mesmo esquema", explicou Silva.Mas a suposta articulação não deu resultado. O julgamento do habeas-corpus aconteceu no Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, no dia 15 de agosto deste ano, mas por maioria de votos foi recusado. Nas investigações, a PF faz um extenso relato de como foi a votação que interessaria aos traficantes, indicando que, além do suposto grupo de Landim, haveria integrantes do Poder Judiciário.O deputado Pinheiro Landim foi procurado nesta sexta-feira em seu gabinete, na Câmara, e em seu celular, mas não atendeu às ligações, como vem fazendo desde que as acusações vieram à tona.

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