Esquema da Sudam funcionou até março

O esquema de fraudes na Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) - extinta no dia 2 - funcionou até março, dias depois de o Ministério da Integração Nacional ter feito uma auditoria na autarquia. Uma interceptação telefônica, feita pela Polícia Federal no dia 19 daquele mês, mostra que os principais suspeitos de envolvimento nas irregularidades ainda tentaram conseguir apoio político.Nos diálogos, aos quais o a Agência Estado teve acesso, aparecem novamente o nome do ex-secretário-executivo do ministério Benivaldo Alves de Azevedo como um dos interlocutores do grupo dentro do governo. Benivaldo foi citado em mais dois diálogos gravados nos dias 19 e 22 de março.No primeiro, Geraldo Pinto da Silva, dono de um dos escritórios de assessoria de projetos suspeitos, conversa com uma pessoa identificada como Sérgio Dib, que seria um empresário de São Paulo. O empresário o informa que Benivaldo ligou pela manhã, avisando que estava indo de Natal para Brasília.Sérgio Dib diz ainda que a Refrigerantes Xuí - projeto do empresário Romildo Onofre Soares, aliado do presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), em Altamira - deu problema. Uma reportagem publicada pela revista "Época" teria sido o motivo da preocupação.Dib afirma que "ele (Benivaldo) ia ver se resolvia ela (a empresa) e a Frango Líder (outro projeto de Romildo Soares)". Mas o empresário não acreditava que isso, naquele momento, fosse possível. "Ele não vai mais mexer", disse Dib para Geraldo Pinto da Silva.No segundo diálogo, o empresário liga de São Paulo para informar a Geraldo que conversou com Benivaldo na hora do almoço. O ex-secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional lhe disse que "Pepeu" foi demitido. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público ainda não conseguiram identificar Pepeu.Esta semana, o Ministério Público Federal vai pedir a quebra de sigilo bancário de Benivaldo, além de outras 30 pessoas suspeitas de integrar o esquema de irregularidades. Entre elas, os ex-superintendentes da Sudam Maurício Vasconcelos (que também foi secretário-executivo do ministério) e José Arthur Guedes Tourinho.Benivaldo pediu demissão no dia 6 de abril, após a revelação de que tivera contatos com pessoas ligadas às fraudes na Sudam. Policiais federais que trabalham no inquérito ainda não encontraram, no entanto, indícios de que o ex-secretário tenha sido beneficiado com as irregularidades.FotoAinda no dia 19 de março, foi interceptada uma ligação de Geraldo Silva para José Soares Sobrinho, suspeito de fraudes em projetos da Sudam em Altamira e também ligado ao senador Jader Barbalho. Na conversa, Geraldo cita foto publicada em uma revista, em que Sobrinho almoçava com Jader numa churrascaria, comprovando a ligação da família Soares com o presidente do Senado.Sobrinho parecia preocupado, mas Silva o acalma: "Não tem nada a ver você sentar com ele (Jader) à mesa. Foi você, como poderia ser outro." Silva fala que sua preocupação é uma só, sem esclarecer qual seria o motivo, e revela que teve "um bate-papo hoje com o pessoal lá de Brasília".Sobrinho informa que o dinheiro dele iria sair até quarta-feira. "Mas os caras me ligaram dizendo que não dá para ajudar nem Fazendinha (projeto da família Soares em Macapá) nem Xuí (refrigerantes Xuí, em Paraíso do Tocantins) porque saíram na revista Época", disse Silva.Para tentar dissimular as investigações, Silva sugeriu como alternativa a mudança de nomes em projetos, evitando que um dos irmãos Soares aparecesse. O jeito a ser dado seria a nomeação de um laranja para figurar como proprietário. "Vou tocar o projeto de Macapá com o Mário Bueno, para evitar que você e seu irmão apareçam no Fazendinha", afirmou Geraldo a José Soares Sobrinho.Na quinta-feira, a PF vai começar a ouvir os depoimentos de Romildo Soares e outras oito pessoas que eram usadas pelo empresário e sua família como laranjas das empresas do grupo. Soares deverá ser indiciado, com pelo menos 12 funcionários da Sudam acusados de envolvimento nas fraudes.

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