Esquecida, região ainda vive em clima de miséria

Um século depois, municípios do Contestado ainda têm os piores índices sociais

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

É um jogo de paciência chegar aos locais onde ocorreram as batalhas decisivas da campanha comandada pelo general Setembrino de Carvalho. Os plantios de pinus, principal fonte de renda da atualidade no Contestado, ocuparam o espaço das matas dos pinhais, das centenárias araucárias usadas como pontos de referência dos rebeldes e seus descendentes. As estradas do Contestado continuam de terra e cascalho, inclusive as de acesso a cidades, como Frei Rogério. Às margens delas, as plantações de pinus são homogêneas, com árvores plantadas em áreas divididas em blocos, crescendo na mesma altura nos terrenos baixos, nos morros e nos pés de serras elevadas.

 

O Contestado virou um labirinto verde, desafiando os caboclos e suas tentativas de guardar as memórias de família e de comunidade. As porteiras de aço das companhias produtoras de pinus predominam, bloqueando caminhos seculares ainda do tempo dos viajantes e tropeiros, que percorriam trilhas do Planalto Catarinense, com seus muares, fazendo o percurso das estâncias do Rio Grande do Sul à tradicional feira de bois de Sorocaba, vila da então capitania e depois província de São Paulo.

 

 

Três homens trabalham numa plantação de pinus à beira da rodovia SC-302, que liga as cidades catarinenses de Caçador e Lebon Régis. O mais novo, Marcelo Vieira, de 18 anos, usa piercing e brincos nas orelhas. A camisa colorida e a calça jeans justa estão desgastadas. Marcelo é engatador de cabo, amarra as toras de madeira de cerca de 25 metros de altura em cabos de aço que vão ser puxados por um trator. "Trabalho de 8 às 6", conta, numa pausa no serviço. "Se o caboclo pegar bem, consegue tirar R$ 800 por mês."

 

Marcelo trabalhava na colheita de maçã e tomate em Fraiburgo, uma próspera cidade da região, juntamente com os pais Ana Clair e Ladir Vieira, netos de revoltosos do Contestado. Foi no antigo trabalho que Marcelo conheceu Rosélia, 18 anos, com quem vive numa pequena casa em Lebon Régis. "Só Deus proverá. Procuramos sempre uma vida melhor. Enquanto não achamos, nós continuamos aqui."

 

Ele estudou até a oitava série, foi quando resolveu colocar piercing, para revolta do pai. "O velho teve de aceitar. Quando a gente quer uma coisa, não adianta os outros reclamarem", diz. Avalia que, agora, não dá mais para "virar", voltar à escola. Marcelo diz que, na região, o futebol e os bailes sertanejos são opções de diversão nos finais de semana. "Gosto de um sertanejo velho. Gosto de tudo um pouco do sertanejo. O importante é variar, dá mais gosto."

 

Em qualquer frente de trabalho nas plantações de pinus pode haver congestionamento de memórias de guerra. Quem dirige o caminhão no serviço de Marcelo é Claudinei Cardoso dos Santos, 30 anos, neto de Vergilino, um rebelde exilado da Revolução Gaúcha de 1923, uma continuidade tardia da Revolução Federalista, que pôs em combate opositores políticos do Rio Grande do Sul. "Meu avô veio com tropa para cá", conta Claudinei. "Na viagem, se alimentava de pinhão e de farinha dada pelos colonos que encontrava", completa. "Dizia sempre que era homem da força, não falava se da paz ou da guerra."

 

Claudinei diz que fatura R$ 800 por mês pelo trabalho. Além de dirigir trator, ajuda a serrar a madeira em toras de 2,4 metros. "Aqui é só quebra-galho. Sou agricultor, trabalho no plantio de pêssego e uva", relata. Ele mora com o pai, Ari, agricultor em Tangará, cidade a 70 quilômetros.

 

Geonir Martins, 46, o mais velho do grupo, é o responsável pela motosserra. Pai de quatro filhos, trabalha há dez anos no corte de pinus. O trabalho rende um salário médio de R$ 1 mil. O filho mais velho, Wilson, de 25 anos, marca pinus - escolhe as pequenas árvores que vão ser retiradas do campo para dar espaço a espécies mais desenvolvidas - numa outra plantação. Geonir diz que uma equipe de três homens consegue derrubar até 30 árvores adultas por dia.

 

O avô materno de Geonir, Aparício Batista, vivia num reduto rebelde no tempo da guerra do Contestado. "Ele venceu quando conseguiu escapar das balas", avalia. "Meu avô contava que escapou de uma rajada ao se esconder atrás de uma imbuia. Um amigo dele caiu morto."

 

Ao relatar as histórias narradas pelo avô, Geonir diz que o Exército não chegava para "conversar", como descreve o capitão Figueroa em relatório. "As tropas ficavam em cima dos morros atirando, atirando. Meu Deus do céu, que sofrimento", diz o derrubador de pinus. O avô Aparício era descendente de alemães, conta o neto. Depois da guerra, Aparício tomou posse de uma propriedade de 200 alqueires. Com nove filhos, vivia do plantio de milho, arroz, feijão e batata. Antes de morrer, nos anos 1980, durante uma crise no setor da agricultura, vendeu a terra. Os filhos e netos trabalham em pequenos sítios e nos plantios de pinus e tomate.

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