Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Espero que não sejam investigações de natureza política'

Presidente da Câmara desdenhou do fato, divulgado pela imprensa, de que ele teria sido avisado pelo vice-presidente Michel Temer da presença de seu nome na lista de Janot; 'é uma piada', disse

Entrevista com

Eduardo Cunha

Irany Tereza, O Estado de S. Paulo

04 Março 2015 | 05h00

Brasília - Uma hora após o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ter anunciado em plenário que iria devolver ao Executivo a Medida Provisória das desonerações, sob a alegação de inconstitucionalidade, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse, em seu gabinete, ter sido surpreendido, "como todos", com a decisão, que soou como declaração de guerra do Poder Legislativo ao Executivo. Mas evitou críticas à atitude de Renan: "Se ele o fez, deve ter as razões para fazê-lo", disse, em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

Conforme divulgado pela imprensa nessa terça, Renan e Cunha foram informados pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB) que seus nomes estavam na chamada "lista de Janot", a relação de pedidos de abertura de inquéritos de políticos envolvidos na Operação Lava Jato que o procurador geral da República Rodrigo Janot enviou no início da noite ao Supremo Tribunal Federal. "Que seja investigado tudo aquilo que se propõem a investigar. Mas espero que não sejam investigações de natureza política", rebateu Cunha, negando ter recebido qualquer informação sobre o caso. Sobre o aviso de Temer, ele desdenhou: "Só posso rir disso. É uma piada."

O senhor foi avisado de que seu nome conta da lista do procurador Janot?

Não recebi qualquer informação de quem quer que seja. E não comento especulação. Só desminto a notícia que está publicada. Se existe, desconheço. Até agora o impacto na Câmara é nenhum. Só há expectativa ou buxinxo. Por enquanto isso (a especulação sobre a lista) não causa nenhum problema.

 

 

E se o senhor for investigado?

Não vejo nenhum problema. Ninguém está imune a nenhuma investigação. Que seja investigado tudo aquilo que se propõem a investigar. Mas espero que não sejam investigações de natureza política. Efetivamente já sofri nesse processo, em alguns momentos, até na disputa à presidência da Câmara, momentos constrangedores de alopragem, com divulgações de fatos inverídicos. Estou absolutamente tranquilo. Não tenho a temer qualquer tipo de investigação. E também não aceito que uma medida se torne verdade, como essa comunicação falsa que circulou.

 

 

O que circulou durante o dia é que o senhor e o presidente do Senado, Renan Calheiros, foram alertados pelo vice-presidente Michel Temer.

Não seria o vice-presidente que teria de me comunicar um assunto dessa natureza. O vice-presidente não é assistente do presidente da Câmara para receber e passar informação. Seria diminuir o papel do vice-presidente da República no nosso País. Só posso rir disso. É uma piada.

 

 

A devolução da MP das desonerações feita pelo senador Renan Calheiros foi uma declaração de guerra ao Executivo? O senhor sabia da intenção?

Isso você tem de perguntar ao presidente do Congresso, não a mim. Eu não sabia. Soube da mesma forma que vocês.

 

Sabia da ausência de Renan no jantar da presidente Dilma Rousseff na segunda? Como foi o jantar?

Não. Soube pela imprensa. Foi um jantar normal. A agenda cabe a ela divulgar. A mim não cabem comentários de natureza partidária em função do exercício que estou. Fui convidado gentilmente e gentilmente compareci. Prefiro não comentar a pauta do jantar, prefiro que o vice Michel Temer ou os líderes partidários comentem a pauta.

 

 

A atitude de Renan Calheiros acontece na véspera da vinda da missão da Standard & Poor's...

Certamente isso terá impacto na avaliação da S&P. Eles (os integrantes da missão da classificadora de risco) não me pediram audiência, mas pode ser que ainda peçam. Também pode ser que entendam que devem falar com o presidente do Congresso... não sei. Da minha parte estou sempre à disposição para poder atender e falar o que for possível de nossa parte.

 

 

O senhor considera que a negociação com o Congresso foi mal conduzida pelo governo?

Foi, de uma certa forma, desde o primeiro momento, mal comunicada. Teria sido muito mais importante se tivesse sido previamente debatidas (as medidas) e viesse todo o conjunto de uma única vez. Teria tido mais efeito até para o próprio Poder Executivo. O que aconteceu é que o governo está buscando a maneira, encontrando o que ele entende ser mais importante para efetuar de corte e que permita ter o atingimento da métrica que se propôs para o superávit primário para 2015. O governo vai buscar de outra porque o governo acaba se reajustando de várias maneiras, inclusive através de inflação. Não há fórmula única e exclusiva para que um ajuste fiscal seja levado a cabo. Há os que causam mais ou menos prejuízo à economia. Mas o que mais causa prejuízo à economia é a instabilidade política e isso mostra que o ajuste fiscal não tendo condições de seguir, provoca incertezas. É isso que temos de ter cuidado.

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