GABRIELA BILO/ESTADÃO
GABRIELA BILO/ESTADÃO

Especialistas dizem à CPI que incentivo a medicamentos sem eficácia agravaram pandemia

‘A gente só não testou cloroquina em emas porque elas fugiram’, ironizou microbiologista; médico classificou plano de vacinação como ‘pífio’

Daniel Weterman, Matheus de Souza e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 20h10

BRASÍLIA e SÃO PAULO – O depoimento de dois cientistas ouvidos nesta sexta-feira, 11, na CPI da Covid devem reforçar os argumentos da comissão para responsabilizar o presidente Jair Bolsonaro pelo descontrole da pandemia. A microbiologista Natalia Pasternak e o médico sanitarista Cláudio Maierovitch apontaram consequências graves do chamado tratamento precoce e de outras medidas defendidas pelo Palácio do Planalto que contrariam evidências científicas.

O uso da cloroquina é um dos principais temas abordados na comissão. Os dois especialistas ouvidos reforçaram que o medicamento não tem eficácia comprovada para curar ou reduzir os efeitos da covid-19 em pacientes que contraíram a doença. A CPI pretende responsabilizar integrantes do governo que tenham agido a favor desse tratamento. Além disso, os integrantes da comissão querem apontar um cruzamento ilegal de ganhos abusivos de farmacêuticas com a venda de remédios do chamado “kit covid”, como hidroxicoloquina e invermectina. 

Microbiologista e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak adotou um tom crítico ao uso de medicamentos para a covid-19. A especialista apontou erros na defesa da cloroquina em razão da falta de evidências científicas a favor do medicamento. “Não funciona em células do trato respiratório, não funciona em camundongos, não funciona em macacos e também já sabemos que não funciona em humanos", disse ela, afirmando que foram esgotadas as opções de testes para o medicamento.

"A gente só não testou em emas porque elas fugiram", ironizou Pasternak, em menção a um episódio no qual o presidente Jair Bolsonaro foi fotografado correndo atrás do animal com uma caixa do medicamento. 

Aliados de Bolsonaro apresentaram argumentos favoráveis ao uso do medicamento, apresentando dados de quem tomou e se recuperou da doença. O senador Luiz Carlos Heinze (Progressistas-RS) declarou que os médicos pró-cloroquina estavam sofrendo “bullying”. Na avaliação dos especialistas, porém, a correlação não significa que a cura foi efeito do remédio. 

“Para o momento, nós temos evidências suficientes para saber que a cloroquina não produz efeitos benéficos em relação à covid-19”, destacou Cláudio Maierovitch, sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz e ex-presidente da Anvisa.

As medidas contra o isolamento social e o atraso na compra de vacina foram apontados como outras atitudes do governo que prejudicam o combate à pandemia. “Esse negacionismo da ciência, perpetuado pelo próprio governo, mata”, afirmou Pasternak. 

Máscaras

Os depoimentos ocorreram um dia depois de  Bolsonaro anunciar um estudo para desobrigar o uso de máscaras de proteção para quem se vacinou ou contraiu coronavírus, embora a pandemia não esteja sob controle.

"A recomendação do uso de máscara é essencial enquanto se continua observando número de casos e óbitos, o que é preocupante. Só podemos deixar de usar quando grande porção da população estiver vacinada e quando a curva nos disser que isso é seguro. Não temos nem que olhar porcentagem de vacinados, mas a curva da covid", disse a microbiologista. 

Nesta sexta-feira, 11, Bolsonaro voltou atrás e disse que a decisão sobre o uso de máscaras cabe a Estados e municípios. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reforçou a necessidade de vacinar a população antes de orientar pela retirada da proteção facial.

A falta de coordenação nacional no combate à pandemia e a aposta na imunidade de rebanho foram classificadas pelo ex-presidente da Anvisa como negligência do governo. “É uma atitude que, se a gente olhar do ponto de vista racional, é suicida. As pessoas estão sendo impelidas a desejos suicidas”, disse Maierovitch, defendendo a organização do plano de vacinação. “O plano de imunização que tivemos é um plano pífio.”

O relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), expôs a estratégia da comissão para avançar nas investigações e apontar provas contra o governo na condução da pandemia. Durante a sessão para ouvir os especialistas, o senador afirmou que a comissão está fazendo estudos para apontar quem será investigado e responsabilizado.

"A partir de agora, nós vamos, com relação a algumas pessoas que por aqui já passaram, tirá-las da condição de testemunha e colocá-las definitivamente na condição de investigadas para, com isso, demonstrar a fase seguinte do aprofundamento da nossa investigação", afirmou Renan.

Tanto o relator quanto outros integrantes da CPI reagiram à declaração de Bolsonaro sobre máscara. "Nós temos um Jim Jones na Presidência da República. A diferença para o americano é que o americano induziu ao suicídio e o que está na Presidência da República do Brasil induz à continuidade dessa tragédia e desse morticínio", disse o senador alagoano.

Gabinete paralelo

Durante o depoimento, Maierovitch criticou o comportamento de colegas de profissão que integrariam o chamado gabinete paralelo de assessoria a Bolsonaro em assuntos da pandemia. Ao se referir à oncologista Nise Yamaguchi, que negou à CPI fazer parte de um assessoramento “paralelo”, Maierovitch disse ter ficado "espantado". "Fui colega de faculdade. Sabendo da experiência anterior, e agora assumindo posições e defesa de atitudes anticientíficas, eu estranhei muito", afirmou o sanitarista.

Questionado sobre o virologista Paolo Zanotto, que também participou da reunião com Bolsonaro, Maierovitch fez as mesmas considerações. "Com todo respeito, ele é um biólogo, virologista, não foi formado para tratar pessoas", observou o médico. Maierovitch  ainda classificou o deputado e ex-ministro Osmar Terra (MDB-PR) como mais atuante atualmente na política do que na medicina. 

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