Especialistas dão dicas para suportar o calor

De terno escuro e gravata apertada, o gerente de sistemas Ricardo Crespo, de 31 anos, suava sem parar, sob um calor sufocante na Avenida Paulista, na hora do almoço da sexta-feira. Regra em sua empresa, o traje se torna um suplício nos dias quentes, como os registrados na cidade e em grande parte do País na semana passada. "Trabalho assim há 15 anos. Já cheguei todo molhado, suando, em reuniões. É ridículo", diz Crespo. Seu colega de empresa, Júlio Diegues, de 34 anos, concorda e nem se lembra de quantas vezes passou desconfortos no calor. Para esses profissionais, a salvação está nas salas com ar-condicionado - de preferência, com copos de água gelada à mão. Mas para alguns médicos essa receita não é das melhores. "O ar-condicionado não é bom. O melhor é o circulador de ar ou a ventilação natural", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antonio Carlos Lopes. O ar-condicionado, afirma, está carregado de poluição e ácaros e pode provocar vários problemas respiratórios. "A água também não deve ser gelada. Isso causa apenas uma aparente melhora. Água fresca é muito melhor." Para lidar com o calor, clínicos gerais, fisiologistas e até especialistas em medicina chinesa dão muitas sugestões. Algumas coincidentes. A primeira: água, muita água. Mas com uma ressalva: melhor que seja sem gás, porque esta contém bicarbonato de sódio, o que pode retardar a digestão, algo que combinado com o calor causa desconforto ainda maior. A ingestão de líquidos (incluindo sucos, água-de-coco e isotônicos, que ajudam a repor os sais mineirais que são perdidos com o suor) tem função direta também sobre a pressão arterial. A lógica é simples: com o calor, os vasos sanguíneos ficam mais dilatados e a pressão arterial tende a cair. A água ajuda a manter a quantidade de sangue elevada e a pressão, equilibrada. Ar-condicionado e copos de água gelada não são os únicos recursos anticalor contestados. Chuveiradas frias podem ser substituídas por banhos mornos e rápidos. Lopes insiste que os efeitos são melhores. "Depois de um banho gelado, o calor se manifesta de uma forma muito mais intensa", explica. Isso sem falar no impacto de temperatura que pode causar. Não chega a ser um "choque térmico", mas, para as pessoas mais velhas, a diferença repentina de temperatura pode transformar-se em algo particularmente delicado. Para elas também, baixas de pressão podem ser mais acentuadas. Cardápio - A alimentação ainda requer ajustes nos dias quentes. Alimentos leves, frutas, verduras, legumes e produtos menos gordurosos são os melhores. Bebidas alcoólicas tampouco são indicadas em excesso. A tese da "hidratação pela cerveja" não atende os especialistas. "O álcool tem um efeito diurético e já há grande perda de água pelo suor no calor", diz o fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luiz Eugênio Melo. O médico explica que o calor afeta diretamente processos de ajuste da temperatura interna do corpo. "O ponto central é que a temperatura interna tem de ficar estável em 36,8 graus, com pequenas variações para cima ou para baixo." Uma das formas pelas quais isso ocorre é pelo suor. Ou melhor, pela evaporação do suor. O processo de ajuste interno diante das mudanças externas se chama homeostase. Também não é por acaso que as pessoas mais velhas e as crianças padecem mais com o calor. Nelas, esse processo de manutenção da temperatura ou não está mais tão azeitado ou ainda não se desenvolveu. Geralmente, quem passou dos 65 ou 70 anos está mais vulnerável. Mulheres na menopausa também sofrem. "Para mim, duas quenturas são demais. Dá a impressão de que estou na frente de um braseiro", diz a dona de casa Clara da Silva Alvarenga, de 54 anos, referindo-se ao climatério e aos 36 graus dos termômetros da semana passada. Para ela e para sua turma da terceira idade, os conselhos médicos sobre calor e saúde têm peso redobrado.

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