Especialista em favores, Argello ressuscita no Senado

Senador que substituiu Roriz hoje é parceiro de Sarney, Renan e Dilma

Christiane Samarco e Eugênia Lopes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

03 de junho de 2009 | 00h00

O Jorge Afonso Argello cabisbaixo que em julho de 2007 entrou no Senado pela porta da suplência, ameaçado de cassação, já não guarda semelhança com o Gim vaidoso e piadista, que hoje transita com desenvoltura no colégio de líderes e nos gabinetes do Palácio do Planalto. Líder da bancada do PTB, com sete votos decisivos para o governo no Senado, Gim Argello exibe nas negociações o mesmo bom humor e agilidade que esbanja nas caminhadas matinais, ao lado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pelas calçadas da Península dos Ministros, no bairro do Lago Sul. É lá que os dois moram e têm como vizinhos os presidentes do Senado e da Câmara.Bastaram 22 meses de Congresso para que o suplente de Joaquim Roriz, que renunciara ao mandato para fugir da cassação, saísse do isolamento e chegasse à cúpula do Senado, com livre acesso ao gabinete do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). A escalada foi movida a uma bem azeitada troca de favores políticos no momento certo e com as pessoas certas."Minha expectativa era que Gim nem tomasse posse", lembra o presidente do PT do Distrito Federal e ex-deputado Chico Vigilante. "Se a Justiça Eleitoral tivesse agilidade, a chapa dele e do Roriz teria sido cassada", completa o petista, um dos autores da representação contra o senador no Ministério Público Federal.Hoje, Gim ainda é alvo de duas investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), por supostos crimes de apropriação indébita, peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Para alimentar as acusações de grilagem no Distrito Federal, seus adversários criaram até a alcunha de "Gim das Terras". Chegou maculado ao Senado, mas hoje tem muitos amigos.O corregedor do Senado, Romeu Tuma (SP), que à época era filiado ao DEM e agora é liderado de Argello no PTB, chegou a iniciar os procedimentos para abrir processo por suposta quebra de decoro parlamentar. A iniciativa não foi adiante porque a Mesa Diretora, então comandada por Renan Calheiros (PMDB-AL), arquivou a representação apresentada pelo PSOL, alegando que os questionamentos diziam respeito a fatos anteriores ao mandato."Cheguei no pior momento da história do Senado", recorda Argello, referindo-se à sequência de processos abertos para cassar Renan, acusado de receber dinheiro de empreiteira para pagar pensão alimentícia a uma filha fora do casamento. Foi exatamente aí que a amizade dos dois começou. A generosidade de Renan, no arquivamento da representação, foi retribuída quatro meses mais tarde: Gim votou contra todos os pedidos de cassação do mandato do peemedebista no plenário do Senado.A parceria com o PMDB rendeu dividendos no Congresso e no governo. A prova maior da força política do petebista foi emplacar o assessor técnico de seu gabinete parlamentar, Ivo Borges, em uma das cinco diretorias da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Mais do que currículo, o que valeu ao assistente social pós-graduado em comunicação, cuja única experiência em transportes resumia-se à chefia do setor administrativo da rodoviária de Brasília, foi o padrinho Gim. Outra vitória foi a eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) para o comando da Comissão de Infraestrutura. Em mais um exemplo de aliança bem-sucedida com Renan e Sarney, Argello impôs o nome de Collor contra a vontade do PT, que lançara a senadora Ideli Salvatti (SC) na disputa pela presidência da comissão. O Planalto ignorou as reclamações dos petistas e não interferiu em favor de Ideli. "Renan é uma escola. O que ele combina, vale", comemora Argello.Como consolo, Ideli ganhou a liderança do governo no Congresso, derrotando Gim, mas ainda teve de engolir a presença do petebista no colegiado de líderes do governo. "Quando o (líder Romero) Jucá não está no Senado, quem responde pela liderança do governo sou eu", vangloria-se. "Sou fiel ao presidente Lula", apregoa, ao contabilizar os 528 votos que deu em favor do governo no plenário e nas comissões, desde que pisou no Senado.Em tempos difíceis para o Planalto, quando a oposição infernizou a vida do governo com a CPI dos Cartões Corporativos, Gim conquistou a confiança e a amizade de Erenice Guerra, braço direito da ministra Dilma na Casa Civil. Além do apoio político, ele ofereceu à funcionária da ministra, que a oposição queria convocar ao Senado, a oportunidade de buscar força espiritual no Movimento de Renovação Carismática, da Igreja Católica.Para garantir consolo aos aflitos, ainda hoje costuma abrir as portas de sua mansão ao padre Moacir Anastácio. "O Sarney, a dona Marli (mulher do ex-presidente), a governadora Roseana Sarney (do Maranhão, que deve ser operada de um aneurisma cerebral hoje) e a Erenice, todos já foram lá em casa para conversar com o padre Moacir", conta o senador.Ele já tentou levar Dilma para participar das orações do padre que teria o dom da cura. Não teve sucesso. Um amigo comum conta que a ministra anda meio arredia e até mudou o horário das caminhadas, para evitar companhia. "Eu caminhava mais tarde,mas comecei a caminhar mais cedo para encontrá-la", admite o senador, ao revelar que foi durante o exercício matinal que se aproximou de Dilma.No Senado, os adversários costumam fazer piada, dizendo que Gim paga um olheiro para vigiar as saídas da ministra e avisá-lo, para que possa promover o "encontro casual". "Dizem até que mudei para a Península para ficar perto da Dilma, mas é maldade. Moro lá há oito anos. A casa é da minha mulher", defende-se.Apesar de ter passado quase uma década colecionando derrotas nas urnas e do desempenho pífio na primeira eleição para a Câmara Distrital em 1998, pelo então PFL, Argello gosta mesmo é de lembrar da vitória em 2002, quando foi o quinto deputado distrital mais votado em Brasília, pelo PMDB. Foi nesta época que se aproximou do governador Roriz, assumindo a Secretaria de Trabalho do governo do Distrito Federal. Acabou se credenciando para a vaga de suplente de Roriz no Senado, quando se filiou ao PTB, já com a pretensão de somar tempo de propaganda eleitoral na televisão para a chapa. No acerto, Roriz prometera a vaga de titular em 2010, quando deixaria o Senado para tentar voltar ao governo. A vida lhe foi mais generosa: Gim ganhou sete anos e meio de mandato e agora planeja disputar com Roriz o governo de Brasília, convencido de que popularidade não lhe falta."Todo mundo quer me cumprimentar e tirar foto comigo. Pareço até artista de novela", regozija-se o senador, ao falar de suas visitas a Taguatinga, onde começou a vida profissional como corretor de imóveis.

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