ESPECIAL-Tucanos ainda engatinham na realização de prévias

Mesmo tendo decidido no ano passadoque realizaria prévias para a escolha de candidatos da legenda,o PSDB ainda engatinha na democratização partidária e sequerfixou as regras para aplicar o sistema. A falta de convicçãocontrasta com o PT, que tornou as prévias uma práticaeleitoral. É possível que o assunto seja colocado à mesa em reunião daExecutiva marcada para terça-feira que vem, mas o partido nãotem certeza. A grande expectativa é que, com a decisão, a sociedadepresencie uma disputa entre os governadores José Serra (SP) eAécio Neves (MG) para a definição do candidato tucano àPresidência da República em 2010, num embate que tem comoreferência os democratas norte-americanos Barack Obama eHillary Clinton. Correndo por fora, o senador Arthur Virgílio (AM) apregoaque também está no páreo e quer concorrer com os dois nomesfortes da legenda. Enquanto Aécio defende a adoção do sistema,Serra não demonstrou entusiasmo ao afirmar que "o que fordecidido para mim está bom". O partido prevê a realização de prévias como parte datentativa de aproximação com as bases e com a sociedade,compromisso assumido pelo senador Sérgio Guerra (PE) ao assumira presidência do PSDB em novembro. O líder do partido na Câmara, deputado José Aníbal (SP),disse que é preciso um "ensaio geral" antes de efetivar amedida. A legenda quer aproveitar a eleição municipal para realizarum teste em uma cidade em que haja disputa entre dois tucanospela candidatura. A escolha da cidade-piloto, no entanto, estádifícil. João Pessoa e depois Campina Grande, ambas na Paraíba,foram apontadas, mas até agora não há uma definição. "Houve esta resolução da direção nacional para o partidotrabalhar a hipótese de prévias. Haverá um ensaio para opartido conhecer melhor o processo, ver quem pode participar",afirmou o deputado à Reuters. Sem dar sinais claros se o sistema será utilizado para adefinição do candidato presidencial, Aníbal diz que o principalitem a ser verificado em um teste é a definição de quaisfiliados estão aptos a votar e a necessidade de criar critérioscomo tempo de filiação, por exemplo. O PSDB afirma ter 1,2milhão de filiados. Aníbal explica que um candidato pode filiar pessoas deúltima hora e distorcer o resultado. Um entusiasta da medida, o senador Álvaro Dias (PR), vaialém e afirma que o partido deve ousar e abrir as prévias aoseleitores em geral, em um percentual pré-fixado. "As prévias energizam o partido, que vai caminhar paraelas. É preciso ganhar mais respeito da população", disse. Nos EUA, onde as regras das primárias são muito complexas,em alguns Estados os não-filiados a partidos políticos,chamados de independentes, também são incluídos nas eleiçõesinternas dos partidos. No PSDB, o sistema pode ser visto como reação à fotografiada cúpula tucana reunida em um restaurante de luxo da capitalpaulista quando se decidiu que o ex-governador Geraldo Alckmine não Serra seria o candidato à Presidência em 2006. O uso das prévias foi aprovado pela Executiva do PSDB emoutubro a partir de uma proposta do senador Tasso Jereissati(CE), então presidente da legenda. Pelo sistema, os candidatosprecisam conquistar o voto dos filiados para depois atrair oeleitor. Vale apenas para cargos majoritários (presidente,governadores, prefeitos e senadores). CREDIBILIDADE Para Fabio Wanderley Reis, cientista político daUniversidade Federal de Minas Gerais, as prévias são uma"expectativa natural" dos eleitores que se identificam com oPSDB. "É uma prova da consistência de um partido. Confirma queexiste um susbtrato real em que acreditar, senão a sigla éreduzida ao momento da eleição", disse o professor. Ele pondera, no entanto, que a disputa interna entre doiscandidatos não pode chegar a níveis exasperados, como ele vê aconcorrência entre Hillary e Obama, o que pode acabardesgastando candidatos e partidos e beneficiando o adversário. Única legenda no país com experiência em eleições internasconstantes, o PT instituiu as prévias na fundação, em 1980. Umadas disputas mais antigas foi entre Luiza Erundina e Plínio deArruda Sampaio em 1988, em que Erundina saiu vitoriosa para aprefeitura de São Paulo. Esta semana, os militantes petistas voltaram às urnas edefiniram a deputada Maria do Rosário como candidata àprefeitura de Porto Alegre em outubro. Miguel Rossetto saiuderrotado. O Rio Grande do Sul, no entanto, foi palco de uma préviadesastrosa para o PT. Em 2002, o então governador Olívio Dutra,que seria candidato natural à reeleição, enfrentou e perdeu aprévia para Tarso Genro, que havia deixado a prefeitura dePorto Alegre e acabou derrotado pelo peemedebista GermanoRigotto. Em um episódio mais bem-sucedido, o agora presidente LuizInácio Lula da Silva venceu a concorrência interna com osenador Eduardo Suplicy em 2002, ano que Lula conquistou seuprimeiro mandato.

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