ESPECIAL-Sirene abre negócios de peixe fresco na madrugada d S

Às 2h toca a sirene anunciando oinício das negociações no Mercado de Pescados da Ceagesp, emSão Paulo. Peixes estão expostos em tablados no chão chamadosde "pedra". Os carregadores começam a tomar conta dos estreitoscorredores transportando as 190 toneladas de peixes frescoscomercializados diariamente no local: salmão do Chile, merluzaargentina, cação uruguaio, atum brasileiro, sardinhas de todaparte. Duas horas mais cedo, os primeiros funcionários já montavamseus módulos com tablados, caixas e balanças, à espera dosclientes, a maioria feirantes, compradores de restaurantes eproprietários de mercados. Ao todo, 85 empresas atacadistasvendem pescados na madrugada, a maioria de origem nacional. Uma hora depois do início das negociações, o chão domercado está praticamente inundado com a água do gelo derretidoe todos, exceto os desavisados, usam galochas brancas acima dacanela. Para quem não está acostumado, o cheiro é forte. No balanço anual de 2006, o mercado registrou a venda de45.810 toneladas de pescados, mais de 3,8 mil toneladas pormês, um acréscimo de 11,9 por cento frente às vendas de 2005,segundo dados da Ceagesp. Ainda assim, o movimento é menor queo registrado em meados da década passada. "De dez anos para cá as vendas vêm caindo. Até 1992, oconsumo vinha crescendo. No auge, a gente vendia 350 toneladasao dia", afirmou Jiro Yamada, 63 anos, presidente da Associaçãodos Comerciantes Atacadistas de Pescados do Estado de São Paulo(Acapesp), culpando os produtos industrializados pela queda nasvendas. O ambiente no mercado é frio e úmido, e quase todos usamjalecos brancos. Os caminhões refrigerados a cerca de 5 grausnegativos que levam os peixes até a praça de venda tornam olocal gelado mesmo na época de calor. A Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais deSão Paulo) foi criada em 1969, mas estima-se que o mercado depescados tenha surgido em 1972, embora não haja uma dataoficial. O PESCADO Os preços dos peixes podem variar durante a semana, deacordo com a demanda, o abastecimento, e até mesmo a qualidade.O quilo do atum oscila entre 10 e 15 reais, por exemplo. "Aqui não tem muito segredo, quem conhece chega e compra,não fica enrolando muito", disse um comprador que não quis seidentificar. "Em geral, o peixe é muito bom." A rede Nakombi, com três restaurantes japoneses em SãoPaulo, compra no mercado por causa do preço e da qualidade. "A gente adquire uma grande quantidade para osrestaurantes, então fica mais fácil a negociação", acrescentouuma representante do Nakombi. Não se pode confundir o mercado com um supermercado. Emboraqualquer um que tenha interesse possa ir lá fazer compras, háque se levar em conta que é um atacado e não dá para levarsomente um "peixinho". Assim, o consumidor tem a opção de umapeça de cação de 20 quilos ou a caixa de sardinha inteira. Os compradores, geralmente acompanhados de um carregador,passam pelos corredores vistoriando a mercadoria, perguntandopreços e anotando tudo numa caderneta. Ao contrário do senso comum de que peixe tem odor forte,Jiro, da Acapesp, explica que "peixe bom não tem cheiro". "O odor ruim vem da limpeza inadequada do local, queacumula água de resíduos, e de alguns peixes começando a ficarruins", explicou. OLHA A FRENTE É preciso prestar muita atenção para não ser atropelado.Carregadores apressados, geralmente autônomos, vagam velozespelos estreitos corredores do mercado. Paulo Saturnino Ferreira, de 55 anos, 15 deles trabalhandocomo carregador autônomo na madrugada, já quebrou o pé direitoquando um colega passou com um carrinho em cima dele. "Tem que tomar cuidado, senão atropela mesmo", disse. Ferreira não reclama da dor nas costas nem do horário detrabalho que enfrenta. O ruim, segundo ele, é o preço que osfeirantes e outros consumidores pagam por seus serviços. "Aqui somos em cerca de 80 carregadores autônomos. Já éduro. E a gente recebe 1 real por caixa de peixe que cabe nocarrinho. Na época boa... chegava a 3 reais", afirmou. Ferreira diz que em cada viagem leva o máximo de 25 caixase que, no mês, consegue tirar cerca de 600 reais, incluindonisso seus serviços em outro mercado da Ceagesp, o de flores. "No de flores a viagem custa 15 reais. Por mim, eu ficavasó no de flores", desabafou. "Mas o de flores funciona só deterça e sexta..." A madrugada de Ferreira e do mercado chega ao fim às 6h,quando já está claro e os tablados com pescados no chão começama ser retirados para dar lugar à equipe de limpeza com seusrodos e vassouras.

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