Escutas confirmam relação entre quadrilha e parlamentares

"Meu amigo" e "meu patrão". Assim o atual quarto-secretário da Câmara dos Deputados, João Caldas (PL-AL), e o empresário e chefe da quadrilha que superfaturava a venda de ambulâncias e veículos para prefeituras se tratam em um dos grampos realizados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal em Cuiabá na Operação Sanguessuga. Caldas, assim como mais de uma dezena de parlamentares, tinha contato direto com empresários integrantes do esquema, que se valia de recursos de emendas orçamentárias para alimentar seus negócios.No caso de Caldas, a intimidade é reveladora, mas a conversa nem tanto. No diálogo, o deputado diz a Darci Vedoin, chefe do esquema, segundo a PF, que está precisando falar com ele pessoalmente. Este foi o trecho grampeado que levou a PF e o MP a incluírem o nome de Caldas na lista de 65 parlamentares enviada ao procurador Antônio Fernando de Souza para eventuais providências ou investigações. Há casos, como o dos deputados Rodrigo Maia (PFL-RJ), Denise Frossard (PSDB-RJ) e Eduardo Paes (PSDB-RJ), em que a passagem pelo grampo não passa de uma citação de emendas que despertam o interesse da quadrilha, não havendo indicativo de envolvimento dos parlamentares.Mas há também diálogos carregados de indícios de envolvimento direto dos parlamentares no esquema de corrupção montado pela quadrilha. É o caso, por exemplo, do deputado paulista Neuton Lima (PTB). Em uma conversa entre o empresário Darci Vedoin e o filho dele Luiz Antônio, este último informa ao pai que mandou "dez" (R$ 10.000, segundo relatório da PF) para o deputado federal. Também há diálogos indicando o pagamento de propina a ao deputado cassado Ronivon Santiago, preso pela PF na operação.O deputado Dr. Heleno (PSC-RJ) surge em outro diálogo entre Darci e o filho - que são sócios da Planam, a empresa que montava as licitações fajutas e superfaturadas. Darci pergunta sobre um depósito. Luiz responde que foi feito e descreve um suposto racha: R$ 19 mil deveriam ser pagos ao deputado Bispo Heleno, R$ 5 mil ao "Marcelo do João Batista" (deputado pelo PP de São Paulo) e R$ 4 mil para "o cara do Heleno".A suposta relação entre o deputado e a quadrilha presa pela PF, conforme as escutas, parece ter surgido a partir da ajuda de Marco Antônio Lopes, lotado no gabinete da deputada Elaine Costa (PTB-RJ) e também preso na Operação Sanguessuga. Como seu assessor, Elaine aparece nos grampos. Ela conversa diretamente com Luiz Antônio. Segundo a PF, cobra carros. Em outra conversa de Luiz com o assessor Marco Antônio, o empresário reclama de uma operação de compra e venda de um carro engendrada no gabinete de Elaine.A certa altura, o empresário diz: "Vai dar uma merda pra essa mulher, cara, cês vão conseguir colocar essa mulher presa." Logo em seguida, repete: "Isso aí vai dar o quê? Que alguma coisa é rolo, cara. Depois vai dar problema pra ela (a deputada) na prestação de contas, vai dar problema pra deputada...". Ele encerra a conversa reclamando do gabinete de Elaine: "A gente trabalha com mais de 60 aí, cê sabe disso; problemas têm, com certeza (...) mas o negócio dela é tudo problemático... Será que o errado somos só nós?"No caso do deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), as conversas apresentam vários indícios. Em primeiro lugar, o de que um funcionário do deputado levou dinheiro do esquema. Em segundo, que Capixaba mantinha contato direto com os empresários e apresentava emendas utilizadas pelo grupo nos negócios com as prefeituras para compra de ambulâncias.Os grampos mostram ainda o nervosismo crescente do deputado com o avanço das investigações e o vazamento, na imprensa, de denúncias de seu envolvimento em irregularidades na compra de ambulâncias por prefeituras de Rondônia. Há alguns nomes conhecidos no grupo daqueles que mantinham em seus gabinetes contato direto com os empresários. Por exemplo, a deputada Laura Carneiro, que teve um assessor pego no grampo conversando sobre emendas.

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