Escuta sobre esquema de Campinas cita tucanos

Interlocutor de empresário sugere que Edson Aparecido, Reis Lobo e Trípoli estariam ‘intercedendo’ nos negócios de suposto líder do grupo

Diego Zanchetta e Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2011 | 23h00

Políticos tucanos são citados em interceptações telefônicas feitas na investigação sobre suposto esquema de fraudes em Campinas (SP) envolvendo nomes próximos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O monitoramento, por agentes do Gaeco, braço do Ministério Público que combate o crime organizado e a corrupção, flagrou diálogos do empresário Luiz Arnaldo Mayer com interlocutores sobre contratos de interesse da organização criminosa.

 

No dia 11 de abril, às 9h27, Mayer fala com "homem não identificado", segundo a promotoria. Esse interlocutor sugere que Edson Aparecido, secretário de Estado de Desenvolvimento Metropolitano, José Henrique Reis Lobo, ex-presidente do Diretório Municipal do PSDB em São Paulo, e o deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP) estariam "intercedendo" nos negócios de outro empresário, José Carlos Cepera, apontado como líder do grupo que teria desviado R$ 615 milhões do Tesouro.

 

O Ministério Público não investiga os tucanos. Mas registrou a menção aos nomes na página 266 do relatório de inteligência que deu base para a Justiça decretar a prisão temporária de 20 suspeitos, entre eles Mayer e Cepera. Os políticos negam categoricamente relacionamento com os empresários. Eles se declararam indignados.

 

Uma sequência de dez grampos mostra os movimentos de Mayer, preocupado com os rumos de negócios relativos à Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). Mayer, que caiu na malha de grampos do Gaeco, é sócio-diretor majoritário da Saenge Engenharia de Saneamento e Edificações Ltda, com participação de R$ 17,5 milhões. A Saenge tem contratos com a Sabesp.

 

O teor dos diálogos indica que o empresário teria o compadrio de um deputado para transitar por gabinetes da Assembleia e do Palácio dos Bandeirantes. "Alvo (Mayer) conversa com possivelmente um vereador sobre um ‘desastre que teria ocorrido na Câmara’. Interlocutor disse que não teria sido realizada votação de interesse do alvo em razão da ação do presidente, o qual teria impedido as votações em virtude de ‘discussão de secretarias’."

A mesma escuta: "Alvo pergunta quem estava intercedendo nos negócios do Cepera, ao que foi respondido que Edson Aparecido, Trípoli e o próprio Lobo".

 

Medição gorda. Três dias antes, Mayer conversou com pessoa identificada como Sônia, que seria da Sabesp Leopoldina. Ela solicita a Mayer documentos referentes a utilização de imóvel pela empresa Saenge em contrato com a Sabesp. Mayer diz que os documentos foram entregues a um deputado "para resolver esse assunto".

Em 15 de abril, o empresário conversa com Gil. "Mencionam fechamento de uma medição ‘gorda’." Mayer diz que teria "uma reunião com o deputado às 10 horas no Palácio".

 

"O conteúdo dos diálogos deixa muito evidente que as questões referentes às suas (de Mayer) contratações públicas estão intimamente ligadas a contatos e relacionamentos políticos", destaca o relatório. "Os indicativos de fraudes e corrupção são claros, necessário destacar que não é a primeira vez, no presente relatório, onde há menção de irregularidades em contratos da Sabesp."

 

Medição gorda. Três dias antes, Mayer conversou com pessoa identificada como Sônia, que seria da Sabesp Leopoldina. "Sônia se identifica como pessoa que trabalha com Barbosa e solicita ao alvo (Mayer) remessa de documentos referentes a utilização de imóvel pela empresa Saenge em contrato firmado com a Sabesp. Alvo responde que os documentos foram entregues a um deputado para resolver esse assunto."

 

Em 15 de abril, o empresário conversa com Gil. "Mencionam fechamento de uma medição ‘gorda’ e que não poderão se encontrar no escritório pois Mayer teria uma reunião com o deputado às 10 horas no Palácio."

 

"O conteúdo dos diálogos deixa muito evidente que as questões referentes às suas (de Mayer) contratações públicas estão intimamente ligadas a contatos e relacionamentos políticos", destaca o relatório. "Os indicativos de fraudes e corrupção são claros, sendo necessário destacar que não é a primeira vez, no presente relatório, onde há menção de irregularidades em contratos públicos da Sabesp."

 

Indignação tucana. Os tucanos citados na escuta telefônica do Ministério Público Estadual reagiram com indignação ao saberem que seus nomes constam de relatório de inteligência sobre o escândalo em Campinas. Edson Aparecido, secretário de Estado de Desenvolvimento Metropolitano, José Henrique Reis Lobo, ex-presidente do diretório municipal do PSDB em São Paulo, e o deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP) se mostraram indignados. Eles afirmaram que não conhecem os empresários José Carlos Cepera e Luiz Arnaldo Mayer, apontados pela promotoria como líderes de organização criminosa para fraudes em licitações.

 

"Jamais ouvi falar de Cepera ou desse Mayer, nomes completamente desconhecidos para mim", desabafou Lobo. Ele se declarou surpreso com a citação no relatório. "Como eu disse, nunca conheci essas pessoas."

 

Edson Aparecido classificou como "absurda" a menção a seu nome no documento que a promotoria encaminhou à Justiça. A assessoria de imprensa do secretário informou que ele não conhece e nunca manteve nenhum contato com a Saenge Engenharia de Saneamento e Edificações Ltda. ou com os empresários Mayer e Cepera.

 

Há cinco anos fora da Assembleia de São Paulo, Trípoli mostrou indignação com a inclusão de seu nome no relatório. Afirmou que desconhece a empresa Saenge e os empresários Luiz Mayer e Cepera. "Nunca fiz nenhuma intermediação com a Sabesp muito menos com pessoas que desconheço", retrucou o parlamentar por meio de sua assessoria.

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