Escolhas na economia mostram que jogo será de 'vai ou racha'

ANÁLISE: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h02

Esqueçam o que dizia a candidata Dilma, quando lia, no teleprompter dos filmes de sua campanha eleitoral, as mensagens elaboradas por seu marqueteiro. A presidente reeleita tem diante de si um quadro econômico que não lhe dá alternativa: ou inicia já um ajuste crível das contas públicas ou o País, além de não recuperar a confiança interna, perderá o "grau de investimento" das agências de classificação de risco em meados de 2015. Isso ocorreria numa hora bem ruim - aquela em que os juros devem começar a subir nos Estados Unidos, levando os capitais globais a serem sugados pelo potente aspirador do mercado americano.

Nesse cenário, hesitações ou ambiguidades na direção de um ajuste fiscal aumentariam, exponencialmente, o risco de uma crise cambial no Brasil. Quem conhece o significado e a possível extensão de uma crise cambial pode entender a "coerência" da escolha da nova equipe econômica.

O que começa a ser jogado é, num resumo simples e sem firulas, um jogo de "vai ou racha". Do êxito desse jogo, do qual faz parte a abdicação de Dilma da função de ministra econômica, é bom não esquecer, também depende a sustentação dos avanços sociais alcançados nas duas últimas décadas.

O economista Joaquim Levy, opção comprada por Dilma para executar esse serviço de tudo ou nada diretamente à frente do Ministério da Fazenda, é um especialista no ramo, que estava banqueiro no Bradesco, administrando recursos de terceiros no banco, mas é, por natureza, um servidor público, com experiência na administração de contas públicas. Um burocrata, no sentido estrito da palavra, que serviu no governo tucano de FHC, no petista de Lula e no peemedebista de Sérgio Cabral.

Identificado com as correntes liberais de pensamento econômico, Levy é um fiscalista que terá um duplo no novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, secretário executivo da Fazenda até o ano passado. Ele pode ser classificado como um desenvolvimentista moderado, que aprendeu, no governo, a valorizar a manutenção do controle sobre as contas públicas. Enquanto Levy focará no Tesouro, Barbosa deverá se concentrar no Orçamento e no que for possível avançar na reforma tributária.

Não se deve esperar, em princípio, choques entre os dois novos ministros, como os registrados entre Pedro Malan e José Serra, no primeiro mandato de FHC. Levy e Barbosa são igualmente conscientes de que o desarranjo fiscal existente é a herança maldita que Dilma deixou para ela mesma.

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