Escola aberta no fim de semana reduz violência

Escolas públicas que abrem seus portões à comunidade nos fins de semana estão vencendo a violência e o vandalismo e seus alunos estão aprendendo muito mais, segundo pesquisa que a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) divulgará no fim do mês.Em 260 estabelecimentos estaduais e municipais do Rio de Janeiro e Pernambuco que passaram, nos últimos dois anos, a oferecer atividades esportivas e culturais para os alunos e famílias da vizinhança, o índice de aprendizagem melhorou 77,8%, o número de gangues caiu 14,8% e os casos de vandalismo foram reduzidos em 63%, assim como houve queda generalizada de casos de furto (-48%), roubo (-33%), tráfico de drogas (-10,5%), uso de drogas e álcool (-7,4%).Falta de opção de lazerOs números reforçam a tese de que a falta de opções de lazer e cultura é uma das grandes causas de tensão para jovens moradores de periferias e demonstram que estes jovens respondem positivamente, de forma rápida, quando encontram na escola o espaço adequado - que falta no bairro - para usar seu tempo livre em atividades dirigidas com amigos, parentes e vizinhos.?Constatamos, empiricamente, que uma política preventiva como essa, de baixo custo, é melhor do que qualquer política repressiva contra a violência nas escolas?, disse ao Estado o representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein. Manter uma escola aberta no sábado e no domingo custa, segundo Werthein, apenas mais R$ 1,00 por aluno ao mês, incluindo o pagamento de horas adicionais a professores e diretores. ?É um pequeno investimento, que tem retorno alto e gera uma poupança significativa?, calcula ele.GanhosOs ganhos não estão somente no melhor rendimento dos alunos durante a semana, mas também no caixa das escolas e do governo, que deixam de gastar com repetentes - liberando as vagas para novos alunos -, com consertos e reformas de instalações danificadas pelo vandalismo e com sistemas de segurança.Nas escolas analisadas - 160 no Rio de Janeiro e 100 em Pernambuco - houve também uma melhoria geral nas relações entre alunos e professores. Os casos de indisciplina caíram 74%, assim como as brigas entre estudantes (-70%) e as ofensas pessoais (-33%). Mas há um dado crucial na pesquisa: o aumento de 80,8% na participação dos pais na vida escolar de seus filhos. Este é considerado um fator determinante para a melhoria em todos os outros indicadores, e o dado confirma a importância da aproximação entre escolas e famílias para uma ação educativa em conjunto.Cada escola, naturalmente, deve levar em conta as características de sua comunidade e nenhuma pode prescindir da segurança preventiva, mas na maioria daqueles estabelecimentos a polícia age menos pela força repressiva e mais pela presença institucional que se espera em qualquer espaço público. ResistênciaSe esta receita de sucesso contra a violência escolar é tão simples, por que não foi aplicada em larga escala há muito tempo? Segundo Werthein, o obstáculo maior é a resistência de autoridades e dirigentes de ensino a qualquer mudança. A tradição reza que a escola entre em recesso nos fins de semana e que seu patrimônio seja ?protegido? de ladrões e vândalos. E não tem sido fácil mudar esses costumes.Os estabelecimentos analisados na pesquisa começaram a se abrir à comunidade quando passaram a integrar um programa da própria Unesco, o Escolas da Paz, cujas diretrizes surgiram após seis anos de estudos sobre violência escolar no Brasil e em outros países.ProgramaO programa foi formulado justamente para servir de base a futuras políticas governamentais voltadas para os jovens, principalmente na faixa dos 15 aos 24 anos, onde se concentra o maior número de mortes violentas no País - 44,4% dos jovens mortos nas capitais em 2000 foram vítimas de homicídio. Algumas escolas de Bahia, Tocantins, Alagoas, Mato Grosso e Rio Grande do Norte também estão entrando no programa, mas as resistências a essa mudança aparecem até em escolas onde os educadores são classificados como esclarecidos. A Unesco espera que a pesquisa sirva, agora, de chave para abrir mais portões.

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