Evaristo Sa/AFP
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Ernesto Araújo tentou usar o Senado para se manter no cargo, diz Kátia Abreu

Para a senadora, chanceler ressuscitou uma discussão que já estava vencida sobre 5G: ‘(Ele) já deveria ter sido avisado de sua demissão e quis simular uma saída honrosa para seu grupo extremista’, afirma

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 17h43

BRASÍLIA – O chanceler Ernesto Araújo usou o Senado para tentar evitar sua demissão ao ressuscitar uma discussão que já estava vencida no governo sobre o aval à participação de fornecedores chineses pelas teles no leilão do 5G. A afirmação é da senadora Kátia Abreu (PP-TO), que foi atacada pelo ministro demissionário em suas redes sociais no domingo, 28.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu se reuniu com Ernesto Araújo no dia 4 de março, segundo postagem do ministro em sua conta no Twitter. Mas no dia desse encontro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já havia aprovado o edital do leilão do 5G sete dias antes, em 25 de fevereiro, sem qualquer veto à participação de empresas chinesas nas futuras redes comerciais do 5G.

“Ernesto Araújo sabia que a tese de veto à China, que ele defendia, já estava vencida, que o presidente Jair Bolsonaro já havia formado convicção sobre o assunto, mas mesmo assim usou o assunto para se proteger covardemente. Esse é o nível de desonestidade dele”, afirmou, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

O leilão do 5G está previsto para agosto, e o edital já está sob análise do Tribunal de Contas da União (TCU) para validação dos valores do uso da faixa e dos investimentos que serão feitos como contrapartida. Não houve qualquer veto à participação da chinesa Huawei, líder mundial na tecnologia, como fornecedora de equipamentos para as teles nas redes comerciais, que vão atender consumidores e empresas. Qualquer limitação à empresa demandaria a edição de um decreto presidencial.

Mas o governo exigiu também que as teles construam uma rede exclusiva para uso do setor público, com critérios que impeçam a participação da Huawei. Essa portaria, editada pelo Ministério das Comunicações em 29 de janeiro, foi interpretada como um aceno às alas militar, que manifestou preocupações com a segurança das informações, e ideológica, que tem na China um de seus principais alvos.

A portaria foi entendida como um gesto também à Huawei, já que o ministro das Comunicações, Fábio Faria, visitou as instalações da companhia na China em fevereiro, duas semanas antes da aprovação do edital pela Anatel. Ainda assim, e embora o edital já esteja aprovado sem veto à China, o governo ainda pode, se desejar, editar um decreto banindo a empresa do País a qualquer momento. Essa hipótese, por enquanto, é considerada remota.

“No dia 4 de março, Ernesto já sabia que a tese (pelo veto à China) estava vencida e que haveria separação entre as redes comercial e do governo no 5G. Mas, para justificar sua demissão por incompetência, resolveu usar o Senado, através de mim, para esconder os verdadeiros motivos de sua saída, que são a incompetência diplomática interna e externa, algo imperdoável para um ministro de Relações Exteriores”, afirmou.

Para a senadora, atacar instituições democráticas é um hábito de “ex-ministros no cargo”, citando como exemplo os ex-ministros Abraham Weintraub (Educação) e Eduardo Pazuello (Saúde). Enquanto Weintraub saiu após chamar os ministros do Supremo Tribunal Federal de “vagabundos” em uma reunião, Pazuello insinuou, na posse de Marcelo Queiroga, que os parlamentares queriam desviar recursos direcionados para a covid-19, o que chamou de “pixulé”.

A senadora destacou ainda que Araújo escolheu a senadora como alvo por ser uma mulher, mas a reação dos colegas demonstrou que o Senado, como instituição, é que se sentiu agredido. “Isso faz parte do ideário extremista e conservador. O que posso dizer é que, para o Senado, não foi uma mulher, mas um senador da República que foi atacado após uma visita de boa-fé e espírito público”, afirmou.

“Ernesto já deveria ter sido avisado de sua demissão e quis simular uma saída honrosa para seu grupo extremista. Tenho mais de 20 anos de vida pública e não há um processo aberto ou condenação contra mim por corrupção ou práticas não republicanas”, disse.

Para a senadora, a atuação de Ernesto Araújo foi desastrosa para a diplomacia brasileira. Além de ter trabalhado para tentar convencer Bolsonaro a vetar fornecedores chineses do 5G no País, Ernesto Araújo levantou dúvidas sobre a eficácia das vacinas e insumos produzidos na China, que são base da Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, recusou-se a reconhecer prontamente a vitória de Joe Biden nas eleições norte-americanas por semanas e minimizou a violenta invasão do Capitólio por apoiadores de Donald Trump, a quem chamou de “cidadãos de bem”.

“Já se passaram dois meses da posse de Biden e não houve contato por telefone com Bolsonaro. Que chanceler não consegue promover o encontro de duas nações tão importantes?”, questionou Kátia Abreu.

A senadora lembrou ainda que Araújo se recusou a defender a posição da Índia e de um grupo de países emergentes pela quebra de patentes de imunizantes contra a covid-19 – embora o País também dependa da Índia para cumprir o Programa Nacional de Imunização (PNI). Além disso, ela destacou que ele atuou contra a adesão do Brasil ao consórcio global Covax Facility, que distribui vacinas a diversos países do mundo, apenas pelo fato de a coalizão ser liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – uma das instituições multilaterais criticadas pelo ministro.

“Se não ajuda, ainda vai atrapalhar? Só nos deu prejuízo”, afirmou a senadora. “Quem tem amigo não morre pagão”, acrescentou, citando um ditado popular a respeito da importância de se manter boas relações e evitar criar inimigos.

Sobre o substituto de Araújo, ainda não anunciado, a senadora disse esperar um “chanceler verdadeiro”, seja ou não do Itamaraty. “Precisa ter estofo, experiência, credibilidade e estatura para dialogar. Somos 215 milhões de brasileiros. Torço para que seja uma pessoa que represente a todos e que recuperemos a interlocução com o mundo.”

Kátia Abreu reiterou que considera Ernesto Araújo um “marginal”. “Ele atuou à margem da democracia, da ética e da seriedade. Sua permanência era um desfavor para a democracia.”

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