Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Ernesto Araújo pede demissão após pressão do Congresso e críticas por atuação na pandemia

Ministro passou pouco mais de 800 dias à frente do Itamaraty e vinha sendo contestado dentro e fora do governo; ele entregou o cargo em reunião com Bolsonaro no Palácio do Planalto

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 12h26
Atualizado 29 de março de 2021 | 14h54

BRASÍLIA – O embaixador Ernesto Araújo se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira, 29, e entregou seu cargo. A informação foi repassada ao Estadão por pessoas que acompanham a discussão sobre a saída do chanceler. Ernesto passou pouco mais de 800 dias à frente do Itamaraty e vinha sendo contestado dentro e fora do governo. Na visão de parlamentares, especialistas e empresários, a atuação do chanceler na pasta, considerada ideológica, prejudicou o País na obtenção de insumos e vacinas para combater a covid-19.

Ernesto cancelou compromissos nesta segunda-feira com autoridades estrangeiras para discutir seu futuro. E foi chamado de última hora por Bolsonaro no Palácio do Planalto. Na reunião, segundo aliados, o ministro disse ao presidente estar disposto a deixar o cargo para não ser mais um problema para o governo na relação com o Congresso. Auxiliares diretos do ministro consideram que a situação é “irreversível”. Uma nova reunião está prevista para o fim da tarde.

Apesar de Ernesto colocar o cargo à disposição, Bolsonaro ainda não escolheu o substituto. O nome mais forte no Palácio do Planalto é o do almirante Flávio Rocha, atual secretário de Comunicação Social e da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Rocha, que tem o apoio do ministro das Comunicações, Fabio Faria, é considerado habilidoso, já cumpriu missões em nome de Bolsonaro na Argentina e na China em momentos delicados na relação com esses países e fala cinco idiomas. É atribuída ao militar todo o recuo que o presidente faz quando radicaliza o discurso.

No Itamaraty e na Marinha, contudo, há resistências porque sua nomeação colocaria um almirante da ativa na linha de frente do governo. A situação seria semelhante a de Eduardo Pazuello, que assumiu o Ministério da Saúde como general da ativa e, nesta condição, não teve condições de contrariar o presidente em momentos importantes da pandemia.

No período da ditadura (1964-1985), seis nomes passaram pelo Itamaraty, mas apenas um deles foi militar. O general Juracy Magalhães ocupou o cargo de janeiro de 1966 a março de 1967. É dele a célebre frase: “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

Ele também tinha uma carreira político e já havia sido antes governador da Bahia.

Uma ala do Palácio Planalto, porém, defende um político para o cargo, de preferência um senador, a exemplo do que ocorreu no governo de Michel Temer. Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e José Serra (PSDB-SP) comandaram a pasta de Relações Exteriores.

Uma terceira opção é promover alguém da carreira diplomática. O nome cogitado é o do embaixador do Brasil na França, Luiz Fernando Serra. O diplomata, porém, indicou a colegas que não gostaria de deixar Paris neste momento para voltar ao País.

Pressão após briga com Kátia Abreu 

A pressão sobre Ernesto aumentou neste domingo, depois que o ministro acusou a senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO) de fazer lobby de chineses durante almoço no Itamaraty. Com o gesto, ele forçou novo embate entre o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. Presidente da Comissão de Relações Exteriores, a senadora disse apenas ter defendido que não haja discriminação à China no leilão da tecnologia 5G, que vem sendo discutido no governo, e chamou o ministro de “marginal”. Ela recebeu apoio expressivo de congressistas que já cobravam a demissão de Ernesto.

A tese dos interesses chineses por trás da queda de Ernesto, e não por sua atuação na pasta, já vinha sendo apontada nos bastidores por aliados do ministro no governo e por militantes conservadores nas redes sociais.

A declaração do ministro, no Twitter, foi interpretada como gesto “suicida” por diplomatas, e uma forma de construir uma versão para justificar sua saída do cargo. Parlamentares e diplomatas avaliam que o ministro teve apoio do clã Bolsonaro nessa contra ofensiva. Ele tem apoio público do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho do presidente que mais interfere na política externa.  

No ano passado, Ernesto se envolveu em polêmicas com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Em novembro, o chanceler defendeu Eduardo Bolsonaro, que havia associado o governo chinês à “espionagem” por meio da tecnologia 5G. O presidente Jair Bolsonaro elogiou o ministro pela iniciativa. O chanceler também já se referiu à covid-19 como “comunavírus”, o que incomodou os chineses.

A relação do chanceler com representantes do país asiático foi abalada ao ponto de Ernesto ficar fora de negociações para destravar a importação de vacinas para o Brasil, no início do ano. Na ocasião, a interlocução com os chineses ficou a cargo dos ministros Fábio Faria (Comunicações), Teresa Cristina (Agricultura) e Eduardo Pazuello (Saúde). Este último demitido na semana passada.

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