Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Ernesto Araújo diz que 1964 não foi golpe

'Considero que foi um movimento necessário para que o País realmente não virasse uma ditadura', disse o chanceler

Renato Onofre, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 13h10

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou nesta quarta-feira na Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara dos Deputados que a intervenção militar de 1964 não foi um golpe. Durante a audiência, o ministro afirmou que a defesa da democracia é fundamental, mas se negou a responder se o País viveu um ditadura militar entre 1964 e 1985. 

"Não considero (a intervenção militar) um golpe. Considero que foi um movimento necessário para que o País realmente não virasse uma ditadura. Não tenho a menor dúvida em relação a isso", defendeu.

Questionado pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) se o período em que os militares estiveram no poder poderia ser considerado uma ditadura, o ministro não respondeu. 

O Estado mostrou no domingo que o presidente Jair Bolsonaro orientou os quartéis a comemorarem a “data histórica” do aniversário do dia 31 de março de 1964, quando um golpe militar derrubou o governo João Goulart e iniciou um regime ditatorial que durou 21 anos. Generais da reserva que integram o primeiro escalão do Executivo, porém, pediram cautela. 

Em um governo que reúne o maior número de militares na Esplanada dos Ministérios desde o período da ditadura (1964-1985) – o que já gerou insatisfação de parlamentares –, a comemoração da data deixou de ser uma agenda “proibida”. Ainda que sem um decreto ou portaria para formalizá-la, a efeméride volta ao calendário de comemorações das Forças Armadas após oito anos. Veja onde estão os oficiais das Forças Armadas no governo no "mapa dos militares".

A determinação do presidente Jair Bolsonaro gerou repúdio de órgãos ligados à defesa dos direitos do cidadão e medidas para barrar os eventos na Justiça. Nesta terça, a Defensoria Pública da União anunciou que ajuizará ação civil pública para impedir que o 31 de Março, data de início do movimento golpista, seja comemorado nas unidades militares.

'Me iludi', disse Ernesto Araujo sobre defesa do governo Lula feita em 2008

Ernesto Araújo diz ter se "iludido" sobre a defesa pública que fez de governos petistas durante a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso e condenado na Lava Jato. "Realmente, durante algum tempo eu acreditei que nos governo do PT, sobretudo o governo Lula, Brasil tinha encontrado um conjunto de políticas adequado. Mas nesse momento - eu pelo menos não sabia - dos escândalos de corrupção, o quanto isso era insustentável. Erro de avaliação meu, que não sou economista, mas não percebia o quanto a projeção econômica brasileira estava baseada no chamado boom das commodities", afirmou ao deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que o questionou sobre as suas declarações. 

Em 2018, quando o diplomata, Ernesto Araújo publicou uma tese de 352 páginas na qual defendeu a estratégia de relações exteriores que o PT  implementando no governo Lula. O documento de 2008, chamado “Mercosul: Negociações Extra-Regionais”, foi apresentado por Araújo ao Centro de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty. 

As ideias defendidas pelo então presidente Lula  e pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim foi caracterizada pela abertura de novas frentes de relação política e de negócios com países em desenvolvimento, ou do eixo sul-sul, como eram chamados os países africanos e sul-americanos, além das potências médias como a Índia, ou de antagonistas dos EUA, como Rússia e China. 

Durante a audiência, ele disse que errou na avaliação: 

"Não percebia. Falha minha. Acreditava na propaganda do governo", afirmou o chanceler, completando: "Me iludi. Achava realmente que havia certas realizações eram sustentáveis".

O chanceler afirmou que a "exportação" de corrupção do País nas últimas décadas a países da América Latina como um fator de preocupação dos vizinhos. 

A vinda do chanceler a comissão lotou o plenário 2. Entre os presentes, embaixadores da Espanha, Luxemburgo e Uruguai, e o assessor especial da Presidência Felipe G. Martins, que permaneceu sentado atrás da cadeira do presidente da comissão, Eduardo Bolsonaro, ao celular. Sua atenção só era desviada em alguns momentos para sorrir em tom de ironia a perguntas da oposição.

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