Erenice admite reunião com empresário que fez denúncia

A ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra recuou na versão que vinha sustentando há mais de um mês e confirmou à Polícia Federal, em depoimento prestado hoje, que se reuniu com o consultor Rubnei Quícoli, representante da empresa EDRB, que negociava um contrato bilionário com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para construção de um projeto de energia solar no Nordeste.

VANNILDO MENDES, Agência Estado

25 de outubro de 2010 | 18h10

O contrato era orçado em R$ 9 bilhões e a EDRB teria de pagar ao lobby comandado por filhos da ministra cinco parcela de R$ 40 mil mensais, mais uma comissão de R$ 5 milhões e uma taxa de sucesso, que poderia chegar a 5% do valor do empreendimento. O empresário denunciou que os filhos e assessores da ministra, com o conhecimento dela, o pressionaram a pagar comissão para intermediar o negócio, que acabou não se concretizando.

Ela disse à polícia que participou apenas da primeira parte da reunião com os representantes da EDRB, retirando-se em seguida. Disse também que o encontro foi para tratar de "assuntos técnicos do projeto", que lhe pareceu muito importante para o País. Mas alegou desconhecer qualquer negociação com o BNDES intermediada por sua pasta. A informação da ex-ministra contradiz nota oficial emitida pela Casa Civil há um mês, segundo a qual a reunião a que Quícoli se referiu foi feita pelo assessor Vinícius Castro e que a ministra não participara dela.

Acusada de favorecer negócios de familiares com o governo, Erenice depôs por cerca de quatro horas perante o delegado Roberval Vicalvi, encarregado do inquérito que apura denúncias de tráfico de influência na sua gestão na Casa Civil. Ela respondeu a 100 perguntas e, segundo a PF, negou todas as acusações e colocou todos os seus sigilos - bancário, fiscal e telemático - à disposição da polícia e da Justiça.

Erenice saiu da PF sem ser indiciada. Segundo seus advogados, ela também confirmou que se encontrou duas vezes com o empresário Fábio Baracat, representante da empresa de transportes aéreos MTA, que usou os serviços da empresa de consultoria Capital, comandada pelos filhos da ex-ministra, para ampliar seus negócios nos Correios.

Erenice, segundo os advogados que acompanharam no depoimento, negou que tivesse conhecimento das intermediações de contratos da empresa de consultoria Capital, comandada pelos filhos Israel e Saulo Guerra, com empresas estatais. Num desses contratos, denunciado pelo empresário Fábio Baracat, já ouvido pela PF, Israel negociou pagamentos mensais de R$ 25 mil e uma taxa de sucesso de R$ 5 milhões, para ajudar a empresa de transportes aéreos MTA a ampliar seus negócios com os Correios.

Segundo o advogado Sebastião Tojal, "foi uma defesa serena e fácil porque as acusações eram inconsistentes". Isso porque, segundo ele, nenhum dos denunciantes a acusa diretamente de envolvimento com o tráfico de influência. "O Quícoli, por exemplo, diz que acredita, mas não afirma, que ela soubesse do lobby dos filhos", explicou.

Mas, conforme os advogados, ela evitou colocar a mão no fogo pelos filhos, assessores e outros familiares envolvidos nas acusações. "Ela respondeu tudo que lhe diz respeito, mas não falou sobre pontos que desconhece", afirmou. "O que ela garante, categoricamente, é que jamais autorizou que usassem o nome dela".

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