''Era incapaz de qualquer atitude hipócrita''

Após estudar na Europa, Julio de Mesquita Filho não se conformava com o atraso político do País, segundo o filho

, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 00h00

Quando Ruy Mesquita, diretor de opinião do Estado, nasceu, em 1925, seu pai, Julio de Mesquita Filho, o Doutor Julinho, já andava mergulhado na política e no jornalismo. Sua infância foi marcada por histórias de exílios, prisões, pressões políticas. Em meados da década de 40, ele começou a trabalhar na Redação do Estado, na terceira geração de jornalistas da família. Trabalhou ao lado do pai, até a morte dele, 40 anos atrás. Na semana passada, em entrevista ao repórter Roldão Arruda, ele falou sobre o pensamento político de Julio de Mesquita Filho, sua visão do jornalismo, a criação da USP. A seguir, os principais trechos da conversa.JORNALISMOO jornalismo para o meu pai só fazia sentido na direção da militância política, no melhor sentido da palavra. O jornal deveria funcionar como instrumento de aperfeiçoamento das instituições democráticas brasileiras, pelas quais ele não dava um tostão, após ter sido vítima da sua fragilidade e de ter enfrentado o exílio em duas ocasiões, a mando de Getúlio Vargas. Acreditava que, bem orientada, a imprensa serviria para o aperfeiçoamento das instituições democráticas. E é isso, aliás, o que ela faz hoje, embora com um estilo muito diferente do que ele usava na época.PROFÉTICOQuando criou a USP, ele pensava exclusivamente na formação de uma elite, no melhor sentido da palavra, capaz de administrar uma democracia digna desse nome. Constituída dentro dos padrões europeus, a USP seria o principal instrumento de institucionalização de uma sociedade que considerava culturalmente primária e em constante retrocesso político... Hoje, olhando para trás, vejo que foi profético. A história do Brasil contemporâneo se divide em dois períodos, antes e depois da USP. O País mudou radicalmente a partir da fundação da universidade e das consequências que ela teve.ESTABILIDADEHoje parece óbvio e todo mundo fala sobre a importância fundamental da educação na formação de um país democrático. O meu pai já dizia isso nos anos 20, quando começou a pensar o Brasil. Sem uma boa universidade jamais poderíamos ter aspirações de uma estabilidade democrática. Essa estabilidade demorou muito, tivemos que passar por duas ditaduras, mas acabou chegando.UM ESTRANHOFoi benéfica e decisiva para meu pai a sua formação europeia. Como era um garoto muito rebelde, meu avô o exilou logo cedo em um colégio interno de Portugal, onde fez o curso primário. De lá seguiu para a Suíça. Frequentou o Colégio Lá Chateleine. A Suíça era, na época, o lugar mais civilizado do mundo, em termos de educação secundária, e com uma democracia das mais estáveis. Quando voltou, era um estranho num país que considerava politicamente selvagem.TRANSPARENTEFaltava a ele uma mínima dose daquilo que considero absolutamente necessário para se viver em sociedade, que é a hipocrisia. Era incapaz de qualquer atitude hipócrita. Falava o que pensava, não se arrependia depois.ROBERT MCNAMARALendo as notícias sobre a morte do McNamara, lembrei da vez em que ele visitou o jornal, como secretário da Defesa dos Estados Unidos. Meu pai, que falava a língua francesa melhor que os franceses, mas não falava nada de inglês, me chamou para ser o intérprete da conversa. Me fez traduzir críticas pesadas à política americana no Vietnã e à política externa daquele país.REACIONÁRIO?Nos anos 60, quando o Sartre e a Simone de Beauvoir foram passar um fim de semana na fazenda em Louveira, levados pelo Jorge Amado, meu pai expôs a eles suas ideias sobre o futuro da Guerra Fria, que estava no auge. Disse que o mundo comunista seria fragorosamente derrotado pelo mundo democrático, sob a liderança dos Estados Unidos. O Sartre comentou depois que nunca tinha visto um homem tão reacionário. A história, no entanto, acabou confirmando tudo que meu pai disse. Sartre, que não conseguia enxergar além da superfície dos fatos, é que era conservador.INVENTÁRIOHoje se confunde grande jornalista com grande empresário. Meu pai, no entanto, não tinha nenhuma noção do que era ser empresário. Nunca pensou em ganhar dinheiro, nunca fez negócios fora da área do jornal (onde quem cuidava de fato dos negócios era o irmão dele, Francisco). Guardo até hoje, como um troféu, o inventário do meu pai, do qual constam as ações do Estado, o apartamento em que morava com minha mãe, a nona parte da fazenda de Louveira (que meu avô havia deixado para os filhos) e ponto final. MORTEEle morreu de traumatismo moral. Quando viu, em 1968, o que aconteceu com a revolução que ajudou a fazer, escreveu aquele editorial, Instituições em Frangalhos, que levou à apreensão do jornal, e depois nunca mais voltou a escrever... Era um homem extremamente emotivo e nunca se conformou com os rumos do golpe de março de 1964CONSPIRAÇÃOParticipei, ao lado do meu pai, da conspiração dos militares, em 1964, e conheço bem a história. Foi uma conspiração contra um processo de subversão da hierarquia militar, promovido deliberadamente pelo João Goulart... O presidente criou uma situação que a oficialidade média, que comanda a tropa, se sentiu inteiramente insegura e passou a conspirar para se defender... Se não fosse o erro do Jango no plano militar, não teria acontecido o que aconteceu.BRASILPara ele, acima de tudo estava o Brasil. Depois vinha o jornal, a família.

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