Ricardo Botelho/Estadão
Evento discutiu o caminho da democracia em um mundo cada vez mais conectado Ricardo Botelho/Estadão

Era conectada traz novos desafios à democracia

Debate promovido pela RAPS e O Estado de S. Paulo, no auditório do Interlegis, no Senado, quarta (4), reúne especialistas para jogar luz no aprimoramento das instituições

Fabiano Alcântara, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Como a sociedade tecnológica pode desenvolver a formação de um ambiente favorável para o aprimoramento da democracia? Para os debatedores do seminário Desafios da Democracia no Brasil: inovação, participação e representação num mundo hiperconectado, isso pode ser feito com informação de qualidade, espírito cívico, incentivo à diversidade e abertura para o diálogo. O debate promovido pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) e pelo Estado ocorreu na última quarta-feira, no auditório do Interlegis, no Senado Federal.

Ainda que seja preciso ressaltar que um terço dos brasileiros não utilizam a internet, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2016, o acesso de mais pessoas às redes amplia vozes, elimina distâncias e facilita o contraditório.

Com mediação de Eliane Cantanhêde, colunista do Estado, a diretora-executiva da RAPS, Monica Sodré, abriu as discussões falando sobre a importância da diversidade e da convergência de atores do jogo democrático que podem divergir, mas estão imbuídos de uma ‘amizade cívica’.

O deputado Tadeu Alencar (PSB-PE) citou a RAPS como exemplo de aprimoramento da democracia. “É uma instituição que fico feliz de fazer parte. Porque tem essa característica de permitir diálogos para além dos pensamentos dos partidos, de muita gente que diverge. Mas é um espaço onde a gente diverge com muito respeito, com muito espírito público, e com uma pauta central, medular, que é de pensar o fortalecimento da democracia brasileira sob um prisma da sustentabilidade ambiental, social e econômica.”

O cientista político Fernando Guarnieri desmistificou o lugar-comum de que as redes sociais estimulam bolhas e polarizações. Ele citou que 20% das interações no Twitter, plataforma tida como “praça pública global”, são entre pessoas que têm opiniões políticas contrárias. Outro pesquisa mencionada aponta que o acesso às redes sociais não estimula as polarizações.

Citada pelo gerente de políticas públicas do Twitter no Brasil, Fernando Gallo, como exemplo de como a tecnologia pode auxiliar na gestão pública, a cidade espanhola de Jun utiliza a plataforma como ferramenta de gestão. Um cidadão pode marcar o prefeito para avisar sobre uma lâmpada queimada. O prefeito, por sua vez, aciona o responsável pela manutenção. Por fim, o profissional envia a foto do serviço realizado para o cidadão e para o prefeito. Facilita o fato de a cidade ter 3,5 mil habitantes, mas é um laboratório de como a tecnologia pode ser usada de modo benéfico.

Cármen Lúcia, ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu entrevista transmitida ao vivo pela TV Estadão, antes do evento, fez uma espécie de preâmbulo às discussões que mais tarde ocorreram .

“A diferença que leva ao debate pode até ser conversada no espaço virtual, o que o (filósofo e sociólogo francês) Pierre Levy chama de ágora virtual. Porque tem a maior possibilidade de governos, governantes e administradores se apresentarem, a tal transparência, porque isso se faz de maneira mais rápida para que o cidadão possa ter pleno conhecimento do que está se passando”, afirmou a ministra.

“Eu acho que os instrumentos são ótimos, necessários, mas a tecnologia a serviço do ser humano. E não o ser humano se submetendo como se fosse uma peça deste instrumento. Como levaram o consumo, passou a se ter uma disputa de quem é que tem um celular melhor, quem é que tem a funcionalidade melhor. Sem se ater do que ele pode te oferecer a exercer a sua capacidade crítica, educado que você foi, para exercer a sua liberdade de criticar. E, portanto, de continuar livre”, completou.

Diante de um cenário movediço e de incertezas, os cientistas políticos não têm tido vida fácil. “Nós temos errado as nossas previsões, não temos conseguido nos antecipar a eventos que vêm numa velocidade muito grande. Mudando vários dos conceitos que estão estabelecidos desde a origem da ciência política. Então, é muito bom ter cada vez mais espaço para lidar com o que está acontecendo e refletir”, afirmou o cientista político Fernando Guarnieri.

“Um grande desafio que a gente tem hoje é mostrar que a democracia ainda é uma das melhores invenções do homem. A democracia é uma invenção. Foi criada em um local específico, em um tempo específico para resolver um certo problema. Na Filadélfia, Estados Unidos, final do século 18, resolveram criar um regime que você não concentrava todo poder em cima de uma figura só. Onde este poder poderia e ser compartilhado com o maior número de atores possível”, contextualizou.

Para ele, a invenção do sistema democrático trouxe diversos benefícios à sociedade e deixou uma marca na história.

“Fizeram todo esse desenho que conhecemos. Separação de poderes, eleições, Congresso, a democracia representativa, tudo isso foi uma invenção que saiu da cabeça de algumas pessoas reunidas numa assembleia há mais de 200 anos. Foi um dos momentos mais bonitos da humanidade, possibilitou grandíssimos avanços. Não conseguimos muita coisa a partir daí. Seria uma pena colocarmos em risco estes avanços, por causa de uma compreensão ruim do que está acontecendo”, concluiu Guarnieri.

O grande desafio é tentar, em termos democráticos, dentro destes canais, buscar maneiras de se aperfeiçoar estes mecanismos todos que foram criados para dar conta de um novo mundo que vivemos hoje.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Democracia em foco

Evento em Brasília debateu a relação entre a conectividade, cada vez mais presente no cotidiano do eleitor, e a ação política em todas as esferas públicas

Estadão, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Os desafios da democracia no Brasil foram tema de debate realizado na última quarta-feira, em Brasília. Sob o tema Desafios da Democracia no Brasil: Inovação e Representação num Mundo Hiperconectado, o encontro foi organizado pelo Estado e pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), no Senado, em Brasília, na última quarta-feira. Entre os temas abordados. discutiu-se o avanço das fake news, a polaridade nas redes sociais e a melhora na qualidade da informação, sempre com o objetivo de aprimorar a democracia.

O debate da última semana contou com Mônica Sodré, cientista política e diretora-executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, do também cientista político Fernando Guarnieri, do deputado federal Tadeu Alencar (PSB-PE) e do gerente de políticas públicas do Twitter Brasil, Fernando Gallo. Para o representante da plataforma digital, por exemplo, o microblog tem se empenhado e efetivamente atuado para excluir contas falsas e banir o uso de robôs virtuais no site, como forma de diminuir a propagação de notícias falsas. A polêmica em torno do assunto ocupou o noticiário durante as últimas eleições.

A ministra do Superior Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia também participou. Durante entrevista ao vivo antes do evento, reforçou a importância da comunicação e do uso das ferramentas tecnológicas para aprimorar o debate político, destacando a convivência e também o diálogo. Já o deputado Tadeu Alencar chamou a atenção para a importância da convivência democrática, que deve estar acima de ideologias e partidos políticos. Esse, aliás, foi o fio condutor do debate: manter diversas formas de pensamento caminhando juntas, com respeito a opiniões, contrárias ou não, com o objetivo de fortalecer o sistema democrático.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Financiamento público das campanhas é pilar

Para o deputado Tadeu Alencar (PSB-PE), mesmo com reações contrárias ao tema, democracia custa caro

Anne Warth, Brasília, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Alvo de críticas da população, o financiamento público das campanhas eleitorais é um dos pilares da democracia, avalia o deputado federal Tadeu Alencar (PSB-PE). “Embora haja uma reação ao fundo eleitoral, a democracia custa caro. O financiamento privado não é um problema em si, mas permitiu uma adulteração do processo eleitoral brasileiro”, disse o deputado, referindo-se à prática do caixa dois.

Segundo ele, as doações privadas podem ser legítimas e republicanas, mas vinculam o parlamentar e seus posicionamentos a grupos econômicos. “Mas, infelizmente, ainda não conseguimos traduzir para a sociedade que o financiamento público tem tudo a ver com a qualidade da democracia”, disse.

Para o deputado, porém, o sistema de financiamento público de campanhas deve ser aprimorado. Hoje, a divisão dos recursos é feita pelos próprios partidos, que utilizam critérios próprios para repassar o dinheiro. “Os partidos devem compreender a necessidade de transparência no uso desses recursos. As regras de distribuição do fundo partidário devem ser discutidas na legislação. Hoje, os partidos fazem da maneira que convém.”

A diretora-executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), Mônica Sodré, concorda com o deputado. Para ela, esse é um dos motivos que explicam a baixa participação de mulheres na política. “No modelo de financiamento atual, cada partido decide sobre a divisão de recursos. Se o partido entende que um candidato é menos viável, ele recebe menos dinheiro, e, para as mulheres, isso é particularmente sensível”, afirma Mônica Sodré.

O alcance das redes sociais e sua influência nas eleições e governos também foram tema dos debates. Segundo o gerente de políticas públicas do Twitter no Brasil, Fernando Gallo, quase todos os líderes mundiais utilizam a rede social para se comunicar. Ainda de acordo com ele, 97% dos Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) têm presença ativa nas plataformas.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Twitter permite mais proximidade com representantes

Para Fernando Gallo, gerente de políticas públicas da empresa, a rede consegue atender as demandas sociais

Paulo Oliveira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Em 13 anos de existência, o Twitter se tornou a principal ferramenta de comunicação de políticos em todo o mundo. Cada vez mais eles se manifestam por meio da rede, que tem se tornado o canal oficial de alguns deles.

“O Twitter vem sendo usado como uma espécie de praça pública de conversa. Há um alargamento da esfera pública, e o mundo digital costuma ser um reflexo do mundo fora das redes”, afirma o gerente de políticas públicas da rede social no Brasil, Fernando Gallo.

De acordo com ele, o fato de o microblog ser em tempo real e público permite maior aproximação entre representantes e representados. O gerente acrescenta que o uso da rede social por diferentes figuras políticas e entidades governamentais ultrapassa os limites institucionais.

Gallo cita a passagem do Furacão Harvey, em 2017, no estado americano do Texas como um exemplo da eficácia da ferramenta. Ele lembra que o uso da rede social possibilitou que equipes de resgate soubessem onde havia vítimas. 

Além disso, por meio da plataforma, foi possível estimular a arrecadação de donativos e milhões de dólares às vítimas do desastre natural.

No fim de junho deste ano, o Twitter publicou um comunicado que detalhava as regras sobre as postagens feitas por figuras públicas que violem as regras do site. A rede social só manterá a postagem caso o tuíte tenha interesse público.

A nova política prevê que o usuário da plataforma seja avisado sobre tais regras antes de acessar algum conteúdo sensível tuitado por essas pessoas.

“Um papel fundamental de nosso serviço é disponibilizar o registro do que esses líderes tuitaram para mantê-los responsáveis por suas declarações e, além disso, permitir que haja um espaço ao qual qualquer pessoa tenha acesso e possa responder publicamente a essas declarações”, alegou a empresa, por meio de um comunicado.

Segundo o Twitter, as regras são aplicadas a políticos ou representantes do governo, usuários com contas verificados e a quem tiver mais de 100 mil seguidores.

A empresa alega que as regras não serão aplicadas a postagens feitas antes de 27 de junho.

Tudo o que sabemos sobre:
Twitterdemocracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Combate às fake news deve incluir sociedade

Para cientista político, cidadãos não podem ficar fora da discussão com os três poderes

Paulo Oliveira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

As fake news ganharam protagonismo na internet. As notícias falsas, que envolvem desde anônimos até figuras mais conhecidas, têm crescido e trazido consequências desagradáveis. Medidas para tentar combatê-las têm sido estudadas e tomadas, mas uma solução ainda parece estar longe de uma solução ideal.

Tema muito discutido no debate, as fake news precisam ser combatidas. Para o cientista político Fernando Guarnieri, os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário precisam encontrar mecanismos para proteger a sociedade de abusos virtuais e, ao mesmo tempo, assegurar a liberdade de expressão.

Segundo ele, apesar da obrigação do poder público em proteger as pessoas contra as fake news, cabe também aos três poderes incluírem a sociedade nessa discussão. “O poder público não pode decidir o que é verdade e o que não é. O que tem que ser feito é um processo em que a sociedade tome o controle disso, de certa maneira. Tem que se buscar mecanismos para que ela consiga coibir abusos nas redes”, defende Guarnieri.

O gerente de políticas públicas do Twitter no Brasil, Fernando Gallo, ressalta que a rede social tem aprimorado os mecanismos de combate a contas falsas e robôs virtuais (softwares que ajudam na propagação de notícias falsas e calúnias). 

Além disso, de acordo com o microblog, entre janeiro e março deste ano, 100 mil contas foram suspensas por terem criado novos perfis após uma medida imposta pela política de regras da plataforma.

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, adverte sobre a importância em se informar por veículos de imprensa tradicional. “Nós mantivemos a confiabilidade da chamada mídia tradicional porque ela tem o cuidado da apuração. Estas mídias propiciam que se inventem situações que propagadas com rapidez não geram informações, geram informes”, disse a magistrada.

Sem citar nomes, o deputado federal Tadeu Alencar (PSB-PE) afirmou que “deveria haver um pacto de uso das redes sociais, principalmente em relação a pessoas públicas.”

O parlamentar destacou o papel do Poder Legislativo. Ele mencionou a importância da instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das fake news, que ocorreu na quarta-feira.

Eleições. A CPMI das fake news foi criada com o objetivo de investigar a disseminação de notícias falsas nas eleições do ano passado. Composta por 15 deputados federais e 15 senadores, a comissão terá 180 dias para concluir os seus trabalhos. 

No dia da instauração, o presidente do colegiado, Angelo Coronel (PSD-BA), disse que o principal objetivo da CPI é dar um basta nas fake news e descobrir quem são os seus principais divulgadores no Brasil.

O governo tentou emplacar políticos aliados na relatoria, mas o posto ficou com a deputada Lídice da Mata (PSB-BA). 

A criação da comissão foi feita por parlamentares do Centrão e contou também com a articulação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Em outra frente de atuação, os deputados derrubaram, no final de agosto, o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto que aplica penas mais duras a quem propagar notícias falsas.

Segundo uma pesquisa realizada pela IDEIA Big Data, 67% dos brasileiros afirmam ter recebido notícias falsas pelo WhatsApp durante campanha eleitoral do ano passado. O estudo foi feito com aproximadamente 1.600 brasileiros.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Cármen Lúcia: ‘As pessoas têm cada vez mais dificuldade de se comunicar’

Para ministra, ódio gerado pelas redes sociais é visto como ameaça ao jogodemocrático

Estadão, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Jurista, magistrada e professora, Cármen Lúcia é ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2006. Ocupou a presidência da Corte entre 2016 e 2018. Foi ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2009 a 2013, onde também foi presidente, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Ela concedeu entrevista no Senado Federal, transmitida ao vivo pela ‘TV Estadão’, no Facebook do ‘Estadão’. Confira os principais trechos.

A polaridade, hoje tão enfatizada, é um obstáculo para o debate político no campo virtual? 

Talvez a novidade seja a virulência e a exposição que se faz, no espaço virtual, sem freios inibitórios que antes se impunham. Em parte, porque no contato humano você se expõe de uma forma talvez mais respeitosa, mais acatada. Ou, pelo menos, mais que nas capitais, multipartidarismo existe e se mostra muito mais nos grandes conglomerados. Quem é do interior sabe que não tem muito partido, tem lado, você é do lado de alguém.

Mas isso não se acirrou?

Se transformou hoje em lados não partidários, mas de uma forma mais personalizada. Segundo o conjunto de valores ou de desvalores até ou de ideologias que não têm ideias no final, mas de compreensões de mundo que passaram a se contraditar de maneira frontal e isso então é que seria a polaridade a que você se refere.

O que seria novidade, então?

É nós termos isso num espaço em que não se respeita este outro porque, citando um pouco (o filósofo italiano) Norberto Bobbio (1909-2004), o jogo democrático se faz como todo jogo, em que as regras se põem e alguém tenta vencer combatendo o outro pela sua força, num jogo de bola de gude ou de futebol, mas querer vencer sabendo que o adversário é essencial para você se aperfeiçoar e o jogo continuar. Porque na democracia se tenta a continuidade das instituições e das práticas políticas para o aperfeiçoamento em benefício de todos. A grande mudança é que esta polaridade parece, muitas vezes, e estou usando o verbo que quero, parece, que não se quer vencer o outro, se quer matar o adversário. O jogo vai acabar se acontecer isso. Esta é uma novidade péssima, que é muito pouco humana, muito pouco democrática. Extinguir o outro, extinguir o diferente, extinguir o plural, extinguir aquilo que lhe é diverso não é manter um jogo democrático. É acabar com o jogo democrático e instalar as ditaduras, por qualquer de suas formas.

Qual é o ponto-chave?

A tecnologia que permite a informação melhorou muito. A comunicação, não. As pessoas se comunicam cada vez menos, têm mais dificuldade de se comunicar.

 

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Entrevista: ‘É preciso ter vozes que se respeitem’

Para Mônica Sodré, agregar diversas formas de pensamento é uma das principais metas do debate público

Fabiano Alcântara, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Cientista política e diretora-executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), Mônica Sodré foi uma das participantes do evento que discutiu a democracia em tempos de hiperconectividade. Ela falou sobre como o sistema político pode se aperfeiçoar, a partir da participação de mais atores políticos, e como se melhora o debate para evitar as polarizações. Mônica defendeu a importância de se valorizar a informação de qualidade e de se apegar aos fatos em detrimento das opiniões.

Quais são os próximos desafios para fortalecer o sistema político?

Um passo importante que nós precisamos dar é oferecer soluções para além do diagnóstico. Isso não é simples. Não é então somente o que se precisa fazer, também como se fazer com limitações orçamentárias. A gente tem teto de gastos. Tem uma série de dificuldades para prefeitos, vereadores, deputados federais, gestores, de maneira geral, para poder tocar algumas políticas nos seus locais. Então, resumiria desta duas formas.

Congregar pessoas de diferentes partidos e espectros políticos poderia ser um modelo para o diálogo e aperfeiçoamento da democracia?

Não abrimos mão que a diversidade esteja colocada. Seja ela partidária, étnica, geográfica ou de gênero. Tem muita importância, sobretudo em uma época de discussões tão polarizadas, acirradas, em que a tecnologia pode ser usada para manipular a qualidade de uma informação.

E como se qualifica este debate para que ele não fique só no ‘preto no branco’, evitar as polarizações?

Primeiro, trazendo diferentes atores. Segundo, colocando regras, com o perdão da palavra, de civilidade. Sabemos que as pessoas são, por vezes, adversárias eleitorais, sabem que elas têm diferenças. Ter diferentes vozes no debate e garantir também que as pessoas se respeitem, partindo sempre dos fatos e não das opiniões. É um exercício que fazemos no cotidiano.

Como trazer questões como a sustentabilidade para as pautas legislativas?

Essa questão está em voga pelos acontecimentos recentes (desmatamentos e queimadas). Mas nós temos a preocupação de trazer outros objetivos de desenvolvimento sustentável para a discussão. Não é simples. 

Incentivar a diversidade é um caminho natural para que a representatividade, de fato, aconteça?

Eu atribuo isto, primeiro, a uma sociedade que tem olhado de maneira mais cuidadosa para a política e, portanto, se preocupado em participar mais para além dos momentos eleitorais. E vejo também uma preocupação nossa em chegar a este público, que, em geral, não chegávamos. Uma comunicação mais segmentada. Se sabemos que tem uma liderança negra que fala com o público que não falamos, temos pedido ativamente para que esta pessoa faça propaganda e chame outras para a instituição.

Qual avaliação você faz do seminário?

São dois pontos fundamentais. Um debate de alto nível, numa casa legislativa, aberto ao público, gratuito, com transmissão online também para pessoas que não puderam estar aqui. O segundo, é um tema de fundamental importância para uma organização que nasceu com o compromisso de melhorar a democracia no Brasil. São duas organizações de natureza distinta (‘Estado’ e RAPS) mostrando que dá pra fazer, juntos, eventos, debates e fazer informação de qualidade circular, para que a democracia tenha a qualidade aprimorada.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Pioneirismo na melhoria da qualidade da democracia

Criada em 2012, RAPS tem como objetivo selecionar, capacitar e dar apoio a lideranças comprometidas com a transformação em um Brasil mais justo

Fabiano Alcântara, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Pautada pela diversidade e pelo fortalecimento da democracia, com melhoria em sua qualidade, a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) foi criada em 2012 com o objetivo de selecionar, capacitar e dar apoio a lideranças comprometidas com a transformação em um Brasil mais justo, com mais qualidade de vida, oportunidades a todos e que respeite os recursos naturais.

Atualmente, reúne cerca de 580 lideranças de 28 partidos políticos. Do PSOL ao Novo, a organização abriga representantes de diferentes espectros ideológicos, sendo 134 com mandatos eletivos.

São seis senadores, 26 deputados federais, 26 deputados estaduais, dois deputados distritais, 54 vereadores, dois governadores, 14 prefeitos e quatro vice-prefeitos. Os membros são escolhidos por meio de um processo de seleção anual.

Neste ano, ocorreu um aumento de 104% na quantidade de pessoas que se inscreveram, chegando a 7.030 postulantes.

“Um desafio para a gente é ampliar o número de pessoas que entram todos os anos. Já há muitos anos este número varia entre 60 e cem lideranças, o que é o máximo que nós conseguimos trabalhar com qualidade, mas é pouco perto do número de inscritos e do tamanho do Brasil”, comenta Mônica Sodré, cientista política e diretora-executiva da RAPS.

No seminário realizado na última quarta-feira, em Brasília, ela afirmou que, desde a sua fundação, a organização atraía mais homens, brancos e do Sudeste, mas que, neste ano, o quadro já havia ficado mais diverso e representativo, em termos de gênero, raça e origem geográfica.

Enquanto na última seleção os candidatos foram de 537 municípios, este ano foi de 1.421. A quantidade de negros e pardos também mais que dobrou, passando de 1.417 para 3.244 – representam 46%.

“Para nós, um próximo passo é garantir a perenidade, a sustentabilidade da RAPS, para que ela possa trazer mais pessoas. Isso é fundamental para mudança da democracia”, diz Mônica.

O processo busca políticos com mandato ou pessoas que pretendem se candidatar nos próximos anos, em todos os níveis de governo. Os selecionados podem ampliar seus conhecimentos sobre política institucional, participando de programas de imersão em mandatos legislativos e executivos e em campanhas eleitorais.

Eles podem, também, trocar experiências com lideranças políticas de todo Brasil, fortalecendo e dando mais qualidade à democracia, a missão da entidade.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Entrevista: 'O grande estímulo é para o diálogo'

Para Guilherme Leal, conversa e entendimento são caminhos que podem fortalecer o sistema democrático brasileiro

Paulo Oliveira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h00

Criada há sete anos, a RAPS tem como um dos pilares mostrar a importância da política para a população brasileira. A organização começou a atuar de forma efetiva em 2013, na esteira das manifestações daquele ano. “Em 2013, com as manifestações de rua, surge o desafio: como transformar a indignação dos movimentos em ações transformadoras?”, pergunta o presidente do conselho da entidade, Guilherme Leal. Segundo ele, é preciso aproximar a sociedade da política, apesar da insatisfação da população com o tema.

Leal já participou de eleições em 2010, quando foi vice da chapa encabeçada por Marina Silva. Na época, ambos eram do Partido Verde (PV). Entretanto, desde o surgimento da RAPS, ele tem tem atuado apenas no fomento da política de forma suprapartidária. 

A hiperconectividade traz mais prejuízos ou benefícios para a democracia?

Eu não sei se tem como nós fazermos um balanço, por enquanto. Porque ela traz inúmeras possibilidades, não há dúvida: do controle social, da participação do cidadão com os seus representantes no parlamento. São benefícios inquestionáveis. E, ao mesmo tempo, existe essa dúvida sobre até que ponto ela estimula a radicalização ou a disseminação de uma desinformação por meio de fake News. Ela traz consequências também inquestionáveis. Então, eu acho que é um balanço a ser feito. Há ainda muita discussão, muita reflexão e também evoluções nas regulamentações, para permitir que os aspectos positivos prevaleçam. 

Qual é a melhor forma de aproximar a população da classe política, diante do descrédito que esse grupo possui?

Esse é um ponto trabalhado que a RAPS tem procurado fazer, mostrando que a participação de cada um é fundamental, e de que a democracia começa com um exercício mais amplo da cidadania. Está em cada um de nós se envolver e não achar que o problema é do outro, que alguém virá resolver. Mas que somos todos nós que, coletivamente, construímos uma nação, uma sociedade mais inclusiva, mais justa e mais sustentável. O grande estímulo é para o diálogo, para a participação efetiva de todos nós. E para a abertura, obviamente, para a política e para que esse diálogo aconteça de forma coletiva.

Como entidades como a RAPS têm trabalhado, em meio à sociedade hiperconectada, para fortalecer a democracia brasileira?

Nós somos iniciativas de diversas naturezas, a principal delas é descriminalizar a política, perceber que sem ela sobra a barbárie, o confronto. Não há como evoluir sem o exercício da política. Nós temos buscado estimular esse debate. Temos muitos desafios na democracia brasileira e na democracia global, com as novas tecnologias, com os velhos e novos problemas. Acho que refletir conjuntamente com diversos atores sobre isso é uma contribuição para a democracia. 

Como você avalia o papel da RAPS nesses sete anos de existência?

A RAPS surgiu em 2012 para conduzir a política brasileira a um lugar de protagonismo, sempre acreditando no diálogo, na diversidade e no respeito como forma de produzir reflexões e ações transformadoras por meio da amizade cívica. Em 2013, com as manifestações de rua, surge o desafio: como transformar a indignação dos movimentos em ações transformadoras? Isso foi um fator acelerador da nossa rede. Com o avanço cada vez mais forte da tecnologia e formas de comunicação, surgem os desafios, que merecem reflexão e aprofundamento.

Tudo o que sabemos sobre:
democracia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.