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Equipe da CNN é hostilizada e expulsa de ato bolsonarista no Rio

Repórter teve que ser levado para uma viatura da PM após ouvir xingamentos; entidades condenam 'violação à liberdade de imprensa'

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2021 | 19h01
Atualizado 24 de maio de 2021 | 10h39

RIO - Uma equipe de reportagem da emissora CNN Brasil foi hostilizada e expulsa do ato bolsonarista deste domingo, 23, por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Sem máscaras, os manifestantes que promoveram aglomeração no Aterro do Flamengo, zona sul da cidade, fizeram com que o repórter do canal televisivo tivesse que ser levado para uma viatura da Polícia Militar.

Enquanto era conduzido por um agente para receber a proteção, o repórter Pedro Duran ouviu gritos de “lixo”, “bandido” e “comunista”, por exemplo. Alguns dos manifestantes avessos ao trabalho da imprensa também cercaram o profissional e colocaram bandeiras e celulares diante de seu rosto.

A CNN repudiou "todo tipo de agressão" e defendeu a liberdade de imprensa como um dos pilares da democracia. "Os jornalistas têm direito constitucional de exercer sua profissão de forma segura, para noticiarem fatos, dentro dos princípios do apartidarismo e da independência", disse a emissora.

Apesar de ter sido o único que precisou ser levado pela polícia, o repórter da CNN não foi o único a ser hostilizado pelos bolsonaristas. Os profissionais que ficaram no espaço reservado a jornalistas ouviram a todo momento xingamentos de quem passava por lá.

Acompanhado pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e por pelo menos mais dez aliados - todos sem máscaras e sobre um carro de som apertado -, Bolsonaro discursou no fim da manhã deste domingo para milhares de pessoas no Aterro, após a carreata de moto que saiu da Barra da Tijuca, na zona oeste.

O presidente voltou a criticar prefeitos e governadores que decretaram confinamento durante a pandemia e afirmou que jamais colocará o Exército, que chamou de seu, nas ruas para fazer lockdown. “Eu lamento cada morte no Brasil, não importa a motivação da mesma. Mas nós temos que ser fortes, temos que viver e sobreviver", disse Bolsonaro, antes de criticar medidas de distanciamento social.

Entidades condenam os ataques

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse que a intimidação a repórteres tem como objetivo impedir a cobertura de fatos de interesse público e é uma violação à liberdade de imprensa. "Tal comportamento é incentivado pelo presidente da República, que frequentemente propaga teorias conspiratórias, ofensas e discursos estigmatizantes contra jornalistas", diz a nota.

A Abraji destacou que todos os jornalistas presentes na manifestação foram vítimas das hostilidades, mas o repórter Pedro Duran foi filmado e passou a ser vítima de assédio virtual. O vereador de Niterói Douglas Gomes (PTC) compartilhou o vídeo e xingou a emissora.

A associação lembrou que outro jornalista da emissora já havia sido atacado pelo presidente Bolsonaro neste mês ao criticar ação policial na favela de Jacarezinho, no Rio. "A obstrução do trabalho da imprensa é antidemocrática e se espera dos poderes Legislativo e Judiciário uma posição firme em defesa dos direitos humanos e da civilidade na convivência entre cidadãos de diferentes opiniões", termina a nota.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio (SJPMRJ) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) também repudiaram a tentativa de impedir os jornalistas de exercerem sua função durante o ato.  Segundo as duas entidades, “em mais uma manifestação de truculência, intransigência, absoluto desrespeito com a atividade jornalística e a liberdade de imprensa e de expressão, grupos bolsonaristas atacaram hoje” o repórter da CNN. O Relatório da Violência contra Jornalista e Liberdade de Imprensa – 2020, produzido pela FENAJ, mostra que nos dois últimos anos é crescente a insegurança para o exercício da profissão de jornalista no Brasil.

Os ataques que profissionais de imprensa vêm sofrendo por parte de grupos de apoiadores do presidente passaram a ser frequentes e, lamentavelmente, são alimentados por Jair Bolsonaro, segundo a nota.

“Diante dos graves fatos registrados nessa manhã, o SJPMRJ e a FENAJ cobram das autoridades do município do Rio as providências necessárias no sentido de punir os responsáveis pela manifestação, que desrespeitou todas as medidas sanitárias de combate à pandemia e pôs em risco a vida de milhares de cidadãos cariocas”, pediu a nota oficial. E ainda: “A liberdade de imprensa é um dos pilares da Democracia. E dela jamais abriremos mão.”

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