Episódio reprisa roteiro do caso Vedoin

Nos dois cenários, Lula vivia bom momento e terminou na mira da oposição

Isabela Salgueiro e Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 00h00

Dois momentos do governo Lula, separados por 1 ano, 5 meses e 3 dias, mostram como reunir munição contra adversários pode ter efeitos imprevisíveis. O dossiê Vedoin e o dossiê dos cartões, que culminaram com um tiro no pé em plena eleição presidencial, no primeiro caso, e efeitos colaterais para a ministra de maior visibilidade, no cenário atual, têm várias similaridades: mobilização de pessoas próximas do núcleo do poder, vazamento de dados à imprensa e versões conflitantes. Nas duas ocasiões, o presidente Lula vivia fases extremamente favoráveis, até a artilharia da oposição começar a causar estrago.Em 14 de setembro de 2006, quando a Polícia Federal prendeu o ex-agente Gedimar Passos e o ex-arrecadador de campanhas do PT Valdebran Padilha perto do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com R$ 1,75 milhão para a compra de um dossiê contra políticos tucanos, as pesquisas davam como certa a reeleição de Lula no primeiro turno. Atingira 50% das intenções de voto, em curva ascendente, segundo o Ibope. O tucano Geraldo Alckmin tinha 29%. No último levantamento daquele mês, porém, Lula já caíra para 45% e Alckmin atingira 34%. A vitória veio, mas só em segundo turno.Em janeiro deste ano, começou a se desenhar uma nova crise, agora em torno dos cartões corporativos. Primeiro, derrubou a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro. Sob ameaça de CPI, o Planalto ordenou a coleta de dados da gestão Fernando Henrique, segundo revelou o Estado, em 19 de fevereiro. O dossiê vazou para a revista Veja. Descobriu-se que a ordem para coleta das informações veio do Ministério da Casa Civil, de Dilma Rousseff.Essa crise, que ainda não aponta para um desfecho no curto prazo, também atinge Lula, que comemora o aumento da classe C no País, a aprovação inédita de 58% (CNI/Ibope) e a exposição da pré-candidata Dilma, a "mãe do PAC".RAMIFICAÇÕESO primeiro dossiê, no rastro da Operação Sanguessuga - na qual a PF desbaratou um grupo ligado à família Vedoin -, respingou em Oswaldo Bargas (ajudou a elaborar o programa de governo de Lula), Jorge Lorenzetti (da "Abin do PT", amigo e churrasqueiro do presidente) e Freud Godoy (ex-assessor e segurança de Lula), entre outros.Desta vez, além de Dilma - que sexta-feira teve de dar explicações e já foi convocada a depor no Senado -, a crise atingiu a secretária-executiva, Erenice Guerra, e reacendeu uma CPI que começara morna.As versões conflitantes permearam os dois escândalos. No caso Vedoin, o governo e os citados primeiro negaram com veemência as irregularidades. Por fim, Lula tachou de "aloprados" os envolvidos. Desta vez, a negativa evoluiu para a versão de que o governo montou um " banco de dados", não um dossiê. "A matriz é a mesma", critica o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP). "Tentam desqualificar o adversário com dossiê. É péssimo, antidemocrático. Um vale-tudo muito preocupante", diz o tucano.O líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), destaca que a única similaridade com o caso Vedoin é a forma como reage uma parte do setor político, que alcunha de "baião de dois". "Ora obstrui a pauta, ora faz CPI", diz. "Procuram maximizar fatos e dar dimensão de crise." Apesar da alta temperatura no Congresso, ele não vê risco de a base dar tiros no pé.

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